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Como perfeitos desconhecidos

· ​Segunda e terceira meditação dos exercícios espirituais ·

Se precisamente estando à mesa os «perfetti sconosciuti» do filme campeão de bilheteria em 2016 revelaram-nos de modo trágico «o nosso estado de saúde» através «do jogo da descoberta com os telemóveis», revelando «adultérios e segredos», sempre à mesa «a refeição em companhia» é cristãmente um sinal de unidade e salvação. Esta referência cinematográfica – que lhe foi sugerida pelo sobrinho com uma mensagem no telemóvel – caraterizou a terceira meditação dos exercícios espirituais pronunciada pelo padre Giulio Michelini, na manhã de terça-feira, 7 de março, centrada justamente no tema «Pão e corpo, vinho e sangue» (Mateus 26, 20-35).

Diante do Papa e dos seus colaboradores da Cúria romana, o religioso convidou a inverter «a realidade do já não poder confiar em alguém e das traições», relançando ao contrário «a beleza do estar juntos» expressa também «pelo comer juntos». O filme do cineasta Paolo Genovese, explicou, narra «o jantar de três casais e um solteiro que colocam sobre a mesa os próprios telemóveis aceitando revelar o conteúdo das mensagens». E «é significativo que tudo aconteça precisamente à mesa», comentou o pregador.

Portanto, um verdadeiro exame de consciência já iniciado na tarde de segunda-feira, com a segunda meditação. O padre Michelini advertiu sobre a tentação de «nos reduzirmos a ser profissionais do sagrado», aceitando «situações de compromisso só para salvaguardar a fachada, a estrutura, a instituição, em detrimento dos direitos das pessoas». Portanto, atenção a permanecer «nos palácios, em nome de um abstrato ou ideal sentido do sagrado», sem «acolher os pobres».

Entre as sugestões para a reflexão da manhã de terça-feira, o religioso recomendou também a releitura da encíclica Laudato si', «sobretudo no ponto em que se condena a distribuição desigual de recursos, recordando-nos que no mundo é desperdiçado aproximadamente um terço dos alimentos produzidos, e que a comida que se deita fora é como se fosse roubado da mesa do pobre». Assim a primeira questão formulada pelo pregador «mexe connosco e diz respeito à nossa relação com os alimentos». A tal propósito repropôs a sétima das Regras para se ordenar doravante no comer de Santo Inácio de Loyola: «Guarde-se, sobretudo de que não esteja todo o seu espírito posto no que come, nem ao comer vá apressado pelo apetite, mas seja senhor de si, assim na maneira de comer como na quantidade que come».

O pregador sugeriu que se reflita exatamente sobre o «papel eclesial» confiado a cada um, convidando a questionar-se «como é possível que nós cristãos, que deveríamos encontrar a unidade ao redor da ceia, reproduzimos do mesmo modo, com as nossas divisões, as mesmas dinâmicas divisórias da comunidade de Corinto», segundo quanto se lamentava São Paulo, indicando a sua fragilidade.

Certamente, reconheceu, «muitos são os passos empreendidos para encontrar a unidade, por exemplo com os luteranos, mas ainda há muito a fazer». Uma terceira reflezão foi proposta pelo religioso em relação ao «perdão dos pecados», com a sugestão de se questionar «se estamos deveras conscientes de que Jesus, derramando o seu sangue, com a própria vida e não só com palavras, verdadeiramente disse e ofereceu o perdão de Deus».

Portanto, a meditação da manhã de terça-feira, inspirou-se na «dimensão teológica, antropológica e existencial do comer juntos», com a constatação inclusive de que «Adão era vegetariano e só depois da queda e do dilúvio foi permitido ao homem nutrir-se de animais». O padre Michelini depois passou a «analisar as palavras de Jesus sobre o pão e o cálice», mencionando «também a traição de Judas e a profecia do abandono».

Na tarde de segunda-feira, «as últimas palavras de Jesus e o início da paixão» (Mateus 26, 1-19) foram o fio condutor da segunda meditação. «Os exegetas – afirmou o religioso – debatem sobre quando tem início a narração da paixão de Jesus»: e precisamente «no evangelho de Mateus há um sinal claro: quando Jesus acabou os seus discursos». Aqui não se está a referir-se «só aos cinco discursos que atravessam todo o primeiro evangelho – esclareceu – mas diz-se que, dali por diante, Jesus levará a cabo a obra de outro modo, diminuindo gradualmente as suas palavras, até nada mais dizer, exceto um escandaloso grito da cruz, tão penoso que foi omitido dos evangelhos de Lucas e de João».

Contudo, afirmou o pregador, o Senhor «falará de outra maneira: com alguns gestos, como o dom do seu corpo e do seu sangue; com os factos, através da paixão; e com o silêncio mais do que com as palavras». Mas «às vezes, como se lê nas histórias chasídicas, as palavras nem sequer servem», acrescentou, contando: «Uma vez o Baalschem parou no limiar de uma sinagoga e rejeitou pôr os pés nele. “Não posso entrar”, disse, “de uma parede à outra e do chão ao teto está tão repleta de ensinamentos e orações que onde ainda teria lugar para mim?”. E notando que quantos o circundavam olhavam-no admirados, disse: “As palavras que saem dos lábios dos mestres e de quantos rezam, mas não de um coração voltado para o céu, não se elevam ao alto, mas enchem a casa de uma parede à outra e do chão ao teto”».

«Contudo, o significado de um silêncio – observou Michelini – nunca é banal e pode implicar muitas coisas, por exemplo a dificuldade nas relações, rancor, reservas mentais». Enquanto «o silêncio de Jesus pode ser definido de três maneiras: é desarmante, é desarmado, é sereno». Além disso, prosseguiu o pregador, «enquanto Jesus prepara a sua Páscoa acontecem duas coisas: outros, distorcendo o sentido da festa, preocupam-se que “tudo corra bem” e, por conseguinte, só para não criar problemas de ordem pública, decidem eliminar Jesus “não durante a festa”». E «depois uma mulher anónima, na narração de Mateus, unge a cabeça de Jesus: trata-se de um gesto de “desperdício” que, como notou uma monja clarissa, descreve o que a fundadora Clara de Assis fez da sua vida, “despedaçando duramente na dura solidão da sua cela o alabastro do seu corpo, para que o inteiro edifício da Igreja se enchesse dos aromas da sua santidade”».

Todavia, explicou o franciscano, «aquele gesto de desperdício permite ver naquele símbolo o “desperdício” absoluto, o do Senhor Jesus, que se ofereceu totalmente a nós sem nada conservar para si». E «esta mulher anónima de Betânia é a única, diversamente dos discípulos presentes, a entender o que acontecia a Jesus». A ponto que «o Senhor defende-a e repreende os seus, fazendo entrar assim os pobres no banquete: “Os pobres tende-os sempre convosco”».

Precisamente na perspetiva desta meditação, «pensando no silêncio de Jesus», Michelini convidou a questionar-se «de que modo comunicamos a nossa fé: se apenas com palavras ou com a vida». Resumindo, disse, é oportuno verificar «se a minha vida é evangelização» e também «de que tipo são os meus silêncios e, em relação ao ministério eclesial que desempenho, se sou culpado de silêncios que não deveriam existir».

A meditação sobre o trecho de Mateus leva a questionar-nos: isto é, «se nós, em nome de um abstrato ou ideal sentido do sagrado, sobretudo nós que deveríamos estar a serviço do homem, em vez de entrar na casa onde se encontra Jesus permanecemos parados no palácio, como os chefes dos sacerdotes e anciãos que, só para fazer com que uma festa religiosa tivesse bom êxito, condenaram à morte um inocente». Por fim, concluiu o religioso, nunca devemos parar de nos perguntar «se acolhemos os pobres ou preferimos as partes mais agradáveis a nós, ungindo os pés de Jesus com a liturgia e a oração», mas descuidando dos últimos; sem contudo esquecer a tentação oposta, ou seja, dedicar-se aos pobres esquecendo a oração.

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24 de Abril de 2019

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