Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

Como palavras do Evangelho na história

· Em diálogo com o arcebispo João Braz de Aviz novo prefeito da Congregação para os religiosos ·

É um arcebispo brasileiro, que desde quando era seminarista descobriu e abraçou o carisma do Movimento dos focolares. Confessa candidamente que não tem muita experiência no âmbito da vida consagrada, mas tem ideias muito claras sobre como a renovar. Pensa que é necessário redescobrir a dimensão trinitária a todos os níveis, como modelo de comunhão e de abertura aos outros, para impedir que a vida comum se torne uma penitência e não uma ocasião para viver o amor evangélico. Desde o dia 4 de Janeiro é o prefeito da Congregação para os Institutos de vida consagrada e as Sociedades de vida apostólica. D. João Braz de Aviz fala sobre isto nesta entrevista que concedeu ao nosso jornal.

Vossa Excelência não pertence a uma congregação religiosa. Pensa que isto é um problema para o novo serviço que o espera?

Foi a pergunta que fiz a Sua Eminência o Cardeal Tarcisio Bertone no dia 14 de dezembro passado, quando ele me telefonou em nome do Santo Padre. Sua Eminência me respondeu dizendo que isso não criava problema algum já que outros prefeitos, como no caso de D. Cláudio Hummes, que é religioso, foram prefeitos da Congregação para o Clero. Com efeito, não pertenç0 a uma congregação religiosa. No entanto, fiz sete anos de seminário menor com o pime em Assis, São Paulo (de 1958 a 1964). Isso se deu pelo fato de que, na época, a Diocese de Londrina-pr, à qual eu pertencia, não tinha seminário. Desde então o contacto estreito com o Movimento dos focolares aproximou-me das ordens e congregações cujos membros se inspiram na espiritualidade da unidade. Percebi que esses religiosos e religiosas se renovam e ajudam a revitalizar suas famílias religiosas.

Teve contactos ou experências com outros movimentos eclesiais e laicais?

O Movimento dos focolares é minha família desde os dezesseis anos de idade. Através de sua espiritualidade, em todas as dioceses por onde passei (Vitória-es; Ponta Grossa-pr; Maringá-pr e Brasília-df), sempre trabalhei pela unidade desses novos carismas e comunidades e das antigas associações, como resposta às preciosas orientações do Santo Padre João Paulo II, na carta Novo millennio ineunte (n. 43), sobre a espiritualidade de comunhão como critério de vida eclesial para o milênio que se inicia.

Nos últimos anos, em particular após o concílio Vaticano II , a crise da vida consagrada foi mencionada. De que tipo de crise se trata?

O Concílio Vaticano II pediu às Ordens e Congregações religiosas um «aggiornamento», que comportou uma revisão das regras e constituições, diante das novas circunstâncias culturais e históricas do século passado. A volta às fontes, isto é, ao coração do carisma trazido à Igreja pelo fundador, e o cuidado com as novas circunstâncias, que comportavam novas sensibilidades, ofereceram a muitas famílias religiosas a ocasião de uma renovação e revitalização, com abundantes frutos. Hoje várias Ordens e Congregações sofrem a diminuição das vocações, o envelhecimento de seus membros e, em muitos casos, uma diversidade de orientação de seus membros, dentro da própria família religiosa. Por outro lado, ao menos em parte, a influência do individualismo e do relativismo de nosso tempo atingiu também alguns ambientes da vida consagrada, diminuindo seu vigor. Penso que precisamos sobretudo penetrar mais a fundo no mistério de Deus, para poder renovar os relacionamentos. Nesse sentido, a carência teológica e mística de uma experiência da Santíssima Trindade como fonte da comunhão levou a afirmações negativas quanto à vida comunitária. É o caso, por exemplo, da afirmação recolhida pelo autor do clássico A Imitação de Cristo : «Todas as vezes que fui para o meio dos homens, voltei menos homem». O mesmo vale para a afirmação dos consagrados: «A minha máxima penitência é a vida comum». A descoberta experiencial de que Deus é amor e de que nós somos criados à imagem de Deus, poderà levar também os consagrados e as comunidades a afirmar: «O outro, a outra, para mim é a oportunidade constante de experimentar Deus, de experimentar o amor». Penso que esta é a realidade que sobretudo precisa ser restaurada.

A reafirmada autonomia das congregações religiosas em relação aos ordinários locais no passado, com frequência, levou a recíprocas incompreensões. As visitas pastorais dos Pontífices nos últimos trinta anos contribuíram de qualquer maneira para melhorar as relações com os bispos?

O sábio e atento magistério dos últimos Papas manifestou-se como uma base segura de caminho eclesial em um momento de novas descobertas e de experiências. Autonomia e dependência são valores humanos que não podem ser compreendidos e construídos apenas com critérios sociológicos. A experiência da fé nos faz compreender e viver estes valores a partir do critério da comunhão, que tem sua raiz no mistério da unidade e trindade de Deus. Quando autonomia e dependência se tornam experiência de amor, obediência e autoridade se equilibram e causam grande alegria interior. Nestes dias visitei em Brasília a sede da Conferência dos Religiosos do Brasil. Encontrei aí um grande espírito de comunhão e, por isso, de diálogo profundo. É preciso acreditar na unidade e continuar dando passos novos.

Pensa que a diminuição das vocações é expressão de um momento passageiro, embora difícil, ou um sinal sério de alarme para o futuro?

Não são apenas os religiosos e as religiosas que experimentam a diminuição das vocações. Este é um fenômeno mais amplo e que não se manifesta de modo idêntico nas diversas partes do mundo. A Europa sente de modo especial este problema. Na medida em que crescer a fidelidade dos batizados à sua vocação de discípulos, ao mesmo tempo que esse testemunho for dado em comunhão com os demais carismas e realidades da Igreja, a vitalidade reaparecerá.

A vida consagrada no Brasil desempenhou um papel importante no desenvolvimento e na evolução da teologia da libertação. Como viveu aquele longo período de busca teológica e pastoral?

A opção preferencial pelos pobres é evangélica e dela dependerá, para além de tudo, nossa própria salvação (cf. Mt 25). Sua descoberta e sua construção pela Teologia da Libertação significaram um olhar sincero e responsável da Igreja em direção ao vasto fenômeno da exclusão social. O Papa João Paulo II afirmou, na época, através da carta enviada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil pelas mãos do Cardeal Gantin, que a teologia da libertação não só é útil, mas também necessária. Na época as duas instruções enviadas por Roma sobre esse assunto corrigiam questões ligadas ao uso do método marxista na interpretação da realidade. Penso que ainda não foi completado o trabalho teológico para desvincular a opção pelos pobres de sua dependência de uma teologia da libertação ideológica, como nos alertou ultimamente Bento XVI. Um dos caminhos mais promissores, penso, está em aplicar à interpretação da realidade a ontologia e a antropologia trinitárias. Pessoalmente vivi os anos do nascimento da teologia da libertação com muita angústia. Estava em Roma estudando teologia. O pós-Concílio, a teologia da libertação, a sensibilidade da juventude pelos valores da liberdade e da transformação social invadiam nossos ideais. Pessoalmente, quase abandonei a vocação sacerdotal e mesmo a Igreja. O que me salvou foi o compromisso sincero com a espiritualidade da unidade no Movimento dos focolares. Os religiosos e as religiosas, pela radicalidade de sua vocação evangélica, poderão colaborar muito para esse novo encaminhamento.

O que os religiosos podem esperar da sua ação de governo e orientação?

Embora não seja religioso, penso que o Santo Padre me confiou a colaboração num dos organismos mais sensíveis da Igreja. A vida consagrada é uma pérola de enorme valor. As Ordens e Congregações religiosas são Palavras do Evangelho espalhadas ao longo de toda a história da Igreja. Das grandes experiências religiosas nasceram grandes escolas de espiritualidade e delas nasceram grandes escolas de teologia. A fidelidade aos fundadores e a comunhão profunda com a Igreja poderão reconduzir a vida consagrada a um brilho maior a serviç0 da Igreja e da humanidade.

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

22 de Setembro de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS