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Como é bonito casar-se (em Milão)

Pesquisa sobre como mudaram os futuros esposos e os cursos pré-matrimoniais

Ele tem quase 37 anos (36,6), ela pouco mais de 34 (34,2). Esta é a idade média de quem se casa pela primeira vez em Milão. Segundo os dados do sector de Estatística do Município relativos aos matrimónios civis e religiosos de 2011, está em aumento contínuo a idade média com que se pronuncia o suspirado sim. Em 2001 os homens coroavam a sua história de amor aos 32,5 anos e as mulheres aos 30,3. A comparação com a média nacional indica-nos que em Milão os casais esperam para se casar, em média, quatro anos a mais em relação às outras partes da Itália. Estes dados são a premissa que permite entender a nova situação dos percursos de preparação para o matrimónio na diocese ambrosiana.

O retrato da situação não pretende ser de alta definição, pelo modo como se apresentam as características da diocese, que abrange um amplo e diversificado território, que inclui quatro cidades actualmente capitais provinciais (além de Milão, Monza, Lecco e Varese) mas também muitíssimas pequenas vilas em áreas rurais, sobretudo no sul, e montanhosas do norte.

Na diocese a preparação para o matrimónio é um sector no qual as comunidades cristãs prodigalizaram muito esmero e inteligência. Em média são propostos 8-9 encontros, diversamente geridos segundo os recursos (a presença ou não de casais preparados, contribuição do consultório de inspiração cristã) e o ponto de vista do pároco, que é o primeiro responsável pela proposta aos noivos. Nestes últimos anos estes itinerários estão no centro de um processo de reflexão sobretudo sobre a linguagem, os métodos e a nova situação sócio-eclesial.

Recordamos que a celebração de matrimónios religiosos está a sofrer uma grande diminuição na Itália (menos 23,3 por cento nos últimos 5 anos) e que em 2011, também no norte do País, as celebrações civis foram mais numerosas que as religiosas. Não se trata de uma ultrapassagem em sentido absoluto, porque entre as uniões civis também são contadas as segundas núpcias de pessoas já casadas pela igreja, que não podem ser novamente celebradas de forma religiosa. A tendência à diminuição dos matrimónios religiosos também se verificou de modo evidente na nossa diocese – as estimativas dizem que na década 2001-2011 se passou de 23.539 para 6.969 – e incidiu na prática pastoral. Se no passado cada paróquia de dimensão média tinha pelo menos um curso pré-matrimonial em cada ano, agora o diminuição dos pedidos, e a reorganização das paróquias em comunidades pastorais, levou a propor os percursos de preparação em escala sobre-paroquial e em dois momentos distintos do ano.

Os pastores das comunidades mais sensíveis, normalmente estão dispostas a seguir também percursos diferenciados para casais com situações de trabalho ou logísticas desfavorecidas. É cada vez mais frequente a situação de pessoas que se aproximam do matrimónio podendo encontrar-se só no fim de semana, porque são obrigados a estar longe de Milão por motivos de trabalho ou porque individuam nesta cidade um ponto médio facilmente alcançável de deslocações distantes. Apesar da mágoa por um contexto de crescente secularização, que a diminuição dos percursos marca, a nova situação originou uma melhoria da qualidade, porque estimulou diversas paróquias a juntarem as forças e a compararem experiências diversas, frequentemente desenvolvidas na ausência de debate e de verificação. Estamos conscientes de que os que hoje pedem o matrimónio cristão estão mais motivados, fazem-no porque intuíram nesta escolha uma vantagem para si e para a própria família e sentem que a esfera religiosa tem um valor particular que garante profundidade e raízes para o futuro. Portanto não se podem desatender estas expectativas e esperanças. Poucos mas bons, diz-se muitas vezes, e sobretudo neste ponto a Igreja sente a preciosidade das pessoas que encontra e a urgência de uma proposta séria e eficaz do ponto de vista cristão. Aqueles bons não se podem perder!

Os dados estatísticos não conseguem descrever com a mesma exactidão o fenómeno mais surpreendente dos últimos anos, ou seja, a explosão da prática da convivência pré-matrimonial, muito difundida também entre quem pede o matrimónio cristão. Trata-se de uma mudança radical de mentalidade, pois a maioria dos crentes já não se aproxima do matrimónio na forma da fides , mas como uma experiência. Quer-se experimentar antes de decidir, é este o motivo mais frequente. Esta mudança impõe também a sua registação linguística, pois nos percursos de preparação para o matrimónio os “namorados” quase desapareceram, cedendo o lugar a casais de “nubentes” com as mais diversas composições. A preparação para o matrimónio encontra-se, portanto, diante de um novo género de frequentadores; da compreensão das suas características dependerá depois a estrutura dos percursos. Alguns dados podem-nos ajudar: nas paróquias das áreas urbanas os casais conviventes são por volta de 95 por cento, nas outras zonas a percentagem oscila entre 60 e 75 por cento. Entre eles, por volta de 30 por cento já tem um filho e com frequência são já casados pelo civil. De recente um casal que acompanhava um grupo de futuros esposos na parte sul da província de Milão descreveu-nos a seguinte composição: em 10 casais que participavam, 8 já conviviam. Entre eles 3 tinham pelo menos um filho. Um pedia o matrimónio religioso depois de 12 anos de convivência e já tinha três filhos.

Ao pedido de interpretar estas mudanças, os sacerdotes e os agentes pastorais que consultamos concordam em atribuir o sucesso da convivência ao carácter pervasivo da mentalidade corrente, que com dificuldade poupa também os jovens crescidos nas famílias crentes e nos ambientes próximos da Igreja. Mais em profundidade, parece que estes jovens partilham, com os outros da mesma idade, o receio pelo resultado de uma relação definitiva. Um período de prova sossega. Mas estes casais assinalam que na base da decisão de conviver encontra-se também a precariedade da situação de trabalho, o que desencoraja o assumir responsabilidades definitivas. Motivação não sem fundamento se os dados da pesquisa nacional, realizada pelo Centro italiano para os estudos sobre a família, em 2008 evidenciavam que no norte 65 por cento dos noivos tinha contratos de trabalho a prazo e 2,6 por cento estavam desempregados.

Um outro elemento de novidade indicado é a significativa correlação entre geração e matrimónio. Tornar-se pais é um passo importante, que parece marcar também uma alteração na percepção do vínculo de casal, que, depois do nascimento de um filho, sente que é mais importante e portanto requer um passo a mais. O matrimónio é sentido como o alcançar uma meta existencial importante; não se vive só para si próprios, dá-se peso institucional à relação, recupera-se o valor social do instituto familiar, que as novas gerações geralmente têm dificuldade de entender num contexto marcado pela perda do sentido comunitário e civil. Os percursos eclesiais marcam, para os participantes, uma alegre redescoberta deste conjunto de significados e do seu potencial sentido. Os agentes informam que há um grande interesse por parte dos casais participantes e muitos deles afirmam que encontraram nela uma inspiração duradoura para continuar um percurso de casal.

Os agentes com mais experiência relevam contudo que a mudança descrita leva a considerar que tudo o que podia ser dado por certo, há 20 anos, em termos de convicções e comportamentos fiéis ao magistério eclesial, agora possa ser proposto somente como meta de um caminho que inicia nesta ocasião, com a redescoberta dos valores do “amar-se como cristãos” nos percursos de preparação para o matrimónio. As comunidades cristãs, a partir das secretarias paroquiais, como salientou o Papa Francisco, são portanto chamadas a acolher toda a variedade de situações existenciais que batem às portas para pedir o matrimónio segundo a Igreja.

Acolhimento grato, porque quem convive já demonstrou que não precisa das indicações da Igreja, no entanto regressa com uma questão que é sempre menos devida a um condicionamento social e portanto é autêntica, mesmo se por vezes ainda um pouco confusa e em estado embrionário. Portanto as comunidades têm a função de acolher e fazer fermentar, conscientes da tarefa delicada e importantíssima: ajudar a unir de novo os fios de uma fé, com frequência negligenciada há anos, à volta do sonho de uma vida a dois da qual se espera muito. Tarefa de evangelização, mas também de “humanização”. Não mencionamos as altas percentagens de falência dos matrimónios, sintoma claro da fragilidade de uma época que vive um momento de evidente incerteza a respeito das referências antropológicos fundamentais. Mas é claro que a situação descrita encoraja as comunidades cristãs a assumir também este perfil, voltando importância cultural à sabedoria evangélica das relações.

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25 de Agosto de 2019

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