Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

Como desmontar a alma

· E criar espaço para os desígnios de Deus ·

Quando se sente o impulso interior de entrar na vida religiosa, tem-se unicamente uma vaga ideia daquilo que poderia acontecer. A única luz que, de alguma maneira, nos guia é a certeza (e também esta é muito frágil) de que Deus chama, utilizando algumas mediações humanas.

A consciência de ser apenas serviço de um ideal abre caminho dentro de nós, de maneira muito gradual. A primeira fase deste processo comporta um enorme consumo de energias. Acreditamos que muito depende dos nossos esforços pessoais, sobretudo procuramos realizar alguns projectos que a nossa imaginação elaborou. Isto diz respeito tanto ao conceito de missão, como ao conceito de santidade e, mais ainda, ao conceito de Deus. O crescimento interior consiste, substancialmente, num trabalho de «desmontagem» dos nossos projectos, para deixar espaço a fim de que o Espírito Santo construa os seus. Isto parece fácil a nível de palavras, mas é muito complicado, porque tem a ver com a nossa personalidade, com a nossa cultura, com a educação que recebemos e, de forma geral, com a nossa capacidade de compreender, de intuir e de criar.

Todos os dons que recebemos de Deus, em termos de inteligência, criatividade e cultura, ou de tendências, podem favorecer a nossa realização cristã e por conseguinte os desígnios de Deus, ou então ser contrários. Favorecem quando nós, livremente, aceitamos o risco de pôr em dúvida as nossas certezas, para depois voltar a encontrá-las purificadas e reorganizadas, em conformidade com um renovado sistema de valores. São contrários quando a nossa resistência a mudar e o nosso medo de nos perdermos é tão forte que chega a desencorajar qualquer tentativa da nossa vontade. Depois, do que pode depender a força interior de arriscar ou não tudo aquilo que nós somos é sempre um mistério. Contudo, podemos pensar que em geral depende da graça de Deus, da consistência dos nossos ideais, de um pouco de desejo de aventura e de tendências naturais que servem de propulsores nas pessoas que se propõem seriamente algumas metas.

No meu caso, parece misterioso o facto de que, não obstante algumas dificuldades concretas, eu nunca tenha sentido o desejo de voltar atrás. As dificuldades exteriores não foram para mim insuperáveis. Refiro-me, por exemplo, à necessidade de me adaptar a pessoas, culturas, trabalhos e climas diferentes; ao facto de que as minhas ideias quase nunca coincidiam com as dos outros, ou que eu sempre tive uma atitude crítica em relação à mentalidade e à organização interna do convento; ou ainda à minha tendência a variar, num contexto onde, ao contrário, a estabilidade e uniformidade eram consideradas um valor.

As minhas dificuldades mais sérias foram sempre de cunho psicológico, ou também ideal. Provavelmente, estas dificuldades viriam contudo a constituir um problema para mim. No entanto, o processo ao qual chamei desmontagem interior foi extremamente árduo. Houve pouquíssimas pessoas que me puderam ajudar de maneira séria e, portanto, tive que estabelecer uma relação absolutamente particular com o Deus que me tinha fascinado e que me educava, contra a minha vontade, para a solidão, o silêncio interior, o vazio e a impotência de mudar o meu destino. A obscuridade à qual a minha fé foi sempre submetida permitiu-me não tergiversar demais diante das exigências do Evangelho e de me esforçar por distinguir entre o meu gosto e o se referia aos valores cristãos. Erros e debilidades não deviam encontrar justificações indevidas, mas sim misericórdia. Para preencher o abismo entre o ideal que eu me propunha e as minhas incoerências consumi muitas energias, mas também compreendi que esta era tarefa mais da Graça de Deus do que minha, e assim abandonei-me a Ele (embora não tanto quanto teria sido necessário). O conflito comigo mesma ter-se-ia atenuado depois de muitos anos de vida religiosa. No entanto, devo dizer que jamais desapareceu. Ao mesmo tempo, deste equilíbrio-desequilíbrio contínuo, deste caos sempre nascente dependeram a riqueza e a vitalidade da minha própria vida. Através de vários momentos existenciais (de anos), compreendi melhor que a missão é uma dádiva. Também ela não depende de nós. Podemos trabalhar, rezar, lutar e até morrer para alcançar uma meta, mas «se o Senhor não edifica a casa, em vão trabalham os construtores» ( Salmo 127).

Então, para que serviriam o sofrimento, os sacrifícios, as renúncias e as lutas? É que para sermos amigos de Deus e obtermos aquilo que procuramos dele, para O termos no sono (como recita o Salmo), ou seja, quando é Ele quem crê, e não nós, é necessária uma participação concreta, vigilante, por vezes heróica, para que nós e os outros possamos ter «vida em abundância» ( Jo 10, 10). Isto não significa que quanto realizamos é inútil. Quer dizer que o essencial se encontra mais no ser, que no fazer. Se recebemos da mãe natureza uma índole capaz de produzir, esta dádiva deve passar através de numerosas purificações, se não quiser ser constantemente frustrada.

Tendo tido Deus como Educador principal, passei através de frustrações de todos os tipos. Os critérios de Deus são trilhos magníficos sobre os quais devem correr a verdade e a justiça, a caridade e a esperança, bem como todo o género de virtudes. Tudo aquilo que se desvia destes trilhos provoca frustrações terríveis, e esta é uma forma perfeita de educação. O meu desejo de alcançar a santidade foi profundamente purificado. Deus sabe o que nos é útil, e não aceita conselhos. Lenta mas inexoravelmente, tudo o que arriscamos com tanto receio volta a encontrar o seu lugar exacto. A fé que cresce vai unificando, dentro de nós, todas as intuições dispersas. As dificuldades que nos apresentam interrogações infinitas vão perdendo consistência, quando se começa a sentir que o único mandamento consiste em «amar a Deus sobre todas as coisas, e o nosso próximo como a nós mesmos».

Tudo isto não está separado da vida de cada dia, do esforço de nos pormos de acordo com os outros, da exigência de ganhar o pão com as próprias mãos, das decepções que a realidade proporciona. E é precisamente nesta solidariedade com o mal e o bem do mundo que caminhamos, apoiando-nos uns aos outros, aceitando o mistério de uma vida cheia de incertezas, mas também seio de possibilidades infinitas que o desígnio de Deus põe à nossa disposição. 

Maria Barbagallo

                     A autora

Maria Barbagallo nasceu em Roma, de uma família católica de origem siciliana, e com 24 anos entrou na congregação das Missionárias do Sagrado Coração de Jesus. Formou-se em pedagogia e ensinou ininterruptamente a crianças e a adolescentes. A partir de 1974 foi missionária no meio dos pobres na América Central, onde atravessou alguns momentos mais difíceis e dolorosos daqueles anos, como o tremor de terra na Guatemala e a revolução sandinista na Nicarágua. Durante doze anos foi superiora-geral das cabrinianas. Ocupando-se hoje da história do instituto – entre outras coisas – reorganizou o museu dedicado a Francesca Cabrini na primeira casa, fundada pela santa em Codogno. O texto aqui publicado é um breve resumo do volume Fino agli estremi confini del mondo (Marietti, 2012)

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

22 de Agosto de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS