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Como a Carta aos Gálatas

Um texto apaixonado e sem precedentes nascido do coração de Bento XVI para contribuir para a paz na Igreja: eis a Carta do Papa aos bispos católicos sobre a remissão da excomunhão aos prelados consagrados em 1988. Sem precedentes porque não tem precedentes recentes o alvoroço desencadeado após a publicação da disposição de 24 de Janeiro passado. Não é por acaso que na vigília  do cinquentenário do anúncio do Vaticano II, porque a intenção do Bispo de Roma – agora confirmada mas já em si evidente, como no mesmo dia tinha ressaltado o nosso jornal – era e é a de evitar o perigo de um cisma. Com um gesto inicial de misericórdia, perfeitamente em sintonia com o Concílio e com a tradição da Igreja.

Sobre a conveniência deste gesto multiplicaram-se as perguntas e sobretudo foram lançadas a Bento XVI acusações infundadas e enormes: de negação do Vaticano II e de obscurantismo. Até a uma desonesta e incrível deturpação do gesto papal, favorecida pela difusão, numa concomitância de tempos certamente não casual, das afirmações negacionistas em relação ao Shoah de um dos prelados ao qual o Papa remeteu a excomunhão. Afirmações inaceitáveis – e também isto foi imediatamente ressaltado pelo jornal do Papa – como inaceitáveis e vergonhosas são as atitudes em relação ao judaísmo de alguns membros dos grupos aos quais Bento XVI estendeu a mão.

A transformação da misericórdia num incrível gesto de hostilidade contra os judeus – que se pretendeu repetidamente atribuir ao Pontífice de muitas partes, também influentes – foi grave porque ignorou a realidade desvirtuando a convicção e as realizações pessoais de Joseph Ratzinger como teólogo, como Bispo e como Papa, em textos à disposição de todos. Perante este ataque concêntrico, até da parte de católicos e também «com ódio», Bento XVI quis «ainda mais» agradecer aos judeus que ajudaram a superar este  momento difícil, confirmando a vontade de uma amizade e de uma fraternidade que afunda as suas raízes na fé do único Deus e nas Escrituras.

A lucidez da análise papal não evita questões abertas e difíceis, como a necessidade de uma atenção e de uma comunicação mais preparadas e oportunas num contexto global no qual a informação, omnipresente e superabundante, está continuamente exposta a instrumentalizações, entre as quais as chamadas fugas de notícias, que dificilmente não se definem deploráveis. Também no interior da Cúria Romana, órgão historicamente colegial e que na Igreja tem um dever de exemplaridade.

Depois o Papa enfrenta o núcleo da questão: isto é, o problema dos chamados grupos tradicionalistas e o perigo do cisma, com a distinção dos níveis disciplinar e doutrinal. Noutras palavras, a nível disciplinar Bento XVI revogou a excomunhão mas a nível doutrinal é necessário que os tradicionalistas – em relação aos quais o Papa não poupa tons severos mas confiando na reconciliação – não congelem o magistério da Igreja em 1962. Assim como os supostos grandes defensores do Concílio devem recordar que o Vaticano II não pode ser separado da fé professada e confessada no decorrer dos séculos.

Era este gesto deveras uma prioridade? O Papa diz que sim porque num mundo no qual a chama da fé corre o risco de se apagar a prioridade é precisamente conduzir os homens para o Deus que falou no Sinai e se manifestou em Jesus. Um Deus que corre o risco de desaparecer do horizonte humano e que só o testemunho de unidade dos crentes torna crível. Eis por que são importantes a unidade da Igreja católica e o empenho ecuménico, eis por que tem significado o diálogo entre as religiões. Por isto a grande Igreja – uma palavra que a tradição tem a peito – deve procurar a paz com todos. Por isto os católicos não devem dilacerar-se como os Gálatas aos quais Paulo por volta do ano 56 escreveu uma das cartas mais dramáticas e bonitas. Como esta do Papa Bento.

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15 de Dezembro de 2019

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