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Comecei assim a degradar-me

· Pesquisa entre os adolescentes que procuram no sexo um antídoto para o vazio ·

«Na vossa opinião o que significa não cometer actos impuros?». «Talvez queira dizer não matar alguém, dentro?» (menina da terceira classe no catecismo, Borgotrebbia).

Eu estive na paróquia de Borgotrebbia, na periferia de Piacenza, convidada para uma das noites de quinta-feira onde o pároco, padre Pietro Cesena, recolhe ao seu redor por volta de setenta jovens, entre 16 e 30 anos, provenientes dos bairros mais pobres da cidade. Há alguns anos o tema que é debatido é o do amor entre o homem e a mulher. Os jovens, quase todos sem uma verdadeira família, fizeram-me uma série de perguntas prementes: queriam entender algo mais sobre o clima cultural que tinha levado os pais, com tanta superficialidade, a desfazerem-se do elo familiar, sem se importarem com o destino de solidão a que condenavam o filho. Queriam entender o sentido daquela utopia de felicidade através do sexo – ou seja, aquela que estamos habituados a chamar “revolução sexual” - que tinha destruído as suas famílias.

Porque, foi-me logo claro, se o fim de uma relação com os pais é difícil de viver para os filhos de qualquer condição social, certamente se torna mais difícil nas famílias pobres, onde não há babysitter a fazer com que seja menos evidente e dramática a ausência dos pais. Aqueles jovens tinham vivido em casas inóspitas, onde não havia quase nunca uma refeição pronta à espera deles depois da escola, onde ninguém cuidava deles durante muitas horas. Não era uma questão de pais incapazes de educar, aqui os pais estavam totalmente ausentes e estes jovens traziam neles os traços desta ausência, desta vida amarga e difícil, em cada palavra, em cada olhar.

A seguir ao nosso encontro, o padre Pietro continuou o trabalho, e pediu-lhes para escreverem uma resposta a estas perguntas: «O modo como vives a sexualidade é conforme com a vontade de Deus ou segundo o teu egoísmo? Quais são, na tua opinião, as causas, os factos e as feridas que te conduzem a viver deste modo?». As respostas são emocionantes e todas testemunham, em geral, que a sexualidade vivida por estes jovens, muitas vezes precoce e indiscriminada, nasce da busca de um contacto humano, de alguém que os aceite e que os ame. É a busca de um substituto do amor familiar que não tiveram e, todas as vezes, revela-se uma amarga desilusão que só aumenta a solidão. As moças articulam mais a sua dificuldade, são capazes de expor com mais profundidade as motivações que as levam a esta vida, os rapazes narram as pressões do mundo externo, todas finalizadas a concentrar a atenção deles no sexo, a facilidade com que se recorre à pornografia através da internet. Mas no fim entende-se que o desespero e a solidão são iguais para ambos os sexos.

Escreve uma jovem: «Nunca ninguém me ensinou qual seja a vontade do Senhor a respeito da sexualidade. Eu, no entanto, cresci com uma minha ideia: teria perdido a virgindade com quem sentia que naquele momento seria aquele certo, que naquele momento teria feito amor e não sexo. Depois, a pessoa mais importante da minha vida, a minha mãe, foi-se embora de casa. Para ela foi mais importante a sua felicidade que o amor pelos filhos. Eu, a partir daquele momento, não me senti mais amada por ninguém e pensei que mais ninguém conseguiria amar-me. Por este motivo agi de modo egoísta e satisfiz um meu prazer. Fui para a cama com um meu amigo, entre nós não havia uma relação de amor, nenhum sentimento além de uma simples amizade. E o fiz. Porquê? (…) Pensei em conceder-me porque ninguém se importava comigo e só assim tentava receber daquele rapaz um pouco de amor. Estive mal depois daquela vez, estava um caco. Mas voltei a fazê-lo ainda e ainda. Naqueles momentos não raciocinas, não pensas como poderias estar depois, não pensas que seja inútil. Mas voltei a fazê-lo várias vezes porque tens diante um exemplo de mãe que desperdiçou a sua vida... E eu então o que deveria pensar? Que um dia conseguirei amar? Que um dia não sofrerei por amor? Que um dia chegarei ao ponto em que estarei disposta a morrer pelo outro? Agora em mim há somente tanto medo, medo de amar. É por este motivo que erro e comporto-me como uma egoísta».

É do mesmo modo lúcida na sua angústia uma outra jovem, que confessa como «num instante a minha necessidade de afecto se tornou uma dependência». E continua «sempre me disseram que sou um erro, além de um erro sinto-me um horror, tenho nojo de mim, não posso pensar em todas as mãos que tocaram em mim. Não tenho importância para ninguém (…) Sei com certeza que nunca tive um pai, e a minha mãe era sobretudo uma convivente desleixada, que não se apercebia que na gaveta não tinha sonhos mas uma montanha de cuecas de renda».

E ainda mais uma outra jovem, ao confessar a sua fraqueza, escreve «as causas infelizmente conheço-as muito bem, porque são aquelas que devo enfrentar todos os dias, ou seja a minha insegurança, o meu sentimento de solidão que me leva a pensar que só possa ser preenchido pelo outro sexo, o meu grande desejo de ser amada».

A separação dos pais continua a ser evocada como uma ferida incurável: «Mas o ter visto falir o matrimónio dos meus pais destruiu todas as minhas esperanças e os meus sonhos. A pergunta que me persegue é: “Se for mãe farei aos meus filhos o mesmo mal que me foi feito?”».

Uma outra jovem narra como, por acaso, entrou «na voragem da pornografia. Eu mesma as chamo porcarias porque me fazem sentir vergonha e porque depois que apago tudo, desgostam-me, mas, apesar disso, há momentos em que caio em continuação. Quando estudava era o ócio a condicionar-me, hoje é o senso de falência da minha vida afectiva que me impulsiona com uma força superior à que, no fundo, gostaria que o Senhor usasse para me fazer parar».

«Sempre disse a mim mesma: Fazem-no todos, porque não deveria?» escreve outra, mas «hoje, depois que voltei a aproximar-me da Igreja, depois que ouvi muito a Palavra... bem... agora sei que sou importante, sei que o meu corpo é importante».

O frequentar os encontros paroquiais – onde se sentiram acolhidos e amados – marcou para todos uma mudança. «E se não posso dizer que entendi – escreve um rapaz – pelo menos intuí que há uma esperança também para mim e isto porque a vi em muitos de vós que estais aqui esta noite, na dignidade com que carregais mochilas tão pesadas, na força que tendes para reagir que, se vos conheço ao menos um pouco, sei que não vos pertence... Não é daqui, mas de um outro mundo».

Lucetta Scaraffia

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21 de Outubro de 2019

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