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Com o modo de ser do anjo

· Apresentado no Meeting de Rímini o primeiro volume das obras completas do Papa dedicado à liturgia ·

«Um dom implica também uma responsabilidade: certificar-se dele, não o descuidar, procurar entender o seu valor e perceber a sua importância no tempo», explicou o Pe. Giuseppe Costa, director da Libreria Editrice Vaticana, durante a apresentação em antestreia para a Itália do primeiro volume das obras completas do Papa Bento XVI ( Teologia della liturgia, Cidade do Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, 2010, 849 páginas), realizado no domingo 22 de Agosto, no Meeting para a amizade entre os povos de Rímini.

«Os livros do Papa são uma imensa riqueza – continuou o Pe. Costa – um dom que é nossa tarefa e responsabilidade divulgar. Está para ser publicado o segundo volume de Jesus de Nazaré , enquanto continuaremos a editar as colectâneas das catequeses de quarta-feira; para dar uma ideia do interesse das editoras de todo o mundo, nos Estados Unidos cinco editores publicá-la-ão simultaneamente. Trata-se de partilhar um bem que o Senhor nos dá, particularmente precioso na desorientação do nosso tempo». É o primeiro passo de uma obra grandiosa: 16 volumes, 20 mil páginas de ensaios, homilias e lições das quais o bispo de Regensburg, D. Gerhard Ludwig Müller, presente no encontro, teve «a alegria e o empenho» de se ocupar para a edição em alemão. «Poder-se-ia dizer que as temáticas mais complicadas são como que tiradas da própria complexidade e tornadas transparentes na sua linearidade interna – explicou D. Müller a «L'Osservatore Romano», ao falar sobre a obra que o genius loci da sua diocese viu nascer e depois teve a tarefa de conservar: em Regensburg o professor Joseph Ratzinger ensinou de 1969 até {l-racute} sua nomeação para arcebispo de Munique e Frisinga em 1977, e sempre em Regensburg, em 2006, durante a visita pastoral na sua pátria bávara foi pronunciada a célebre lectio magistralis na qual o Pontífice descreveu mais difundidamente a íntima conexão entre fé e razão.

O volume que inaugura a publicação das obras completas de Joseph Ratzinger é dedicado ao tema da liturgia porque «na relação com a liturgia se decide o destino da fé e da igreja», le-se na capa da edição italiana, cuidada por Pierluca Azzaro e Edmondo Caruana, também presentes durante o encontro.

«Antes de tudo Deus; isto significa iniciar com a liturgia – le-se no prefácio do Papa ao volume – lá onde o olhar sobre Deus não é determinante, todas as coisas perdem a sua orientação. As palavras da regra beneditina Nihil Operi Dei praeponetur (nada se anteponha ao ofício divino, 43, 3) valem de modo específico para o monaquismo, mas na ordem das prioridades tem valor também para a vida da Igreja e do indivíduo, para cada um de maneira própria. Talvez seja útil recordar aqui que na palavra ortodoxia a segunda metade da palavra, dóxa , não significa opinião mas glória; não se trata da opinião justa sobre Deus mas do modo exacto de o glorificar, de responder a Ele».

Se a Beleza é o esplendor da Verdade, a chave para comunicar a experiencia «do eterno no tempo» é precisamente a «ferida da beleza», comenta Alberto Savorana, porta-voz de «Comunhão e Libertação», citando a intervenção sobre a Semana Santa que em 2002 o então cardeal Ratzinger enviou ao Meeting: a beleza fere, é como uma seta que atinge a alma, chama-a para o seu destino último e abre os seus olhos para a sua natureza infinita. Segundo uma antiga lenda russa, Vladimir, príncipe de Kiev, não se converteu ao cristianismo depois de uma obra de persuasão missionária particularmente convincente mas graças ao encontro com a beleza do culto divino.

Roberto Fontolan, director do Centro internacional de Roma de «Comunhão e Libertação», apresentando o livro disse: «A minha primeira e constante reacção foi a surpresa; a clareza da linguagem de Joseph Ratzinger é conhecida, mas a paixão do Papa pela liturgia, que define “o centro da minha vida”, consegue deveras contagiar. Antes de tudo, eis um ponto fundamental. Muito além dos actos litúrgicos singularmente considerados e vividos, sobre os quais de resto existem muitíssimas e iluminadoras páginas, o culto cristão é “experiencia da contemporaneidade com o mistério pascal de Cristo”. Nele “existe algo dos sacramentos primordiais, sacramentos da criação que nascem dos pontos fulcrais da experiencia humana e deixam entrever uma imagem tanto da essencia do homem quanto do tipo da sua relação com Deus. Pontos fulcrais como o nascimento, a morte, as refeiç{l-odblacute}es, a união sexual”. Nessas condiç{l-odblacute}es biológicas o homem sabe que é subjugado por um poder que não pode chamar nem vencer e que, ainda antes das suas decis{l-odblacute}es, já o circunda e sustenta. Ao que chama fendas, citando Schleiermacher, através das quais a eternidade lança um olhar no proceder uniforme da vida quotidiana do homem. Assim, inicia o sentido da espiritualidade, o conectar-se com o cosmos, o projectar-se na dimensão do “com”: com as coisas, com os outros homens. Para os cristãos, isto é para mim, a liturgia torna-se portanto uma questão terrivelmente séria – continua Fontolan – que tem a ver com a própria concepção da fé e investe a própria vida da Igreja, a sua presença eficaz no mundo. A perda da centralidade de Deus, a confusão da consciencia da contemporaneidade de Cristo revelam-se em muitos indícios, inclusive na liturgia, e revelam uma espécie de rendição {l-racute} modernidade que cancela o mistério do horizonte humano». A arte visual, por exemplo, manifesta «o inteiro problema do conhecimento da época moderna: se não se verifica no homem uma abertura interior que o torne capaz de ver algo a mais do que é mensurável e ponderável e de perceber na criação o esplendor do divino, então Deus fica excluído do nosso campo visual» escreve o autor. Portanto, não o ver significa já não vive-lo.

A propósito das igrejas, entendidas como edifícios, o autor escreve: «O edifício igreja, para conservar a sua legitimidade cristã, deve ser católico no sentido originário da palavra, uma morada dos crentes em todos os lugares». E depois cita Albert Camus «que deu uma expressão chocante {l-racute} experiencia do alhear-se e da solidão» narrando uma viagem a Praga, «numa cidade onde não entende a língua dos seus habitantes, és como um exilado; também o esplendor das igrejas permanece mudo e não consola. Para um fiel isto deveria ser impossível: onde está a Igreja, a presença eucarística do Senhor, fazes experiencia de pátria».

Para o autor tudo concorre para construir a maravilhosa catedral da liturgia cristã, que vale a pena conhecer, amar e, sobretudo, viver plenamente porque a liturgia, como escreveu Luigi Giussani, «é um discurso que não acaba e nos arrasta para dentro do mistério de Deus no mundo, pelo fluxo da força da Graça de Deus». Arrastados para dentro; «é exactamente a experiencia que fiz e procurei repropor-vos, sentindo-me um leitor que deve aprender tudo», concluiu Fontolan. «Rezar – continuou Savorana ao citar o discurso de saudação ao Meeting do cardeal secretário de Estado, Tarcisio Bertone – não é um evento das nuvens para cima, não é uma fuga do mundo, mas é o máximo do concreto; aprender a perguntar e a desejar, a «orientar bem os desejos», aprender a viver. Rezar é o posto avançado do homem em batalha para defender o coração do homem no seu desejo de coisas grandes. A preocupação que o Papa exprimiu com frequencia é que a inteligencia da fé se torne inteligencia da realidade; a igreja deveria ser o lugar em que a beleza é de casa, «a beleza – escreve Bento XVI – sem a qual o mundo se torna o primeiro círculo do inferno». «Gostaria de concluir as minhas consideraç{l-odblacute}es com um bonito pensamento de Mahatma Gandhi que encontrei num calendário – escreve o Papa no ensaio sobre a teologia da música sacra publicado no volume, no capítulo sobre a «A imagem do mundo e do homem própria da liturgia» – no mar vivem os peixes silenciosamente, os animais sobre a terra gritam, mas os pássaros, cujo espaço vital é o céu, cantam. Do mar é próprio o silenciar, da terra o gritar e do céu o cantar. Contudo, o homem participa nos tres: traz em si a profundidade do mar, o peso da terra e a elevação do céu e, por isso, são suas também as tres propriedades, o silenciar, o gritar e o cantar. Hoje, gostaria de acrescentar, ao homem privado de transcendencia só lhe resta o gritar, porque quer ser apenas terra e procura tornar terra inclusive o céu e a profundidade do mar. A liturgia justa, a liturgia da comunhão restitui-lhe a sua integridade. Ela ensina-lhe de novo o silenciar e o cantar, abrindo-lhe a profundidade do mar e ensinando-lhe a voar, que é o modo de ser do anjo; elevando o seu coração faz ressoar novamente nele o canto que fora sepultado».

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16 de Setembro de 2019

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