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A colina dos coletes salva-vidas

· Em Lesbos onde o Papa se encontrará com os refugiados ·

Na tarde de 14 de abril o Papa Francisco depôs rosas brancas e azuis sobre o altar da Salus populi Romani, na basílica de Santa Maria Maior, onde foi com a finalidade de lhe confiar a viagem do dia 16 à ilha de Lesbos, para se encontrar com os refugiados aí acampados. Branco e azul são as cores da bandeira grega, as cores do mar e das ondas cheias de espuma que se quebram na praia. Mas são outras as cores que nestes dias chegam do Egeu. Os ilhéus chamam-lhe «tsunami alaranjado”: são mais de 40.000 metros cúbicos de coletes salva-vidas acumulados na praia, que se tornaram o símbolo de um êxodo infinito, o indicador daquela que foi definida a pior crise humanitária na Europa desde a segunda guerra mundial.

Estamos nos arredores da pequena cidade de Molyvos, no norte da ilha de Lesbos, extremo confim da Europa, a apenas dez km da Turquia, de onde todas as noites homens, mulheres e crianças partem na esperança de chegar à Grécia e esquecer a guerra ou a pobreza. É aí que se encontra a colina artificial, um imenso amontoado cor de laranja, formado por coletes salva-vidas usados pelos refugiados e pelos migrantes para atravessar o mar Egeu. Equivalente a quatro campos de futebol cheios de descartes de plástico, nylon e esponja, que as autoridades locais não sabem como eliminar.

Do silêncio emergem dor, esperança e piedade. Há coletes de todos os tamanhos, até muito pequeninos. Cada um traz consigo a história de uma vida, muitos conservam indeléveis os sinais de uma luta ímpar pela sobrevivência em botes cheios de pessoas no estreito que separa a Turquia da Grécia: águas escuras e agitadas no inverno, calmas e cor de esmeralda no verão.

Com os seus milhares de páginas, feitas de medo e desumanidade, a narração dos refugiados de Lesbos é um choque contínuo, também porque os coletes cor de laranja disseminados pela ilha muitas vezes não ajudaram quem os usava. São defeituosos, absorvem a água, não mantêm à tona quem os utiliza, impedem que a pessoa nade. E em vez de salvar, facilitam o afogamento. Produzidos em fábricas turcas ilegais, são vendidos a preços mais baixos – cerca de 10 dólares, enquanto um colete autêntico custa 30 dólares – com marcas falsificadas. São uma ulterior armadilha, mais uma vergonhosa especulação dos traficantes de seres humanos.

Segundo os controles efetuados pelas autoridades gregas, de cada cem coletes salva-vidas só um é fabricado em conformidade com as normas. É um dado assustador. De acordo com a Organização internacional para as migrações, desde o início do ano aqui já morreram 442 pessoas; com efeito, ao longo do último ano passaram pela Grécia 876.000 migrantes, dos quais mais de 510.000 pela ilha de Lesbos. «Estamos habituados à dor diária, mas foi dilacerante organizar o funeral de uma criança de apenas dois meses, perdida no mar por um casal de jovens pais. O seu pequeno corpo saiu do colete salva-vidas em poucos segundos. Este estreito do mar Egeu é a nova fronteira da dor». Quem fala é Maritina Koraki, coordenadora das ajudas humanitárias da Caritas Hellas (Cáritas grega) na ilha. Graças ao apoio financeiro da Cáritas suíça, os voluntários conseguiram assumir a gestão de uma estrutura de primeiro acolhimento e assistência aos refugiados, onde por turnos e só por poucos dias são hospedados crianças, deficientes, mulheres sozinhas com filhos, idosos.

«A colina dos coletes salva-vidas é a imagem símbolo de uma vergonha europeia. Daqui a poucas horas o Papa Francisco estará aqui e para nós é uma viagem que abraça a Grécia inteira, deixada sozinha a enfrentar a emergência dos refugiados. Francisco dirige uma pergunta a cada um de nós, sobre o modo como devemos ser e permanecer humanos», conclui Maritina Koraki. Desde o início de dezembro até hoje a Cáritas grega já acolheu mais de cinco mil pessoas, e continua a fazê-lo, inclusive com a distribuição de sacos-cama, roupas, produtos para a higiene e para crianças, mais de três mil.

«Há tensão, o clima mudou», diz Letizia Zamboni, voluntária da Cáritas véneta: «Até agora a Grécia era um país de trânsito, não de repatriamento». Segundo a Caritas Internationalis, na ilha «o principal campo de refugiados e imigrantes é hoje um “centro fechado”, o que significa que os refugiados e os imigrantes não estão autorizados a partir». Embora o fluxo tenha diminuído notavelmente, a 13 de abril ainda chegaram 45 pessoas, numa daquelas pequenas embarcações com as quais milhares de indivíduos continuam a partir todos os dias do litoral turco rumo à Europa.

Silvina Pérez

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19 de Agosto de 2019

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