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Colaboradoras do Criador

Para Cristo o essencial, «a parte melhor», é escutar a sua Palavra e pô-la em prática. Ele nunca divide a humanidade em homens e mulheres, em poderosos e servidores, em doutos ou ignorantes. O que deseja são homens e mulheres que tenham olhos para ver e ouvidos para ouvir, para entender, para serem conduzidos à sua vocação original, ou seja tornarem-se filhos e filhas do seu Pai. Desde o início, os homens e as mulheres não são colocados uns em relação aos outros, mas ambos em relação a Deus. A Bíblia não nos dá um quadro teórico ou uma estrutura teológica para nos ensinar quais são as especificidades do homem e/ou da mulher. 

O que a Bíblia propõe é que uma criatura não seja definida em relação a outra criatura; uma mulher não se define em comparação com um homem e vice-versa. O que são e o que devem viver entende-se ao ver quem é o Senhor Deus e o que faz por eles. Podemos então perguntar-nos: como está colocada a mulher em relação a Deus? Ao ler os evangelhos somos levados a olhar atentamente e a observar o modo como Jesus encontra os homens e as mulheres. Com ele não há teologia nem do homem nem da mulher, mas mais uma luz sobre uma eventual teologia do encontro: aquela de um ou de alguns homens com ele, aquela de uma ou de diversas mulheres com ele, e por fim aquela do encontro de Jesus com homens e mulheres, ou seja connosco, agora. Como encontra Jesus as mulheres do Evangelho? O que acontece de único e precioso naqueles encontros tão diversos? Como revela Jesus às mulheres a sua graça, o dom e a especificidade? Quem são as mulheres para Jesus? Quem é Jesus para a mulher e para as mulheres? Os encontros de Jesus com as mulheres são momentos excepcionais, até mesmo fundamentais; não nos oferecem um estudo douto, nem uma teologia nem uma lista de expectativas, mas só o modo como Jesus as revela a elas próprias: presentes, fortes e inteligentes (no sentido de inteleggere, «ler dentro»).

Quando Jesus está cansado, quando sofre, quando pede um gesto de afecto, quando morre e quando ressuscita, as mulheres estão presentes, estão ali. E a presença delas indefectível é já uma das primeiras graças femininas que Jesus põe em evidência. Encontros de separação e de liberdade: Jesus e sua mãe. Jesus nasceu de uma mulher, é banal repeti-lo, mas o nascimento de Jesus atribui à primeira mulher do Evangelho numa condição especial: a de mãe do seu filho e também de discípula. Nada é dito sobre a relação de Jesus com a sua mãe em termos de ternura, de maternidade e muito menos de afecto. Todos os Evangelhos evidenciam o progressivo destaque de Jesus da sua mãe e vice-versa. Jesus aos doze anos no templo de Jerusalém distancia-se da sua mãe preocupada dizendo-lhe: «“Por que me procuráveis? Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?” (…) Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração» (Lc, 2, 49-51). O menino Jesus repreende a sua mãe e coloca-a no seu lugar. Ela continua a ser sua mãe, mas aceita dar-lhe espaço, conserva o que ouviu com os seus ouvidos interiores e não retém o filho. Entra noutra «posse», por assim dizer, o da Palavra que constrói. Abandona um apego que poderia contrastar o seu filho e a si própria. Aceita que o filho a evite, mas retém na mente as suas palavras e os seus actos e protege-o de outro modo. Aprende e ensina-nos a liberdade, aquela aprendizagem da disponibilidade na maternidade para deixar o outro livre nas suas escolhas. Do mesmo modo, em seguida, quando Jesus ensina entre a multidão sentada à sua volta e lhe é dito: «Estão lá fora a tua mãe e os teus irmãos que te procuram», Ele responde: «Aí estão minha mãe e meus irmãos. Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (Mc 3, 32-35).

Jesus com a sua palavra corta, separa, inverte e purifica todos os vínculos de posse. O encontro com Jesus abre, amplia e dá um sentido à relação com ele. Homem ou mulher, aquele ou aquela que escuta e que enraíza a sua palavra na própria vida, torna-se mãe e irmão, ou seja ele ou ela devem fazer nascer o próprio conjunto e mostrar-lhe este vínculo de confiança que vai além dos vínculos de sangue. Encontros que dão vida, que fazem nascer: no novo Testamento, quando a mulher cananeia se aproxima de Jesus para lhe pedir a cura da sua filha, Jesus admira-a e diz-lhe: «Mulher, é grande a tua fé! Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Mt 15, 28). Encontra-se de novo esta expressão só mais uma vez no mesmo evangelho quando Jesus está no Getsémani e diz a seu Pai: «...não seja como Eu quero, mas como Tu queres» (26, 39). O que esta mulher cananeia deseja, ou seja a plenitude da vida para a sua filha, é o que Pai quer. Do mesmo modo, quando Maria aceita trazer o filho de Deus no seu ventre, sabe o que faz, como uma parceira do Pai, sem avisar nem o namorado nem o pai. Faz nascer o seu filho para a vida e deste modo revela-nos uma das vocações fundamentais de qualquer mulher: é uma colaboradora e uma reveladora do Pai e da sua vontade. Na Escritura não há narrações de nascimentos de mulheres (cf. Philippe Lefebvre, Ce que dit la Bible sur la famille, Paris, Nouvelle Cité, 2014, págs. 55-62).

Ao ler atentamente os textos bíblicos, com frequência encontram-se narrações de nascimentos de homens que depois se tornam pais; de facto um pai para o seu filho é um homem que se descobriu filho diante de Deus, é esta a verdadeira natureza de um pai. O pai revela algo da filiação com Deus, torna-se progressivamente filho no Filho. Recebe a vida de Deus para nascer e tornar-se realmente homem e pai. Portanto pode-se dizer que na Bíblia o momento crucial para um homem é nascer. Pois bem, a mulher situa-se de modo diverso diante de Deus; está ao lado do Pai, remete para Deus sentido como Pai, trabalha com o Pai para restabelecer a vida, para a implantar na terra. Por exemplo, as duas mulheres judias que no livro do Êxodo decidem, apesar da proibição do faraó, de ter filhos varões. Fazem-nos nascer a qualquer preço. Fazendo assim colocam-se no lugar do Deus criador e permitem que inicie uma nova etapa da história de Israel, tornando-se mães do povo. Agem como colaboradoras do Criador; revelam aquele Deus Pai que funda a vida. A Bíblia revela-nos portanto que existem infinitos modos para uma mulher exprimir o próprio ser e assumir a maternidade: uma mulher pode portanto ser mãe sem dar à luz um filho. Assim no Génesis, as três primeiras gerações de matriarcas (Sara, Rebeca e Raquele) são estéreis. Mas em toda a história de Sara com Abraão, por exemplo, vê-se que ela, através da sua experiência, apresenta e mostra uma figura materna que atravessará toda a Bíblia: é mãe aquela que acolhe a vinda improvável de Deus. O encontro do novo nascimento: Maria Madalena, outra mãe para a Igreja. Quando Maria Madalena encontra Jesus ressuscitado, está a nascer o dia, tudo acontece de manhã muito cedo, «quando ainda estava escuro» (Jo, 20, 1), um pouco como a obscuridade do primeiro dia da semana no livro do Génesis, quando Deus cria a luz e a separa das trevas. Jesus está para despertar do sono da morte e encontra Maria Madalena no jardim ali ao lado. Ela não o reconhece logo, então Jesus interpela-a dizendo-lhe: «Mulher, porque choras?» (Jo, 20, 15). Já tinha utilizado o apelativo mulher para a própria mãe, a primeira vez nas bodas de Caná (cf. Jo, 2, 4), em seguida, alguns instantes antes de morrer na cruz, quando diz: «Mulher, eis o teu filho!» (Jo 19, 26). Pois bem, no encontro de Jesus com Maria Madalena, acontece uma coisa excepcional (que ele não faz por nenhuma outra mulher no Evangelho de João): chama-a pelo nome: «Maria». É o próprio Cristo ressuscitado que a chama pelo nome e fazendo assim acorda-a e, num certo sentido, ressuscita-a. Até àquele momento ela tinha visto Jesus mas não o tinha reconhecido, portanto ainda não o tinha visto. São os seus ouvidos interiores que começam a percebê-lo. Depois ela toca-o, entra em contacto com ele e assim reconhece-o. Então Cristo repreende-a dizendo-lhe: «Não me detenhas». Porque uma boa nova deve acontecer: Cristo deve subir ao Pai.

O gesto de tocar «visível» e táctil de Maria confirma a missão de Cristo: ele deve conduzir e levar toda a humanidade ao Pai. E é então que lhe diz «vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: “Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus”». (Jo, 20, 17). Envia a primeira discípula ressuscitada, a primeira dos apóstolos. Ela faz-se porta-voz de Cristo. Reconheceu o ressuscitado ouvindo-o e anunciou-o, porque não pode deixar de falar. De facto entendeu com todas as fibras do seu ser que a humanidade não é feita para a morte, mas que a supera e atravessa porque outra vida a espera. A sua palavra é sem dúvida entre as mais audazes e mais fecundas da história humana. Os discípulos, ouvindo-a anunciar a boa e feliz nova, são obrigados a ser homens: devem viver como ele, ou seja como filhos do Pai. Esta surpresa incrível da ressurreição, esta «boa nova», Maria, nos séculos dos séculos, conserva-a, protege-a e fá-la frutificar, para fazer nascer cada novo leitor ou ouvinte que dela tome conhecimento. Pôr-se a caminho para encontrar Cristo e vê-lo encontrar mulheres é uma aventura que nos transforma, nos modifica e altera os nossos conceitos.

Esta peregrinação interior não acaba nunca, porque em cada encontro há uma parte inerente de mistério. Por isso a conclusão deste artigo cabe a um jesuíta francês, padre Teilhard de Chardin. Antes de mais com uma sua prece: «Na minha oração pedi que a mulher encontrasse nos séculos que hão-de vir a verdadeira forma da sua acção que, ao continuar a da Virgem, deve conferir-nos (em algo de insubstituível) a visão e o amor de Deus». E depois com um extracto da sua poesia O Eterno feminino: «A Virgem é também mulher e mãe / eis o sinal dos novos tempos... / Os pagãos na Acrópole / acusam o Evangelho de ter desfigurado o Mundo... / E choram a Beleza... / é uma blasfémia!/ A Voz de Cristo não é um sinal de ruptura... / de uma emancipação / Como se os eleitos de Deus, recusando a Lei da Carne / pudessem romper os vínculos que os unem aos destinos da sua raça / e escapar da corrente cósmica onde tiveram origem / Aquele que ouve o apelo de Jesus não deve recusar o Amor... / Deve, ao contrário, permanecer essencialmente humano / Portanto, tem necessidade de Mim para sensibilizar os seus poderes / E despertar a sua alma para a paixão do divino / Para o Santo, mais que para qualquer outro / Eu sou a sombra materna que se debruça sobre o berço... / a forma radiosa que adquirem os sonhos da juventude... / a aspiração fundamental que atravessa o coração... / como poder inegável e alheio / o rasto no ser individual, / do eixo da Vida».

Catherine Aubin

A autora:

Nascida em França em 1959, Catherine Aubin é dominicana da Congregação romana de São Domingos. Licenciou-se em psicologia e depois em teologia no Institut Catholique de Paris, Aubin obteve o doutoramento em teologia espiritual na Pontifícia Universidade de S. Tomás de Aquino em Roma, onde ensina teologia sacramental e espiritual. É professora no Istituto di teologia della Vita Consacrata. Colabora com a Rádio Vaticano e escreveu livros sobre antropologia espiritual traduzidos em várias línguas.

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24 de Agosto de 2019

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