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As cinco mães

Nada impede imaginar que Moisés, num certo dia em que a sua família estava reunida, tenha também lembrado aos seus dois filhos o prodigioso conjunto de ajudas ao qual devia a vida, dado que ele realça muito a atenção, a solicitude e o amor que tinha recebido no meio de terríveis perigos.

Duas crianças estão ao redor do pai, amedrontadas mas determinadas a não perder nada da narração das suas proezas. Moisés coloca no seu colo o mais pequenino, Eliezer, enquanto Gershon se senta com as pernas cruzadas na esteira que cobre o chão da tenda. E Moisés conta...

- Eliézer, meu filho, abre a tua mãozinha e conta os teus dedos.

- São cinco, pai.

John Bradford «O achamento de Moisés» (2012)

- Fica a saber que precisei da ajuda de cinco mulheres para que estivéssemos juntos hoje, todos vivos. Antes que eu nascesse, o meu povo vivia no Egito e tinha que trabalhar muito ao serviço do Faraó. Mas os judeus eram tão numerosos que assustavam o rei. Então ele ordenou às amas: «Matai os filhos varões, deixai viver as meninas!».

Eliézer estreita-se ao peito do pai. Gerson apressa-se a acrescentar:

- Era suficiente que as mães nada dissessem às amas!

- Muito bem, Gerson, que possas ser tão astuto como eles! Mas Sifrá e Puá – assim se chamavam – decidiram ajudar do mesmo modo as mães e deixar viver os filhos varões. Desobedeceram; não aceitaram meninas sem meninos! E até mentiram ao Faraó, dizendo-lhe que as mães se desenrascavam sozinhas.

Gerson sobressalta:

- Desobedecer? Mas é o contrário daquilo que nos ensina o nosso avô Jetro!

- Gerson, tu és grande, podes compreender que por vezes é preciso mentir diante de uma ordem cruel que leva à morte. Aquelas mulheres salvaram deveras a vida de muitos homens do nosso povo. Então o Faraó, ao ver que não conseguia fazer-se obedecer, pediu a todos que lançassem os filhos varões ao rio.

- Também às mães? E elas desobedeceram?

- Adivinha!

É Jetro quem, do fundo da tenda, intervém dizendo:

- Pequeninos, ainda não entendestes que o vosso pai tinha sido lançado ao rio, porque o seu nome, Moisés, significa «salvo pelas águas»?

- Mas tu, ainda estás vivo...

As crianças agitam-se. Sem ter sido convidado a fazê-lo, Gerson sobe para o outro joelho de Moisés, que o ampara ternamente com o braço.

Lawrence Alma-Tadema «O achamento de Moisés» (1904)

- É uma longa história... Antes de tudo, Eliézer, olha para a tua mão, de «Puá» e de «Sifrá» e fecha o dedo mindinho.

- Mas são dois?

- De cada criança ocupou-se uma só, portanto valem por um. Quantos dedos ficaram abertos?

- Quatro, pai.

- Deixa a mão bem aberta. Falemos das outras três mulheres. Quando eu nasci, a minha mãe achou que eu era bonito, por isso no início escondeu-me, porque não conseguia decidir-se a lançar-me ao rio.

- Fecho outro dedo?

- Paciência... A minha mãe preparou para mim um pequeno cesto de juncos revestido com uma cola que lhe permitia ficar à tona, com uma cobertura para proteger a minha pele e os meus olhos. Depois decidiu-se a colocar-me no grande rio do Egito, aquele que dá a vida aos egípcios.

- Mas tu podias morrer!

- Talvez.

- A tua mãe devia estar triste!

- Certamente, por vezes a vida é cruel; mas esqueces-te de que a minha mãe era muito astuta, como as amas. Tinha pedido à minha irmã para se pôr na margem do rio para controlar.

- Também eu teria ido ver o que acontecia, diz Gerson.

- Fecho outro dedo?

- Ouve antes. A filha do Faraó passeava e viu um estranho embrulho à deriva no Rio. O que é? Manda a sua serva buscá-lo.

- Ah, mas talvez o tenha feito para te matar?

- Eliézer, és estúpido: como bem podes ver, teu pai está aqui.

- Mas pai, como conseguiu a tua irmã recuperar o cesto?

- Pegou num grande pau de duas pontas e com ele engatou a borda do cesto.

Gerson está impaciente para falar:

- Eu sei, é preciso puxar muito delicadamente, senão, pata-pum, o menino cai na água e morre.

- Ah, meu filho, acabarei por pensar que também estavas ali naquele dia! Com efeito, a serva foi habilidosa, levou o cesto à sua dona.

- Então fecho outro dedo?

- Sim, fecha o indicador, é o dedo que mostra o que é preciso fazer. A serva foi eficiente.

- Quantos dedos te sobram?

- Três, pai.

- Depois a filha do Faraó levantou a coberta e encontrou-me a mim dentro.

- Talvez tivesses fome!

- Claro, e já não estava com a minha mãe. Tinha-me tornado uma pequena criança errante, sem pais, sem casa, balançado pela corrente do rio... um sem terra, um emigrado...

- Mas é o meu nome! Gerson significa «Sou um imigrado em terra estrangeira».

- Gerson, meu querido, tu tens este nome porque a tua história vem da minha.

Orgulhoso e confundido, Gerson desce dos joelhos do seu pai e sentando-se em cima da esteira, ouve avidamente as suas palavras.

- Mas a filha do Faraó tinha um coração terno. Disse a si mesma que um recém-nascido vivo era mais importante do que uma ordem, mesmo se quem a deu foi o seu pai.

- Então desobedeceu?

- Claro!

- Desobedeceu ao Faraó? Então é grave!

- Certamente. Compreende até que ponto aquela mulher queria que a vida triunfasse sobre a morte. Ela salvou-me.

- E são dois desobedientes.

- Desobedientes aos homens, mas obedientes a Deus que quer a vida do seu povo.

- Três, porque as amas já são duas.

- Então a filha do Faraó compreendeu que eu era um pequenino dos judeus, confortou-me.

- Talvez tenhas deixado de chorar naquele momento. Mas também precisavas de comer.

- Certamente havia pão e tâmaras.

- Mas Eliézer, os recém-nascidos não têm dentes, só bebem o leite da sua mãe, ou o de outra mulher que já tem um bebé e pode amamentar os dois.

- Uma ama, Eliézer, bem sabes, como Ayala na nossa família.

- Pensais que era fácil encontrar uma ama na casa da filha do Faraó, que ainda não era mãe e vivia com outras jovens como ela? Então, o que fazer?

- Bem... é suficiente ir procurar uma ama entre os judeus, porque têm tantos filhos.

- Isso mesmo, Eliézer! Foi o que a minha irmã propôs à filha do Faraó.

- Ah, a tua irmã ainda estava ali?

- Claro, a nossa mãe tinha-lhe dito para não me perder de vista. Por isso ela seguia-me a toda a parte.

- Dou-lhe um dedo?

- Podes dar-lhe o polegar, porque ela foi tão útil como o polegar. Quantos dedos te restam?

- Os dois centrais.

- Agora, adivinhai quem foi à procura da minha irmã?

As duas crianças exclamam:

- A mãe!

- Sim... a minha mãe, a vossa avó.

- A tua mãe não teve medo de ir a casa da filha do Faraó?

- Não, sentia-se tão feliz por saber que eu estava vivo.

- Tenho a certeza que sentia que a filha do Faraó era sua amiga, porque ambas queriam que tu vivesses.

Sem fazer barulho, Zípora aproximou-se e sentou-se.

Com um olhar sorridente, Moisés prosseguiu:

- A minha mãe, sobretudo, não devia dizer que era a minha mãe.

- Mas porquê?

O silêncio invadiu a tenda. Moisés parecia até estar um pouco à-vontade.

- Agora procuro explicar-vos, diz por fim Jetro, acariciando a sua barba grisalha. Se a vossa avó tivesse dito a verdade, a filha do Faraó não teria podido fazer mais nada, enquanto era ela que tinha acabado de salvar o menino. Era preferível que fosse honrada como uma mãe adotiva, para que se ocupasse do menino, à sua maneira.

- Graças a este pequeno segredo bem guardado, a filha do Faraó encontrou sozinha uma boa solução. Pediu à minha mãe para ser a ama do recém-nascido abandonado. Até lhe pagou para que o fizesse.

Zípora tem um sobressalto:

- A tua mãe foi paga para alimentar o seu filho, como uma estranha!

Moisés fixa a sua esposa:

- Sim, como uma estranha... Vejo muita humildade nesta renúncia... Os nossos filhos não nos pertencem. São de Deus. Nós só devemos ocupar-nos deles até à idade adulta, sem vanglória nem desejo de posse.

Para que eu vivesse, ela aceitou ser uma espécie de mãe em segundo plano. Era muito feliz por me ver, acariciar, por me dar o seu leite, por se alegrar vendo-me crescer. Mas a sua alegria teria sido breve; logo que fui capaz de comer alimentos sólidos, entregou-me à filha do Faraó, a qual me cresceu como um filho.

- Então tu tens duas mães?

- Se quiseres. E cresci aprendendo a língua e os costumes dos egípcios. Fui uma criança mimada. Todas aquelas mulheres se ocuparam de mim, foram a mão de Deus sobre mim.

- Tu, meu Moisés, deste muito. Mas também recebeste muito. Espero que aconteça o mesmo com cada um de nós: observa Zípora, comovida.

- E eu, que faço com os meus dois dedos?

- Adivinhai!

Eliézer apressa-se a responder, antes que o seu irmão o prive da palavra.

- O dedo maior é para a tua mãe, porque é a tua verdadeira mãe. E a filha do Faraó que desobedeceu, e te salvou a vida, tem direito ao outro dedo.

- Muito bem, Eliézer, todas as vezes que abrires a tua mão, saberás que, mesmo se não te recordas disto, foste salvo cinco vezes – e até muitas mais – por todos aqueles que se ocuparam de ti.

Eliézer, todo sorridente, exercita-se a abrir e fechar a sua mão e conclui dizendo: É uma mão inteira que desobedece!

- E até mais, porque houve outros judeus que souberam obedecer a Deus, não obstante as ordens malvadas. Meus filhos, procurai fazer de maneira que as vossas duas mãos obedeçam a Deus, pela vida e não pela morte. Eis o que ensinam estas mulheres corajosas e astutas.

Anne Soupa

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24 de Agosto de 2019

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