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Cabeça e coração

· Irmã Hermenegild Makoro, desde de 2012 secretária da Conferencia episcopal da África do Sul ·

Desde Março de 2012, o secretário-geral da Conferência episcopal da África do Sul é a irmã Hermenegild Makor: um caso raríssimo de uma mulher eleita por um colégio masculino para chefiar o mesmo. Enérgica e determinada, Hermenegild repercorre a própria história privada e pública, sublinhando imediatamente que, desde a sua infância, foi acostumada a estar «em minoria», pois cresceu numa família predominantemente de homens.

Nascida a 7 de Dezembro de 1951 em Koeqana, localidade rural no distrito de Mount Fletcher, na província do Cabo Oriental, Hermenegild é a segunda de quatro filhos, única mulher com três irmãos e, como se não fosse suficiente, «inclusive os meus primos eram homens: portanto eu estava rodeada por rapazes», acrescenta irónica. Contudo, durante o seu crescimento não sofreu nenhuma desigualdade de tratamento, porque «fomos todos criados numa atmosfera de liberdade, na qual cada um de nós sempre foi encorajado a ser ele mesmo».

Uma família muito religiosa, a de Hermenegild, na qual «havia confiança, no sentido que os nossos pais confiavam em nós». O presente maior e mais difícil que um pai pode oferecer ao próprio filho é apostar nele, aceitando-o assim como é, amando a sua unicidade, apoiando e fazendo florescer a sua diversidade: «A atitude dos meus pais instilou em mim este mesmo espírito até em relação às pessoas com as quais trabalho», comenta orgulhosa a irmã Makoro, identificando precisamente na infância o período decisivo para a formação do seu sentido de liberdade e de independência.

Mudar as pessoas, responsabilizá-las, torná-las conscientes dos próprios direitos é o que se exige de uma Igreja como a africana cujas palavras de ordem, segundo as palavras da Africae munus de Bento XVI são justiça, reconciliação e paz: tudo isto, na história de Hermenegild Makoro, foi aprendido entre as paredes domésticas, impregnadas de um catolicismo autêntico e sincero.

A sua aproximação de Deus, por conseguinte, verificou-se de forma absolutamente pessoal, sem coações externas: «Descobri de maneira gradual o que estava a procurar na minha vida. Um dia, aliás, participei na profissão de fé de uma irmã e tornou-se muito claro em mim que queria seguir a vida religiosa. A partir daquele momento, nunca mais voltei a olhar para trás». Também neste caso, a família apoiou a escolha da filha, mesmo se «a ajuda maior veio da minha mãe, enquanto meu pai queria que ficasse em casa e estudasse». Não é por acaso que Hermenegild sublinha que a sua mãe e a sua avó «eram pessoas de grande espiritualidade e princípios sólidos, que rezavam todos os dias a fim de que um dos membros da família tivessem uma vocação para o sacerdócio ou para a vida religiosa».

Portanto, a escolha de vestir o véu brotou, quase exclusivamente, neste fértil humus familiar. «De forma surpreendente nunca tive contactos com as irmãs da minha paróquia, excepto com as irmãs que me preparam para a Primeira Comunhão e a Crisma. Contudo, recordo que uma irmã me causou uma grande impressão e isto pode ter-me influenciado mesmo se indirectamente». Portanto, forma duas mulheres, a avó e a mãe de Hermenegild, as pessoas cruciais na sua decisão de vestir o véu, culminada em 1976, com a profissão de vida religiosa junto das Irmãs Missionárias do Preciosíssimo Sangue: uma espiritualidade corroborada por uma intensa actividade pastoral e académica, culminada na licenciatura em educação e formação na universidade do Transkei e no diploma em teologia na universidade de Natal-Pietermaritzburg. A irmã Makoro ensinou também na escola superior de Mariazell e por anos foi coordenadora do grupo pastoral para a catequese: trabalhou como responsável do grupo diocesano para a animação na diocese de Umtata. Por um período prestou serviço também como superiora provincial das Irmãs Missionárias do Preciosíssimo Sangue. Em síntese, uma vida activa com compromissos a ritmo cerrado e responsabilidades concretas e prementes.

Antes da atribuição do encargo como secretária geral da Conferência episcopal, a irmã Hermenegild trabalhou na Conferência episcopal por seis anos. Por esta razão, avalia de modo programático as motivações da sua nomeação: «Penso que os bispos me nomearam porque acreditavam em mim e conheciam as minhas capacidades. Reconheceram as minhas qualidades como pessoa». Não obstante o reconhecimento das suas qualidades e dos seus méritos como pessoa, a irmã Makoro faz questão contudo de sublinhar a sua contribuição específica pelo facto de ser mulher. «Acho que a especificidade que uma mulher confere a uma organização gerida essencialmente por homens seja a compaixão, a compreensão e o sentimento. Um agir ditado pelo coração e não pela cabeça».

Mas também os homens fizeram a sua parte, neste caso abrindo com coragem estradas novas. Com efeito, na opinião da irmã Makoro, a sua nomeação deve ser atribuída «ao progressismo dos bispos da nossa conferência, cientes de que não é suficiente para a Igreja um olhar baseado numa visão de género. Se a Igreja quiser ir em frente deve mudar de atitude. E este resultado deve ser uma mensagem muito forte até nos movimentos ecuménicos».

O exemplo da Igreja africana, com a confiança e o reconhecimento concedidos e energias novas, na qual as mulheres desempenham finalmente um papel de primeiro plano, poderia servir como farol para a Igreja do mundo inteiro: «No nosso meeting do Secam (Simpósio das Conferências de África e Madagáscar) fui aceite como igual entre todos os homens» continua a irmã Makoro. «É importante que as mulheres aceitem o desafio quando ele se apresenta e espero que até ao final do meu mandato, que termina daqui a dois anos, outras conferências aprendam da Conferência sul-africana dos bispos católicos».

Aceitar o desafio significa estar prontos para agir de modo rápido e directo numa sociedade «que se tornou egoísta a tal ponto que a outra pessoa não conta enquanto eu estiver feliz». Portanto, a missão fundamental da Igreja permanece a «de evangelizar global e localmente», especifica a irmã Makoro, precisamente ali onde sobressaem os nós críticos, constituídos por «individualismo, vazio espiritual, materialismo, dissolução dos vínculos familiares, pobreza económica e espiritual, problemas relativos ao meio ambiente, aos migrantes e aos refugiados».

Portanto, aceitar o desafio lançado pelo Papa Francisco que auspiciou uma Igreja em saída, uma comunidade de crentes exortada a sair no sentido quer geográfico quer existencial. Um caminhar em direcção ao outro, rumo a outras culturas, povos diferentes, rumo às periferias geográficas e existenciais: ou seja, os pobres, os descartados, os desesperados, os falidos, abandonando qualquer alusão auto-referencial que impede o anúncio autêntico

Além disso, em Março de 2014 irmã Makoro recebeu outra nomeação numa outra trincheira, a Pontifícia comissão para a tutela dos menores, onde a Igreja do Papa Francisco tenciona combater uma batalha ao mesmo tempo dolorosa e necessária. A comissão, guiada pelo cardeal norte-americano Sean O’Malley, está a desempenhar um papel de consultoria para os episcopados nacionais a fim de prevenir os abusos sexuais contra os menores por parte de eclesiásticos.

«A Comissão trabalha dividida por grupos», explica a irmã Makoro. «O nosso encargo consiste em aconselhar o Papa, os seus colaboradores e as Igrejas locais relativamente à tutela dos menores. Os grupos trabalham sobre diversas temáticas que a comissão considera cruciais». A tutela efectiva dos menores e o compromisso para lhes garantir o desenvolvimento humano e espiritual adequado à dignidade da pessoa humana fazem parte integrante da mensagem evangélica da Igreja. «Os grupos de trabalho abrangem as seguintes áreas: linhas-guia para a salvaguarda e a protecção dos menores; restabelecer e curar as vítimas, os sobreviventes e as suas famílias; formação dos candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa, educação dos vértices eclesiásticos, educação das famílias e das comunidades; teologia e espiritualidade; normas canónicas e civis. Estou comprometida pessoalmente no grupo para a educação das famílias e das comunidades».

Uma vida de serviço e na primeira linha, a da irmã Hermenegild que, com dócil modéstia, além de lamentar o compromisso em «demasiados meetings que depois têm pouco impacto no meu trabalho», inesperadamente confessa um seu peculiar desafio pessoal: «Sou uma pessoa tímida e o meu trabalho coloca-me sempre no centro da atenção. Este é um desafio, dado que preferiria trabalhar nos bastidores».

Elena Buia Rutt

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19 de Agosto de 2019

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