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Busca de uma dignidade negada

· Entrevista com D. Vegliò antes do encontro do Papa com os ciganos da Europa ·

Há alguns meses, quando o Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes pediu uma audiência ao Papa para um grupo de ciganos europeus, em peregrinação a Roma nos dias 11 e 12 de Junho, o cálculo dos participantes era de cerca de mil pessoas. Num comunicado de 3 de Junho, através do qual o dicastério vaticano informava sobre o assunto, falava-se de 1.400 representantes dos ciganos europeus que seriam recebidos pelo Pontífice. Dia 9 de Junho, a decisão de mudar o lugar do encontro: não a sala do Palácio Apostólico mas a Sala Paulo VI porque «o número dos participantes — lê-se numa nota da Prefeitura da Casa Pontifícia — aumentou para 2 mil com possibilidade de ulterior crescimento». Tudo isto faz entender qual é o fervor que permeia o povo cigano da Europa na vigília do encontro com Bento XVI. «Aumenta de dia para dia — disse-nos o arcebispo Antonio Maria Vegliò, presidente do dicastério vaticano nesta entrevista ao nosso jornal — o número de quantos pedem para se encontrar com o Papa. Manifestam assim o seu desejo de ser escutados e suscitar compreensão. Vêem no Pontífice a pessoa capaz de dar um novo impulso ao processo da sua integração na sociedade».

Ainda hoje quando se fala sobre os ciganos, manifesta-se não exactamente desprezo mas desconfiança. Às vezes o próprio termo cigano é usado com sentido depreciativo. Como podem estas atitudes ser superadas?

É verdade. A nível histórico e sociológico existe uma constante, isto é, a discriminação e a rejeição seculares que se manifestaram de diversas maneiras, às vezes trágicas, em relação ao povo cigano. Eventos como a escravidão na Roménia, o holocausto sob o nazismo e a depuração étnica nos Balcãs não atingiram todos os povos Rom mas marcaram a sua consciência colectiva. E o sentimento de marginalização ainda permanece, alimentado por inúmeras opressões. É essencial observar que a cultura cigana nasceu e evoluiu neste contexto de rejeição violenta e também de exclusão, condição obrigatória para a sua sobrevivência. Tal evolução criou e manteve uma distância e incompreensão entre os povos Rom e a sociedade, que continua a estigmatizá-los, inflingindo-lhes uma «má reputação», ainda mais acentuada pela evolução política e jurídica dos Estados. É dramático constatar como alguns comportamentos inadequados de pessoas Rom se tornam objecto de generalizações, que muitas vezes são desculpas que ofuscam as exigências de justiça e dignidade. É importante que estes desvios, que são uma negação dos valores afirmados por Cristo, sejam removidos da nossa abordagem à questão. Nas «Orientações para uma Pastoral dos Ciganos», que o nosso Dicastério publicou a 8 de Dezembro de 2005, esclarece-se que o termo «Ciganos» se refere a vários grupos étnicos. Na Europa Ocidental, nalgumas regiões da Rússia, na Ásia e na América, às vezes o termo «Cigano» é mais aceite e apropriado. Na Europa Central e Oriental usa-se amplamente o termo «Rom», referindo-se a essas populações, enquanto para muitos povos Rom e Sintos o termo «Ciganos» tem um sentido pejorativo porque está ligado a estereótipos negativos e paternalistas difundidos sobre eles.

Que falta nas nossas sociedades para que se possa realizar finalmente a integração dos ciganos?

Antes de tudo falta um espírito de solidariedade autêntico, num contexto de esperança. É nosso desejo garantir aos ciganos que estão no centro da preocupação da Igreja, enquanto filhos do mesmo Pai. Com efeito, eles com frequência são marginalizados e discriminados, mas continuam a ocupar o lugar que lhes cabe, como disse Paulo VI, «no coração da Igreja». É importante encorajar de modo particular os jovens para um compromisso concreto e duradouro para melhorar as condições de vida das suas comunidades e defender a sua dignidade e os próprios direitos. Ao mesmo tempo, é preciso recordar-lhes também o dever de assumir todas as obrigações que uma participação responsável na vida social, política e eclesial exige. Em terceiro lugar, é necessário que todas as pessoas de boa vontade e as comunidades receptoras abram caminhos de confiança e respeito, de compreensão e perdão recíprocos. Enfim, os Estados deveriam adoptar normativas que tutelem verdadeiramente os direitos das populações ciganas e as protejam da discriminação, do racismo e da marginalização. Afinal de contas, trata-se de renovar a recomendação do diálogo aberto e construtivo entre as representações ciganas e as comunidades autóctones.

E o que falta aos ciganos para que consigam propor-se a si mesmos como mediadores, a fim de que se encontrem as vias do diálogo e da convivência possível com as outras culturas?

Hoje são numerosos as comunidades ciganas e os indivíduos que amadureceram a consciência de dever e querer desempenhar um papel de protagonista nos processos decisórios e políticos relativos à promoção humana e social das suas etnias. Com efeito, não é fácil falar de um futuro construtivo dos ciganos se eles não forem envolvidos plenamente nas políticas relativas à sua existência. Eles estão convictos de que não podem existir estratégias internacionais e nacionais eficazes neste sentido sem a sua participação na preparação e actuação das mesmas. Tal consciência exprime-se de formas diversas do passado, mais preparadas ao confronto cultural e político com a sociedade maioritária.

É preciso dar impulso a um compromisso maior para a formação de mediadores ciganos, os quais possam servir de canal de comunicação entre as próprias comunidades, as instituições e a população maioritária, ou de apoio aos coetâneos no prosseguimento de uma boa preparação profissional e para desenraizar a desconfiança presente nas suas comunidades, assim como preconceitos persistentes em grande parte das nossas sociedades.

Qual contribuição podem eles dar para a missão da Igreja?

Eles oferecem valores positivos próprios das populações ciganas, como a hospitalidade fraterna e generosa, o sentido profundo de solidariedade, o forte apego à fé e à religiosidade dos antepassados. Talvez nem todos saibam que os sacerdotes, diáconos, religiosos e religiosas de origem cigana já são mais de cem.

A nível internacional a questão dos ciganos é enfrentada de modo adequado?

Para poder falar de um acolhimento autêntico, entendido inclusive em termos de integração e de encontro de culturas, a nível nacional e internacional, é necessária uma grande mudança de mentalidade, também no âmbito civil. O acolhimento requer a consideração à identidade e dignidade do outro e consequente compromisso para lhes garantir uma vida digna e o respeito pelos direitos fundamentais. A Comunidade internacional deu passos notáveis. Devemos reconhecer o papel que o Conselho para a Europa e outros Organismos internacionais desempenharam neste sentido, assim como a participação dos Estados. Contudo, não há suficiente sinergia de estratégias ainda e certamente é necessário uma melhor utilização dos instrumentos dos quais a comunidade internacional dispõe.

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23 de Setembro de 2019

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