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Biblioteca viva

· Entrevista com a Irmã Emidia Bergamaschini, missionária nascida em 1920 ·

«Todos conhecemos exemplos eloquentes de idosos com uma juventude surpreendente e um espírito vigoroso. Para quem deles se aproxima, servem de estímulo com as suas palavras e de conforto com o seu exemplo. Que a sociedade saiba valorizar plenamente os idosos, que nalgumas regiões do mundo – penso sobretudo na África – são justamente estimados como «bibliotecas vivas» de sabedoria, guardas de um património inestimável de testemunhos humanos e espirituais». Assim escrevia na Carta aos idosos João Paulo II, e assim consideramos também nós que tivemos a ventura de viver com pessoas idosas ou muito anciãs, ainda capazes de ensinar a viver, a enfrentar os anos da decadência física e psíquica, a assumir a expectativa da última passagem, para a vida eterna.

A irmã Emidia nasceu há 95 anos. Em 2004 sofreu um grave enfarte, ficou atingida nas pernas e constrangida a uma cadeira de rodas. A mente, por sorte, permaneceu lúcida. Alguns anos antes de adoecer, ainda era responsável de uma comunidade e de uma escola: com um pouco de ironia, respondera a uma irmã de hábito, que insinuava que já era demasiado velha para continuar a ser superiora, que o Papa Wojtyła e Carlo Azeglio Ciampi tinham a sua mesma idade: um governava a Igreja, o outro a Itália.

Não penso que tenha havido orgulho na resposta de Emidia, mas antes a demonstração de que para ela a velhice era uma fase da vida que deve ser vivida serenamente, como se nada fosse. Fora professora durante muitos anos, missionária em África, secretária-geral, responsável de um centro de espiritualidade e muitas outras funções: por isso, perguntei-lhe como viveu este caminho rumo à velhice, e como coincidiu com a doença. «Nunca tive a sensação de me tornar velha» respondeu e referindo-se à doença acrescentou: «Foi tudo um dom do Senhor que veio repentinamente; sentia que chegava algo de novo, percebia que a memória já não era a mesma. Mas não me sentia incomodada, porque ofereci tudo a Jesus para este momento histórico da Igreja, mas trata-se de uma passagem que pressentia chegar lentamente».

Depois a irmã Emidia contou acerca daquele momento em que sofreu o enfarte: «Era 31 de Maio de 2005, estávamos a recitar as Vésperas, eu tinha preparado tudo, mas durante as orações finais, de repente, não conseguia falar, a boca já não se abria... e outra irmã continuou a guiar a oração. Tive um primeiro impacto, mas não me sentia velha, não pensava na velhice; ao contrário, pensava que Deus precisava de mim, que desejava algo mais de mim. Com efeito, algum tempo antes, a madre-geral estivera em África e quando nos veio visitar na nossa comunidade, comunicou-nos que gostaria de abrir a Capela da Adoração diária. Ouvi como que uma voz: “Quero-te lá”, e quando terminámos a nossa reunião aproximei-me da madre-geral e disse-lhe: “Desejo estar presente na Capela da Adoração”. Passei três meses no hospital devido à minha situação e depois fui transferida para Codogno onde comecei a minha presença diária na Capela da Adoração».

Perguntei à irmã Emidia por que se ouve dizer entre as pessoas que a velhice é um peso. «A velhice é um grande valor – sim, há quem pense que é um descarte – e um dom precioso; faz com que estejamos unidos ao Senhor, faz crescer o amor a Deus e faz pensar muito naquilo que acontece no mundo; se muitos soubessem o que significa estar numa cadeira de rodas; só o Senhor conhece com que benefícios, neste estado, se contribui para a Igreja e para as pessoas. Depois, a adoração: é um bem precioso, estar com Jesus muitas horas, ouvindo a sua voz, pedir-lhe aquilo que os outros vêm pedir». Na Capela da Adoração entram e saem muitas pessoas, às vezes só por um momento e para pedir que a irmã Emidia reze por uma intenção específica. São pessoas que se fazem mediadoras de outras que não têm a coragem de pedir.

A irmã Emidia lê muito: livros, artigos, revistas, não só religiosas, também artigos culturais e históricos. Mas o que a ocupa completamente é a leitura de L'Osservatore Romano que recebe com devoção, como se fosse o próprio Papa que lho enviasse. «Ao ler L'Osservatore, estou no coração da Igreja, agora sinto um pouco mais de dificuldade e para mim é um sacrifício ler pouco, até há alguns meses lia muito, até os parágrafos mais pequenos. Mas mantenho-me informada e vivo com a Igreja, as suas esperanças e angústias».

O que aprendeu nestes últimos anos? «Deu um sentido às pequenas coisas que antes me pareciam inúteis; compreendi que não vale a pena levantar questões: vivo aquilo que o Senhor quer, Ele serve-se disso para um bem maior. Hoje o Senhor quer isto. Recordo-me de quanto desejava ir para a África, também aquela chamada foi imprevista. Mas agora o presente é este».

A irmã Emidia é uma pessoa de relacionamentos humanos grandes e profundos. Sempre manteve óptimas relações com todos, e muitas vezes não é compreendida. É proverbial o número de bilhetes de bons votos que envia na Páscoa e no Natal, por ocasião de onomásticos e aniversários, para celebrações matrimoniais, baptismais, condolências e formaturas: não se esquece de ninguém. «As minhas relações são com quem encontro e com quem está distante; muitas pessoas vêm visitar-me, até ex-alunas de há trinta ou quarenta anos, que agora são avós, bisavós: vêm para me saudar, mas sobretudo para me pedir orações, para me falar dos seus problemas».

Então a irmã Emidia conta-me muitas histórias de ex-alunas, romances que poderiam ser encenados para a televisão. Histórias dramáticas que lhe ficaram no coração. Emidia continua a rezar por aquelas pessoas, dia e noite; sim, porque durante a noite, quando acorda – e acontece muitas vezes – reza intensamente pelas intenções que lhe foram recomendadas.

A memória da irmã Emidia já não é muito nítida, mas no ano passado ainda nos escreveu as suas recordações como secretária-geral da congregação: o período do concílio Vaticano II, a renovação da vida religiosa, a actualização das constituições, as celebrações da congregação, e fez isso com pormenores muito claros. Quando não tinha a certeza sobre algo, escrevia ao arquivo geral de Roma para obter esclarecimentos.

Sim, também ela é uma «biblioteca viva», os jovens sacerdotes vão ter com ela para lhe pedir que traduza artigos em latim, as irmãs mais jovens fazem-lhe perguntas sobre o passado da congregação, as pessoas que a conheceram pedem-lhe que escreva esta ou aquela carta. Além da oração, muitas pessoas vão visitá-la para obter um pouco de conforto: não se podem contar as lágrimas que a irmã Emidia enxugou! Quando lê uma carta e lhe contam coisas tristes, permanece muito perturbada, e reza. Os parentes levam-lhe os sobrinhos de segundo grau para que os conheça, aos quais explica o valor dos sacramentos, do estudo, a importância de aprender línguas.

Quando uma irmã adoece gravemente ou está prestes a morrer, Emidia procura estar ao seu lado, segura na sua mão, deve acompanhá-la no caminho ao encontro do Esposo. Às jovens de serviço faz uma espécie de catequese, dá-lhes livros e jornais para ler: quando acaba de ler L'Osservatore, oferece-o ao marido de uma das jovens.

Agora a irmã Emidia fala com dificuldade, a doença incomoda-a cada vez mais, o seu olhar é sereno e, mesmo se algumas vezes se sente de maneira muito clara a desaprovação sobre o que não concorda, está sempre muito presente. Quer saber o que acontece na congregação, quantas noviças tem, quantos cardeais o Papa criou, como se resolveu aquela questão e quando haverá votações.

A irmã Emidia é também uma grande e boa amiga. Às vezes vêm do estrangeiro pessoas – quer religiosas quer leigas – que a conheceram há muitos anos. Ao vê-la de novo desatam a chorar recordando o momento do encontro que tiveram com ela. Recordam sobretudo o estilo do acolhimento, a sua extraordinária gentileza, o seu fazer-se em quatro para satisfazer as suas necessidades.

Só para recordar um episódio, desejo contar o que fez Emidia no ano 2000, quando a casa de Roma da qual era era responsável se encheu de jovens para a jornada mundial da juventude. Eram jovens polacos, dormiam com o saco-cama nos vários espaços destinados a eles. Dois jovens recém-casados tinham-se aproximado timidamente dela para lhe pedir se para eles poderia haver um pequeno espaço separado; era a sua viagem de núpcias e tinham escolhido a ocasião da jornada mundial da juventude para não enfrentar despesas. A irmã Emidia preparou-lhes uma camarata com cama de casal, flores, doces, um bilhete de bons votos e muitas outras pequenas atenções. Naturalmente, os jovens ficaram felizes.

A sua juventude de espírito é cada vez mais vigorosa mesmo se a não pode manifestar como antes. Diz assim João Paulo II na Carta aos idosos: «Quantos encontram compreensão e conforto em pessoas anciãs sós ou doentes, mas capazes de infundir coragem pelo conselho bondoso, a oração silenciosa, o testemunho do sofrimento acolhido com paciente abandono! Justamente quando as energias vêm a faltar e se reduz a sua capacidade de movimento, estes nossos irmãos e irmãs tornam-se mais preciosos no desígnio misterioso da Providência». Este é o retrato da irmã Emidia, uma religiosa missionária. Em todas as circunstâncias da vida.

A irmã Emidia Bergamaschini nasceu a 3 de Dezembro de 1920 numa pequena aldeia que naquele tempo se chamava San Bernardino mas agora está incluída na cidade de Crema (chamavam-na «cremina»). Entrou no Instituto das Missionárias do Sagrado Coração de Jesus de Francisca Cabrini em 1939. Formou-se em letras clássicas na Universidade Católica do Sagrado Coração – o padre Agostino Gemelli foi seu professor – foi docente e directora em escolas superiores. Enviada para a África, ocupou-se da escola da missão. Tendo regressado à Itália depois de seis anos, foi secretária-geral da congregação em Roma. Em 2005, por vários problemas de saúde, foi enviada para a casa das irmãs idosas em Codogno. Está comprometida na Capela da Adoração onde passa várias horas da manhã e da tarde.

Maria Barbagallo

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7 de Dezembro de 2019

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