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A besta que atravessa o México

· Las Patronas e a sua ajuda aos migrantes que partem rumo ao norte ·

Parece impossível pensar que ainda existem pessoas que partem, quando a morte ao longo do caminho se tornou uma história comum. E no entanto, milhares de pessoas empreendem todos os anos uma corrida dramática, que começa com um salto e um único objetivo: a fronteira do norte. Existe um comboio que atravessa o México, do sul para o norte, passando por quatro mil quilómetros entre bosques e desertos, até ao rio Grande, e que transporta a maior parte de migrantes até à paragem do derradeiro obstáculo para o sonho. A Besta, como é geralmente chamado este caminho de ferro, com a sua carga de comboios e dor, merece o nome que tem. Mortes e mutilações por acidentes fazem parte da ordem do dia, juntamente com extorsões, homicídios e estupros. São milhares os migrantes que simplesmente desaparecem no nada. Crianças e mulheres são as mais expostas aos ricos da viagem. «É preciso experimentar a pobreza para compreender. A necessidade de acreditar que existe algo além da miséria e do abandono é mais forte do que qualquer muro, qualquer rio, qualquer máfia, qualquer crise». É a força de quem não tem nada a perder.

São palavras de Norma Romero Vásquez que, enquanto fala, se encontra ao lado dos trilhos e tem nas mãos três garrafas ligadas entre si com uma corda. A Besta ruge sobre os trilhos quando entra na estação, e o barulho amplifica-se. A tensão aumenta. A carga humana que chegou até aqui já percorreu centenas de quilómetros com todos os meios, a pé, de barco e de autocarro. É uma das linhas ferroviárias ligada à Cidade do México, principal via de transporte para centenas de migrantes provenientes da América Central, com destino aos Estados Unidos.

Agarradas ao comboio há muitas centenas de pessoas: em cima dos vagões e inclusive na parte lateral onde está a mulher, estendem-se no vazio, agarrando-se às pequenas janelas, às manilhas. O comboio assobia e ela põe mãos à obra. Algumas colheres de arroz num saco de plástico bem amarrado e uma garrafa de água. Tudo é lançado com perícia da margem dos trilhos através das grandes portas abertas dos vagões, com a sua carga de homens, mulheres, crianças e esperanças. Na desolação da viagem, um ponto de esperança e restabelecimento é representado pela pequena cidade de Guadalupe (ou La Patrona), no Estado de Veracruz, no sul do México. Menos de quatro mil habitantes entre a montanha e a floresta, uma rodovia estatal que passa pelo meio das cidadezinhas de Amatlán de los Reyes, Coetzala e Cuichapa. Las Patronas, este é o nome que a comunidade lhes deu, colaboram para oferecer refeições simples às centenas de migrantes que atravessam o seu território a bordo de comboios de mercadorias que correm quotidianamente do sul para o norte, rumo aos Estados Unidos.

Norma Romero Vásquez é a líder do grupo. O documentário Las Patronas, realizado por Javier García, narra a história de um grupo de mulheres mexicanas, camponesas, que não ignoraram o comboio de mercadorias que passa pelo seu povoado, levando milhares de pessoas dos países da América Central até à fronteira com os Estados Unidos. Em pouco mais de quinze anos, Guadalupe transformou-se na Lampedusa latino-americana. Uma aldeia pequena, mas ponto nevrálgico da migração entre a América Central e os Estados Unidos. «Há muitos anos, o comboio não transportava passageiros — narra a mais idosa das mulheres, magra, com a pele encarquilhada por uma vida passada a cortar cana-de-açúcar — que depois começaram a apanhá-lo, cada vez mais. Pareciam moscas coladas aos vagões. Na minha opinião, o que fazemos por eles deve-se ao ensinamento dos nossos pais: respeitar as pessoas e sobretudo amá-las. Amar não custa nada».

A lente objetiva passa a enquadrar um jovem: encontra-se em cima do comboio que continua a sua marcha, está sentado em cima do vagão em movimento e o vento agita-lhe a camisa. «Quando não se consegue manter a família é preciso partir. Nós vimos da Nicarágua, El Salvador, Guatemala e Honduras. Quero ir para os Estados Unidos da América a fim de trabalhar e dar de comer aos meus filhos; não me interessa obter a residência, mas só o futuro deles».

Não é fácil entrar no comboio. Nestes comboios, matérias-primas e produtos agrícolas viajam juntamente com aqueles que contribuíram para a sua extração, e que irão trabalhá-los nas grandes fábricas do norte. Quem sobreviveu fala de jovens que permanecem mutilados, ou conseguem evitar por um triz as rodas do comboio. Narra-se inclusive a história de Carlos Maria, de 26 anos, hospitalizado no México. Perdeu a perna direita para baixo do joelho quando, extenuado — como muitos outros dos seus companheiros — ele tinha caído nos trilhos de um comboio em rápido movimento. Sonhava unir-se à sua família na Califórnia. Um sonho suspenso e brutalmente interrompido. Sentado na cadeira ao lado do seu leito de hospital, ele descreve aquele «pequeno» acidente que o impedirá para sempre de transcorrer uma existência normal. Saltitando com a perna sadia, como se nada fosse, diz antes de tudo: «Voltarei a Los Angeles». É de causar arrepios o ponto no qual procuram apanhar o comboio dois cônjuges, passando um ao outro a menina de poucos anos que não cessa de gritar.

«Certo dia — explica Norma — aproximamo-nos do comboio e os homens gritaram-nos: “Mãe, temos fome”. Voltei para casa e disse: “Temos o dever de lhes dar de comer”. Não sabíamos quem fossem». Eram migrantes que enfrentavam uma viagem de vinte dias debaixo do sol e da chuva, rumo à esperança. Alguns deles não comiam havia cinco dias, estavam cansados e famintos. A família de Norma põe mãos à obra: preparam garrafas de água, arroz e tortillas. Cozinham feijões com tomate, para lhes dar mais sabor. Depois, vão até aos trilhos. «Quando o maquinista nos viu e o comboio começou a assobiar, as pessoas debruçaram-se. E começamos a lançar-lhes comida e água».

Os vizinhos de casa queriam denunciá-las. «Que mal fazíamos ao dar de comer com a nossa comida a pessoas famintas? Não havia organizações humanitárias». Corria o ano de 1995. Deverão passar quase vinte anos para que cheguem alguns reconhecimentos. O bispo da diocese de Saltillo, no México, D. José Raúl Vera López, foi um dos primeiros que pediu um reconhecimento internacional para este grupo de mulheres que, gratuitamente, trabalham em benefício dos migrantes. Para «Las Patronas», passar das palavras à ação significou desafiar os lugares-comuns a propósito da imigração dos seus próprios concidadãos: muitas vezes as mulheres, além de preparar a alimentação para os indocumentados, hospedam os migrantes em condições de saúde críticas, depois de muitos dias de viagem, expostos às intempéries. Não recebem ajuda alguma do Governo: o comedor organizado por Norma e pelas suas irmãs foi construído num terreno de propriedade do seu pai, sem qualquer ajuda municipal ou estatal.

«Para evitar os controles, os clandestinos procuram atravessar o deserto do Arizona, onde a temperatura chega mesmo a cinquenta graus, ou então o rio, que tem correntes extremamente fortes. Tudo isto aumentou o número de mortes por desidratação ou por afogamento, entre aqueles que procuram entrar ilegalmente nos Estados Unidos. Se não forem antes vítimas dos enganos dos chamados polleros, os contrabandistas de vidas humanas. «Os “barqueiros” — acrescenta Rosa, voluntária desde há mais de dez anos no grupo — depois de ter ganho quantias enormes, muitas vezes acabam por serem roubados, abandonando-os no deserto».

Enquanto isto, chegam outras pessoas para ajudar, como a cunhada de Norma: «Eu pensava: por que motivo deveria fazê-lo? Até que certo dia chega um comboio carregado com mais de quinhentas pessoas, e eu senti medo. Muitos começaram a descer dos vagões e circundaram o meu furgão. Naquele momento eu não sabia se queriam roubar-me algo ou espancar-me. Mas eles simplesmente procuravam ajuda. Pediam-me auxílio. Ver aquela mulher que se ajoelhava diante da porta de casa: nunca mais poderei esquecê-lo. Só deveríamos ajoelhar-nos diante de Deus, mas pelo desespero aquelas pessoas são obrigadas a suplicar para receber ajuda».

Norma comove-se recordando uma história que lhe contaram: a de um jovem que, extenuado depois de dias de frio e de jejum, adormeceu feliz porque graças a elas conseguiu matar a fome. No entanto, o comboio travou bruscamente e ele caiu. Os seus companheiros de viagem narram que ele morreu agradecendo, consciente de que no mundo ainda existem pessoas generosas. «Se não fôssemos nós — comenta Norma — eles poderiam pensar que já não há esperança». 

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17 de Outubro de 2019

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