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Bento XVI visitou a Biblioteca Vaticana

· Depois da reabertura ao público na conclusão dos trabalhos de restauro ·

Uma hora no meio dos manuscritos antigos e dos incunábulos da «sua» biblioteca para abençoar quantos, frequentando-a «para cultivar as ciências e as artes» «como honestos pesquisadores da verdade», orientam «os próprios esforços para a construção de um mundo mais humano». Na manhã de sábado, 18 de Dezembro, Bento XVI visitou a Biblioteca Apostólica Vaticana, reaberta ao público após três anos de restauro. Recentemente, na mensagem que enviou por ocasião do congresso no passado dia 9 de Novembro, o Pontífice recordou como a Biblioteca é parte integrante dos instrumentos necessários ao desenvolvimento do seu ministério, um meio precioso ao qual o Bispo de Roma não pode e não pretende renunciar. E àquela mensagem fez referência ao despedir-se, saudando os presentes: «Queridos amigos gostaria de vos dizer obrigado pelo vosso trabalho. Já disse na minha mensagem o que penso sobre a necessidade e a grande importância da Biblioteca», concluiu antes de conceder a bênção e desejar bom Natal a todos. A atenção de Joseph Ratzinger a esta instituição, que escolheu visitar no dia em que não está aberta para não incomodar a actividade de pesquisa que ali se desenvolve, foi retribuída com três dons: uma medalha em bronze, uma agenda em couro branco e um livro.

Na sua chegada, foi recebido pelo cardeal Raffaele Farina, arquivista e bibliotecário da Santa Igreja Romana, por Mons. Cesare Pasini, prefeito, e pelo Dr. Ambrogio M. Piazzoni, vice-prefeito — que o acompanharam durante toda a visita — e pelo conselho da Biblioteca. Fez parte da comitiva pontifícia o arcebispo Harvey, prefeito da Casa Pontifícia, o bispo De Nicolò, regente da prefeitura, e Mons. Gänswein, seu secretário particular.

No adro do edifício, aos pés da escada, junto da grande estátua de mármore de Hipólito, o Papa recitou uma breve oração para a bênção dos locais renovados. O breve rito foi dirigido pelo mestre das celebrações litúrgicas, Mons. Guido Marini.

Em seguida, Bento XVI dirigiu-se à sala das consultas dos impressos, que se encontra no terceiro andar. Ali, de uma das janelas, pôde ver os dois elevadores externos: um completamente novo e outro renovado para poder chegar aos níveis mais altos da estrutura. O prefeito Pasini mostrou-lhe um volume dotado de um dispositivo que permite seguir o percurso dos eventuais deslocamentos, de maneira que se possa reconstruir o itinerário dos livros relacionando-os às pessoas que os usaram. O director do departamento dos impressos, Adalbert Roth, em alemão, apresentou ao Pontífice os dois antigos volumes da Bíblia de Gutenberg conservados pela Biblioteca Apostólica Vaticana.

Ao transferir-se para a sala das consultas dos manuscritos 2, o Papa deteve-se a admirar um impresso antigo, que lhe foi apresentado pela responsável dos impressos, Barbara Jatta. É a aquaforte «Vero dissegno deli stupendi edefitii giardini boschi fontane et cose maravegliose di Belvedere in Roma» de 1579, do milanês Ambrogio Brambilla, que mostra uma imagem global do Vaticano no período de Gregório XIII, oferecendo em primeiro plano uma visão da basílica de São Pedro em construção, do pátio do Belvedere e dos jardins do Vaticano, inseridos nos muros de Sangallo. Um panorama precedente a 1587, quando foi construída por vontade de Sisto v, uma nova sede para a sua Biblioteca. O arquitecto Domenico Fontana projectou o novo edifício, que até hoje abriga a Biblioteca Vaticana, colocando-o entre o pátio do Belvedere e o superior, chamado actualmente pátio da Biblioteca. A gravatura encontra-se inserida na nota tirada do Speculum Romanae Magnificentiae de Antoine Lafréry. Em particular, foi mostrado o exemplar do Speculum com a marca Riserva.S.7, o mais antigo que se conserva na Biblioteca e também o que mais se aproxima das primeiras cópias encadernadas da colectânea que saíram da tipografia de Lafréry. O volume provém da biblioteca do chanceler francês Séguier, político na época dos reis Luís XIII e XIV, entre os fundadores da Academia francesa. O exemplar apresenta ainda a encadernação original em couro castanho, com uma decoração dourada, formada por uma sementeira de lírios que ocupa toda a superfície dos planos, enquanto no centro estão presentes ramos dourados, cruzados com outros frisos, formando um oval. Depois o volume pertenceu a Hippolyte Destailleur e a seguir ao arqueólogo inglês Thomas Ashbye, e no início do século XX foi adquirido pela Biblioteca Vaticana.

Bento XVI admirou também duas moedas antigas, descritas pelo director do departamento do gabinete numismático, Giancarlo Alteri: um medalhão em ouro de 1929, comemorativo da Concordata entre a Itália e a Santa Sé e do jubileu sacerdotal de Pio XI, e uma moeda de dez florins de Camera em ouro, cunhada por Sisto iv por ocasião do jubileu de 1475. O primeiro representa, no verso, o busto do Papa Ratti; embaixo, a assinatura do gravador cameral Aurelio Mistruzzi. No reverso, a cena representada e as datas em volta, em cima, referem-se ao Jubileu sacerdotal do Pontífice bibliotecário: a hóstia sobre o cálice, em primeiro plano, é o símbolo do sacerdócio; a basílica de São João de Latrão e a de São Pedro no Vaticano, ao fundo, são respectivamente as sedes da ordenação sacerdotal e da coroação papal de Achille Ratti. A referência aos Pactos Lateranenses está contida na legenda do exergo. O medalhão, com mais de 82 milímetros de diâmetro, foi apresentado ao Papa exactamente a 11 de Fevereiro de 1929, dia da assinatura dos Pactos, e agradou muito ao Pontífice, que quis que fosse emitida também como medalha anual no dia 29 de Junho seguinte, sem variações.

A segunda, no verso representa Jesus que confia o rebanho a Pedro, que apascenta num campo arborizado e iluminado pelos raios do sol. No exergo, dois anjos seguram o brasão do Pontífice. Em volta vê-se a legenda. No reverso está representada a barca dos Apóstolos no mar agitado, enquanto Jesus, em pé sobre as ondas, salva Pedro que está para se afogar. A moeda foi cunhada pela Papa Della Rovere (1471-1485) somente em três exemplares.

Em seguida, o Papa passou pela sala das consultas dos manuscritos 1 e saudou alguns benfeitores e depois dirigiu-se ao gabinete do prefeito, onde recebeu os três dons. Sucessivamente, voltou à sala das consultas dos manuscritos 1, onde o director do departamento Paulo VIan e o arquivista-chefe Marco Buonocore lhe apresentaram respectivamente dois manuscritos e um documento do arquivo. O primeiro Reg. lat. 124: Rabano Mauro, De laude sanctae Crucis, é um manuscrito escrito e ilustrado na abadia de Fulda nos anos 822-847, na qual era abade o próprio Rábano Mauro, que deve ter seguido de perto as diversas fases de preparação do códice, onde aparecem algumas miniaturas numa página inteira. Entre estas: na folha 2v, a imagem de Alcuíno (Albinus) que acompanha Rábano Mauro (Maurus) e o apresenta a São Martinho de Tours; na folha 4v, a imagem do imperador Ludovico, o Piedoso. O manuscrito pertenceu a Cristina da Suécia e chegou à Biblioteca Vaticana em 1690. O segundo é Vat. lat. 9850: Tommaso d’Aquino, Autografo della Summa contra gentiles (ff. 2-89) e dei Commenti a Boezio (ff. 90-103) e a Isaia (ff. 105-114). Ao lado da escrita de Tomás, aparece a mão de um dos seus secretários, Reginaldo de Priverno. Foram mostradas as folhas 14v-15r, com a eliminação das primeiras redacções autógrafas dos capítulos 53-54 da Summa contra gentiles e com a redacção definitiva realizada por Reginaldo, que provavelmente é autor também da cabeça de burro desenhada na folha 14v. O documento de arquivo é uma Bula de proclamação do primeiro Jubileu ( inc. Antiquorum habet fida relatio) que se encontra no Arquivo do Cabido de São Pedro, capsa 1, fascículo 1, n. 9. Trata-se da carta solene (datada de 22 de Fevereiro de 1300) mediante a qual a chancelaria anunciava a proclamação do primeiro Ano Santo. Era concedida a indulgência plenária a quem se confessasse, fizesse penitência e visitasse as basílicas de São Pedro e de São Paulo fora dos Muros.

Sucessivamente, o Papa desceu à primeira cave no depósito de manuscritos, onde visitou também a sala dos papiros. Num ambiente mantido com temperatura e humidade constantes, abrindo a segunda gaveta de um móvel, Vian mostrou-lhe um rolo de papiro de três segmentos (num total de 2,70 metros), proveniente de um fundo arquivístico do «nomos» de Marmarica no Egipto, com registros fundiários (do ano 190 d.C). Reutilizado pouco depois, no início do século III, para transcrever no verso a obra de Favorino de Arles, o papiro foi comprado pela Biblioteca Vaticana em 1930.

Os últimos ambientes visitados pelo Papa foram os novos locais do arquivo fotográfico no segundo andar e, no primeiro, a secção norte do laboratório de restauro, onde assistiu a uma breve representação do trabalho artesanal que ali é realizado, executada pelo responsável do laboratório Arnaldo Mampieri.

Foram 60 minutos transcorridos por Bento XVI na Biblioteca, nos quais percorreu as grandes salas para se dar conta pessoalmente dos trabalhos efectuados e admirar de novo os autênticos «tesouros da humanidade» que ali são conservados; mas sobretudo experimentou a atmosfera daquele que poderia ter sido um lugar no qual cultivar a sua paixão de estudioso, se não tivesse sido chamado ao sólio de Pedro.

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7 de Dezembro de 2019

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