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Bento XVI e a «Sacramentum caritatis»

· O celibato sacerdotal no ensinamento dos Pontífices ·

De uma conferência pronunciada em Ars pelo cardeal prefeito da Congregação para o Clero, publicamos a parte relativa ao Papa Ratzinger.

O último Pontífice que comentaremos é felizmente o reinante, Bento XVI, cujo magistério inicial sobre o celibato sacerdotal não deixa dúvida alguma, quer sobre a validade perene da norma disciplinar quer, sobretudo e antecedentemente, sobre a sua fundação teológica e de modo especial cristológico-eucarística.

Em particular, o Papa dedicou ao tema do celibato um número inteiro da exortação apostólica pós-sinodal, Sacramentum caritatis, de 22 de Fevereiro de 2007. Nela lemos: «Os padres sinodais quiseram sublinhar como o sacerdócio ministerial requer, através da ordenação, a plena configuração a Cristo. Embora respeitando a prática e a tradição oriental diferentes, é necessário reiterar o sentido profundo do celibato sacerdotal, justamente considerado uma riqueza inestimável e confirmado também pela prática oriental de escolher os bispos apenas de entre aqueles que vivem no celibato, indício da grande honra em que ela tem a opção do celibato feita por numerosos presbíteros. Com efeito, nesta opção do sacerdote encontram expressão peculiar a dedicação que o conforma a Cristo e a oferta exclusiva de si mesmo pelo Reino de Deus. O facto de o próprio Cristo, eterno sacerdote, ter vivido a sua missão até ao sacrifício da cruz no estado de virgindade constitui o ponto seguro de referência para perceber o sentido da tradição da Igreja Latina a tal respeito. Assim, não é suficiente compreender o celibato sacerdotal em termos meramente funcionais; na realidade, constitui uma especial conformação ao estilo de vida do próprio Cristo. Antes de mais, semelhante opção é esponsal: a identificação com o coração de Cristo Esposo que dá a vida pela sua Esposa. Em sintonia com a grande tradição eclesial, com o Concílio Vaticano II e com os Sumos Pontífices meus predecessores, corroboro a beleza e a importância duma vida sacerdotal vivida no celibato como sinal expressivo de dedicação total e exclusiva a Cristo, à Igreja e ao Reino de Deus, e, consequentemente, confirmo a sua obrigatoriedade para a tradição latina. O celibato sacerdotal, vivido com maturidade, alegria e dedicação, é uma bênção enorme para a Igreja e para a própria sociedade» (n. 24).

Como é fácil notar, a exortação apostólica Sacramentum caritatis multiplica os convites a fim de que o sacerdote viva na oferta de si mesmo, até ao sacrifício da cruz, por uma dedicação total e exclusiva a Cristo.

O vínculo entre celibato e Eucaristia, que a exortação apostólica reafirma, é particularmente relevante; se tal teologia do magistério for recebida de modo autêntico e aplicada realmente na Igreja, o futuro do celibato será luminoso e fecundo, porque será um futuro de liberdade e de santidade sacerdotal. Assim poderíamos falar não só de «natureza esponsal» do celibato, mas da sua «natureza eucarística», derivante da oferta que Cristo faz de si mesmo perenemente à Igreja, e que se reflecte de modo evidente na vida dos sacerdotes.

Eles são chamados a reproduzir, na própria existência, o sacrifício de Cristo, ao qual foram assimilados pela ordenação sacerdotal.

Da natureza eucarística do celibato derivam todos os possíveis progressos teológicos, que põem o sacerdote diante do próprio ofício fundamental: a celebração da santa missa, na qual as palavras: «Este é o meu Corpo» e «Este é o meu Sangue» não determinam só o seu efeito sacramental próprio mas, progressiva e realmente, devem modelar a oblação da mesma vida sacerdotal.

O sacerdote celibatário então é associado pessoal e publicamente a Jesus Cristo. Torna-o presente de modo real, transformando-se ele mesmo em vítima, naquela que Bento XVI chama: «A lógica eucarística da existência cristã».

Quanto mais se recuperar, na vida da Igreja, a centralidade da Eucaristia, celebrada dignamente e adorada de maneira constante, tanto maior será a fidelidade ao celibato, a compreensão do seu inestimável valor e, permiti-me, o florescimento de santas vocações ao ministério ordenado.

No discurso por ocasião da audiência à Cúria Romana para a apresentação dos votos natalícios, a 22 de Dezembro de 2006, Bento XVI afirmou: «O verdadeiro fundamento do celibato pode estar contido apenas na frase: Dominus pars — Tu és a minha terra. Pode ser apenas teocêntrico. Não pode significar permanecer privados de amor, mas deve significar deixar-se arrebatar pela paixão de Deus, e aprender depois, graças a um estar com Ele mais íntimo, a servir também os homens. O celibato deve ser um testemunho de fé: a fé em Deus torna-se concreta naquela forma de vida que só tem sentido a partir de Deus. Apoiar a vida n’Ele, renunciando ao matrimónio e à família, significa que acolho e experimento Deus como realidade e por isso posso levá-lo aos homens».

Só a experiência da «herança» que o Senhor é para cada existência sacerdotal, torna eficaz o testemunho de fé que é o celibato. Como o próprio Bento XVI afirmou no discurso aos participantes na plenária da Congregação para o Clero, a 16 de Março de 2009, ele é: «Apostolica vivendi forma (...) participação numa “vida nova” espiritualmente entendida, naquele novo “estilo de vida” que foi inaugurado pelo Senhor Jesus e assumido pelos Apóstolos».

O Ano sacerdotal recentemente concluído presenciou várias intervenções do Santo Padre sobre o tema do sacerdócio, em particular nas catequeses de quarta-feira, dedicadas aos tria munera, e nos pronunciamentos por ocasião da inauguração e do encerramento do Ano sacerdotal e dos eventos ligados a são João Maria Vianney. Particularmente relevante foi o diálogo do Papa com os sacerdotes, durante a grande vigília de encerramento do Ano sacerdotal, quando lhe perguntaram sobre o significado do celibato e as dificuldades que se encontram para o viver na cultura contemporânea, ele respondeu, partindo da centralidade da celebração eucarística quotidiana na vida do sacerdote que, agindo em Persona Christi, fala no «Eu» de Cristo, tornando-se realização da permanência no tempo da unicidade do Seu sacerdócio, acrescentando: «Esta unificação do seu “eu” com o nosso implica que somos “atraídos” também para a sua realidade de Ressuscitado, que prosseguimos rumo à vida plena da ressurreição (...) Neste sentido, o celibato é uma antecipação. Transcendamos este tempo e caminhemos em frente, e assim “atrairemos” a nós próprios e nosso tempo para o mundo da ressurreição, para a novidade de Cristo, para a vida nova e verdadeira».

Assim, pelo magistério de Bento XVI está confirmada a relação íntima entre dimensão eucarístico-fontal e dimensão escatológica antecipada e realizada do celibato sacerdotal. Ao superar com um só golpe todas as reduções funcionalistas do ministério, o Papa recoloca-o na sua ampla e elevada moldura teológica, ilumina-o ao evidenciar a sua relação constitutiva, portanto, com a Igreja e valoriza poderosamente toda a sua força missionária derivante precisamente daquele «a mais» rumo ao Reino que o celibato realiza.

Naquela mesma circunstância, com audácia profética, Bento XVI afirmou: «Para o mundo agnóstico, o mundo no qual Deus não tem lugar, o celibato é um grande escândalo, porque mostra precisamente que Deus é considerado e vivido como realidade. Com a vida escatológica do celibato, o mundo futuro de Deus entra nas realidades do nosso tempo».

Como poderia a Igreja viver sem o escândalo do celibato? Sem homens dispostos a afirmar no presente, também e sobretudo através da própria carne, a realidade de Deus? Tais afirmações tiveram cumprimento, e de certo modo coroação, na extraordinária homilia pronunciada no encerramento do Ano sacerdotal na qual o Papa rezou a fim de que, como Igreja, sejamos livres dos escândalos menores, para que apareça o verdadeiro escândalo da história, que é Cristo Senhor.

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16 de Setembro de 2019

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