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Bárbara a estrangeira

· ​A Santa do mês ·

Tinha de haver algo extraordinariamente difícil e duro, quase obstinado, no temperamento desta menina de cujas origens e de cuja vida sabemos tão pouco – pretende-se pensar que nasceu na Nicomédia, na Bitínia, mas que sucessivamente se transferiu com a família para Rieti: um itinerário ainda hoje deveras incomum, muito menos nos séculos III-IV – e cujo próprio nome nos intriga. Bárbara que vem diretamente do grego, como se sabe, e inclusive na língua latina significa «estrangeiro»: de modo que gostamos de pensar que também este seu nome alude de qualquer forma a uma inata, áspera diversidade, a um desejo quase selvagem de não ceder, de resistir. Sendo em primeiro lugar profundamente si mesma.

Bárbara fê-lo de muitas maneiras. Muito bonita, o pai – segundo a tradição – fez construir uma torre para a encarcerar e mantê-la assim sob custódia contra as ambições de muitos pretendentes da jovem, teimosamente rejeitados. Desta vez ela cedeu, mas levou consigo muitos livros pedindo também que na torre fossem abertas três janelas: já este facto foi uma piedosa evocação da Trindade, afirma a hagiografia. Mas, certamente, ainda mais significativas talvez fossem as leituras, diz-se, principalmente, aquelas dos textos de Orígenes: com efeito, também graças a eles, Bárbara tornou-se cristã. Aqui são reconhecíveis as características de um itinerário histórico típico das origens do cristianismo: uma religião que se espalhou rapidamente, de forma especial entre as mulheres das camadas mais elevadas da sociedade imperial romana – devemos lembrar que na altura nem todos sabiam ler, sobretudo nem todas? – quase sempre contra os pais, maridos efetivos ou candidatos. E, não raro, eram antecipadoras quer de uns quer dos outros no caminho rumo a uma nova vida.

Contudo, não foi o caso de Bárbara. Com efeito, tendo procurado fazer-se batizar, Dióscoro, o pai, não gostou da sua decisão, e depois de ter tentado impedir-lho de muitas maneiras, com um gesto terrível de cólera denunciou-a às autoridades. Foi o início do calvário. Recusando-se de abjurar Bárbara foi submetida a uma série de torturas dignas da mais terrificante lista dos horrores, que culminaram na amputação dos seios. A jovem, ao enfrentá-las, mostrou a sua têmpera indómita e a sua fé: resistiu heroicamente a todas os suplícios até quando o próprio Dióscoro, que devia ser um pagão tão fanático a ponto de fazer inveja a um jihadista moderno do Es, empunhando ele mesmo a espada, decapitou a filha. Mas a este ponto o Senhor, quase aceitando o desafio, incinerou-o com um raio.

Por conseguinte, depois da torre o raio; e como cenário uma coragem e uma tenacidade sem igual numa mulher, pelo menos segundo a opinião da época. A vocação específica apotropaica da santidade de Bárbara tinha encontrado os seus elementos constitutivos. Que contudo, sozinhos, provavelmente não teriam sido suficientes: o resto tinha que ser feito pela história.

Precisamente a história nos diz que o culto de Bárbara se difundiu rapidamente a partir do século VII, sobretudo no oriente bizantino e na sua Igreja. E não foi por acaso. Com efeito, Bizâncio não foi apenas um Estado cristão, mas também o primeiro que se viu a braços com ações bélicas em vasta escala. Na península italiana, para manter uma dianteira de romanidade contra francos e longobardos; depois a oriente, contra as populações seminómadas provenientes das estepes asiáticas que pressionavam nos Balcãs: por fim, pouco mais tarde, para fazer face ao expansionismo árabe a sul e a ocidente. Por conseguinte, uma condição de guerra permanente, para cujo enfrentamento o seu exército precisava como nenhum outro da proteção divina. Bizâncio tinha necessidade de guerreiros santos.

Mas como encontrá-los na tradição cristã, de uma religião pregadora por excelência da mansidão e do amor, que surgiu em antítese a qualquer violência? Não era fácil; permiti que nos expressemos com palavras simples: era necessário ter imaginação, integrar a realidade com os recursos da metáfora e da simbologia. A vicissitude de Santa Bárbara, num certo sentido, era feita de propósito, e por outro lado não podia considerar-se um impedimento o facto de se tratar de uma mulher. Não costumavam porventura os cristãos, desde sempre, invocar nas situações de perigo a Virgem Maria, pedir a ajuda da Mãe de Deus? Certamente, o cristianismo não era uma religião alheia e muito menos hostil à dimensão feminina.

Francisco Goya y Lucientes «Santa Bárbara» (1773 aprox.)

A conversão de Bárbara tinha acontecido numa torre – de facto na iconografia será este o seu símbolo principal – ou seja, no elemento talvez mais típico das fortificações e, por conseguinte, dos assédios, clássico emblema da capacidade de resistir, de aguentar, de fazer face a uma multidão esmagadora. Porventura, não era invocada como turris eburnea, turris Davidica também a Virgem Santa? Além disso, o Senhor tinha manifestado a Bárbara o seu favor com o raio que incendeia e ateia fogo. Pois bem, porventura não deviam as frotas muitas das suas vitórias precisamente ao fogo grego, àquela mescla de breu e enxofre, que só eles conheciam, que fazia arder os navios inimigos?

Portanto, as construções de defesa, o trabalho com a picareta e a braços com tudo o que se incendeia e arde, que rebenta de repente e também repentinamente mata; por fim, a guerra no mar: a santidade de Bárbara tinha encontrado os seus carismas e os seus devotos. Os mineiros, os sapadores, os bombeiros, os marinheiros embarcados nos navios de guerra cujo ambiente mais perigoso, aquele onde se encontram amontoadas as munições e os explosivos, ainda hoje se chama Santa Bárbara, como invocação implícita de uma proteção celeste sempre oportuna.

Mas dado que inicialmente a história a tinha ajudado tanto, a própria história estava destinada a pregar uma partida a Bárbara. Os tempos mudam, sabe-se, e com o avançar do século XX e o afirmar-se da universal hostilidade oficial em relação à guerra – notoriamente a prática é um pouco diversa (...) – as coisas tornaram-se cada vez mais difíceis para os santos guerreiros como ela. Em 1969, devido às suas origens bastante incertas, ela foi removida do Calendário romano, mesmo se continuou no elenco dos Santos. Por isso, no momento em que um terrível fumo invadisse o quarto de dormir, dirigi um pensamento a Santa Bárbara, a sério. Tenho a certeza de que mal não faz.

Ernesto Galli della Loggia

Ernesto Galli della Loggia

Historiador e editorialista do «Corriere della Sera», nunca se ocupou nem de mulheres nem de Santas. Escreveu muitos livros, entre os quais L'identità italiana (il Mulino, 2010); o último, Credere vivere tradire (il Mulino, 2016), é a história, em parte autobiográfica, de cinquenta anos de vida política.

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18 de Agosto de 2019

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