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A avó de Jesus

· História de um culto antigo ·

A arte sacra nunca dedicou espaço às mulheres idosas: Maria e as santas são sempre muito jovens, ou retratadas numa imóvel beleza real sem idade. Só a representação de Ana, mãe de Maria, faz excepção a esta regra, mas nem sempre: Leonardo, por exemplo, na maravilhosa obra conservada no Louvre, na qual representa Ana com a Virgem e o Menino, pinta-a jovem e lindíssima como a filha. Mas é uma das poucas excepções.

Na série imponente de obras nas quais Ana está representada, encontramo-la claramente diferenciada da filha, jovem ou moça, tanto nas feições do rosto como nas cores ou na maneira de vestir, na estatura e em vários outros sinais, que nos permitem reconstruir, através do seu exemplo, a imagem da mulher idosa na sociedade e na tradição cristã por um longuíssimo espaço temporal. Mais raramente o seu rosto está sulcado pelas rugas, para conferir maior verosimilhança à sua idade: a mulher idosa era considerada uma figura inquietante, invejosa das mulheres jovens e bonitas, que ainda podiam gerar. Não foi por acaso que durante alguns séculos cada mulher anciã era considerada potencialmente bruxa.

O número das obras dedicadas revela a importância da mãe de Maria: a avó de Jesus é objecto de um culto antigo e florescente, mesmo se nem sequer uma vez é mencionada nos evangelhos canónicos. Mas dela fala muito o Protoevangelho de Tiago, ou seja, o texto atribuído ao apóstolo citado várias vezes como «irmão» de Jesus e por conseguinte considerado seu parente estreito, que podia estar ao corrente das histórias de família. Era também atribuída a Ana, nascida numa família da tribo de Judas – portanto também ela de estirpe real como José – uma irmã, depois mãe de Isabel, que por sua vez deu à luz João Baptista. O seu matrimónio com Joaquim está marcado por vinte anos de esterilidade, motivo pelo qual o homem é escarnecido no templo. Em resposta às orações de Ana, chega uma gravidez inesperada: nasce Maria, que é oferecida no templo com três anos. Mas a história de Ana não termina aqui: com a morte de Joaquim, foi em seguida esposa dos seus dois cunhados, dos quais teve mais duas filhas, ambas de nome Maria, por sua vez mães de filhos varões que depois foram apóstolos de Jesus. Esta história é retomada – e celebrada – pela Legenda aurea de Jacopo de Varagine, na Vida da Virgem.

Então, não nos devemos admirar se esta imprevista e inesperada fertilidade de Ana fez com que ela se tornasse a protectora das mulheres estéreis e das parturientes. Ao contrário, é menos evidente a sua carreira como santa dos mineiros – veste na qual a conheceu Lutero, filho de um mineiro, e que na juventude lhe era muito devoto – a qual alguns interpretam como «aquela que conserva nas vísceras uma jóia». Outros, ao contrário, preferem atribuir esta qualificação à assonância do seu nome com o da deusa céltica da montanha, Ana.

Sobre estas notícias, sob um certo aspecto até inquietantes, constrói-se o culto à avó de Jesus, confirmado depois pelas visões de Santa Colete – no início irritada pela complexa vida matrimonial de Ana, depois sua grande defensora – com base nas quais se constrói também um novo modelo iconográfico, o do santo parentesco.

Com excepção deste texto, a história de Ana é feita sobretudo de imagens particularmente eloquentes que abrem cenários insuspeitados. Ana é retratada sozinha com muita raridade, normalmente está com a Virgem e com o netinho, mas em muitos casos, sobretudo no norte da Europa, ao lado dela apinham-se os numerosos descendentes que, juntamente com os maridos e as irmãs, podem fazer chegar até a 29 as personagens retratadas.

Mas o número mais vezes relacionado com ela é o 3: mesmo se, na sua primeira imagem, um afresco em Santa Maria Antiga, ao lado dela estão pintadas mais duas mães, Maria e Isabel, o trio mais difundido é aquele com a filha e o netinho, a ponto que estas obras são normalmente chamadas Santa Ana trinitária. Este trio pode ser representado em horizontal, mas com mais frequência é em escala vertical, e Ana domina-o, por estatura e imponência protectora. Numa sociedade patriarcal esta imagem, da qual são excluídos tanto Joaquim como José, oferece um exemplo de poder matriarcal. É evidente – e já se deduz isto pelo nome – que as três figuras parecem repropor, em dimensão humana e feminina, a Trindade. Nalgumas obras, como a Santa Ana trinitária de Masaccio e Masolino conservada nos Uffizi, esta semelhança com o modelo trinitário é evidente, e sem dúvida procurada pelo próprio artista, e de resto há pelo menos duas igrejas – uma em Florença e outra em Como – nas quais ao lado da trindade «feminina» está a «masculina», com o Pai que tem no colo o Filho crucificado enquanto por cima deles voa uma pomba que representa o Espírito Santo. O parentesco humano, corpóreo, de Jesus, constitui uma trindade feminina e humana à qual se une a divina, frisando mais uma vez a contribuição feminina para a Encarnação.

Ao contrário, o santo parentesco que oferece a ocasião de representar tantas pessoas de idades diversas e alude claramente à importância da família e da linhagem, com o seu reconduzir também a adesão dos apóstolos principais a um vínculo de família, afasta-se claramente da universalidade da mensagem de Jesus.

Ana pode até ser inquietante: na xilografia de Hans Baldung de 1511, na qual, sentada ao lado da Virgem, segura nas mãos o órgão sexual do Menino, o seu rosto certamente não é benévolo. E compreendemos então porque José parece tão alarmado, que controla a cena do cimo de um pequeno muro. Talvez se trate apenas de uma das muitas obras nas quais a sexualidade do Menino Jesus é exibida para reforçar o dogma da Encarnação, mas um historiador do Renascimento, Jean Wirth, ao contrário suspeita que esta obra revela como Ana, enquanto idosa, era considerada uma bruxa. E vê nisto a prova de quanto eram consideradas inquietantes e suspeitas estas mulheres, que de resto – considerada a brevidade da vida humana, e sobretudo da feminina, dizimada pelos partos – não deviam ser numerosas.

Depois da separação de Lutero, sobre as imagens de Ana muito pesaram as críticas dos protestantes, de modo que no pós-Trento vemos que a sua representação sofre um profundo restyling: desaparece definitivamente como sujeito o santo parentesco (de tipo decididamente matriarcal), substituído pela Sagrada Família, na qual José ocupa um lugar importante. Ana pode ser acrescentada, mas a presença de José torna-se obrigatória – por vezes aparece de novo até Joaquim – e a figura da avó, agora decididamente pintada só como anciã, torna-se marginal. Ou então ainda pode ocupar um lugar ao lado da filha, enquanto lhe ensina a ler. Este último tipo de representação – mesmo se pode ser considerado uma diminuição em relação ao papel dominante de protectora que desempenhava antes – tem contudo um reflexo social positivo ao favorecer a alfabetização das mulheres, e mais em geral a sua familiaridade com o mundo da leitura.

Deste modo Ana é desprovida do seu poder – quer positivo quer negativo – mas assume o papel de educadora, daquela que transmite a tradição da fé, que depois será proposto a todas as mulheres no século XIX. E é mais uma prova de que os símbolos femininos, na tradição católica, sempre foram muito importantes e ricos de significado.

Lucetta Scaraffia

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24 de Agosto de 2019

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