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​Áurea e o mar

· ​Áurea e o mar ·

Áurea olha para o mar. A tentação de tirar o calçado, arregaçar a túnica e molhar os pés naquela água é forte, mas contém-na. É apenas uma criança, mas contudo conhece as regras impostas pela sua condição: foi a mãe quem lhas ensinou, tendo-as aprendido da sua que, do mesmo modo, as aprendeu. Último elo da corrente, sabe que deverá ter presente aqueles ditames para os transmitir – com consciência clara de nunca os ter transgredido – quando por sua vez for mãe. Primeiro preceito: uma donzela nobre é obrigada a prestar contas ao seu contexto social. Por conseguinte, é-lhe proibido ceder a comportamentos que ofendam a sua linhagem e, indirectamente, o império. No caso concreto, para tranquilidade dos seus e de Cláudio II o Gótico, é-lhe impedido aquilo que é consentido aos filhos dos pescadores.

Jacques Callot, Áurea (século XVII)

Por vezes imagina que é um deles; ganhar lanço, mergulhar, cavalgar as ondas no dorso de um delfim como Orionte. E, ao voltar para casa, ouvir de um pai que imagina com as feições do seu, mas com o rosto sulcado por profundas rugas, histórias de tempestades e monstros marinhos dos abismos. Na realidade, sabe pouco ou nada dos homens do mar; crescida no bem-estar, tem uma vaga percepção de quanto é difícil a vida deles. Mas tendo-se cruzado com alguns, lá na amada praia de Ostia, diante daqueles rostos tisnados pelo sol, com as mãos gretadas, os ombros curvos, desejou – ela tão pequenina – ocupar-se deles. Protegê-los, oferecer-lhes uma pausa do sofrimento. Se pudesse hospedáva-os com todas as honras no palácio. Não o do bairro Regola onde nasceu, porque distantes do mar sofreriam de saudades; mas na vivenda de Ostia, circundada por muitas propriedades, sentir-se-iam à-vontade. Áurea aspira por um mundo de iguais, privado de iniquidades e desigualdades. Mas teme que isto seja destinado a permanecer uma miragem. Segundo preceito: uma nobre jovem romana não se mistura com o vulgo. Terceiro: quando chegar o momento será esposa de um patrício escolhido pela família e criará os filhos da maneira que mais agrada aos da sua condição e aos deuses. Por fim, há o quarto preceito, que os sintetiza todos: nunca concebe a ideia temerária de abandonar o sulco traçado pelos pais. Foi sempre assim, será sempre assim, só um louco ou um subversivo ousaria afirmar o contrário. Mas muitas vezes surpreende-se a desejar outra vida. Que desventura sonhar com tanta intensidade se o fazes sozinha.

Áurea olha para o mar. Tira o calçado, levanta as vestes, imerge os pés na água. Só poucos anos antes, fazer aqueles simples gestos tinha-lhe parecido difícil como escalar uma montanha. Mas a sua escolha tornou-a livre. Transgredidos todos os preceitos, enveredou por uma senda da qual não tenciona desviar-se; e paciência se se anuncia disseminada de pedregulho: no caso de se cortar, amará todas as feridas. Já não se sente um elefante branco, porque ao que parece na Urbe e no império abundam os extravagantes. No ventre de antros subterrâneos, reúnem-se para desafiar a autoridade constituída no nome de um Nazareno morto na cruz há mais de dois séculos por ter pregado o advento de um mundo habitado por iguais. Abraçar esta causa foi uma aventura, um salto no vazio. Uma loucura magnífica que deve esconder cuidadosamente para que os seus familiares não sejam nela envolvidos. De repente, vem-lhe em mente uma recordação remota.

«Pai, porque me chamo Áurea?». «Porque tu, Chryse, és a nossa filha de ouro». «Chryse?». «O teu nome em língua grega. Era o nome de uma ilha que já não existe». «E para onde foi?». «Desapareceu. Afundou no mar».

Nem todos têm o nome de uma terra que afundou. Talvez se deva a isso a sua irresistível atracção por aquele líquido em movimento perpétuo? Nomem omen, o nome é um presságio. Mas ela não acredita no destino: deixou de acreditar a partir do momento em que entendeu que cada um é árbitro da sua sorte.

A partir do momento em que fez a sua escolha Áurea não pode ver o mar. Mas sabe que está perto, sente a sua chamada. Primeiro exilada na vivenda paterna de Ostia, depois enclausurada e torturada, é um coágulo de sofrimento. Contudo não cede. Todas as vezes que lhe pediram para renegar o seu credo ela opôs-se, e quando já não tinha nem sequer força para falar limitou-se a abanar a cabeça. Sente piedade pelos seus carnífices: num mundo justo homem algum teria sido reduzido a instrumento de dor. Por isso não tem medo dela, mas não imagina minimamente que na realidade são eles que a temem. O seu valor faz tremer as veias dos pulsos dos soldados rudes: aquela pequena mulher é uma fortaleza tão frágil quão inexpugnável. Pior para ela. Ao mostrar-se tão obstinada assinou a sua condenação.

Eis que a vêm prender. Conduzem-na fora, arrastam-na para... onde? A luz cega-a, mas é-lhe suficiente cheirar o vento: conhece aquele perfume, e nunca lhe pareceu tão doce. Fazem-na subir a um barco, amarram-lhe uma pedra ao pescoço: um empurrão e Áurea vai ao fundo. Afunda como a ilha da qual tem o nome. O mar acolhe-a, está dentro dela, um é parte do outro. Mais adiante um pescador lança as redes. De repente sente-se protegido, confortado. E ri e chora, sem saber porquê.

Antonella Ossorio nasceu em Nápoles, onde vive e trabalha desde sempre. Autora de numerosos textos para crianças e jovens. Publicados por Einaudi, Rizzoli, Giunti, Electa e outras casas editoras realizou por muito tempo laboratórios de escritura para os mais pequeninos e cursos de formação para professores. O seu último romance (La mammana, 2014) representa o seu exórdio na narrativa para leitores adultos.

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