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Assim como a bicicleta

· Missa em Santa Marta ·

O equilíbrio da Igreja recorda o da bicicleta que cai se estiver parada mas “vai bem” se estiver em movimento. E foi exatamente contra o imobilismo, a rigidez do «sempre foi feito assim» que nos torna «prisioneiros das ideias», as resistências ideológicas a qualquer mudança sugerida pelo Espírito, que o Papa Francisco advertiu na terça-feira, 24 de abril, durante a missa celebrada em Santa Marta.

«Quando por causa da perseguição desencadeada em Jerusalém os discípulos se espalharam e semearam a palavra de Deus – explicou o Pontífice – teve início o diálogo entre eles e as pessoas que não pertenciam ao seu povo, povos com outra cultura, outro pensamento, filosofia diversa, outra língua, mas eles foram em frente».

Em particular, alguns discípulos «começaram a pregar o Evangelho a estas pessoas que não eram judias, não eram do povo de Deus» prosseguiu. A pregação do Evangelho «aos pagãos era uma novidade: uma das primeiras novidades da Igreja», observou Francisco, frisando: «Sabemos que Deus é o Senhor das novidades e vem sempre ao nosso encontro com algo de novo, nunca se repete, é original em si mesmo».

«Face às novidades de Deus há atitudes diversas» reconheceu o Papa. «Nós, na liturgia de hoje vemos duas delas, ambas de resistência às novidades, às mudanças», explicou. E assim, disse referindo-se ao trecho dos Atos dos Apóstolos (11, 19-26), «na primeira leitura, pregar Jesus Cristo aos pagãos é uma novidade e isso não entrava na cabeça do povo de Deus». «Por isso, os habitantes de Jerusalém ficaram inquietos e enviaram Barnabé» a Antioquia «para observar». Então Barnabé «realizou ali uma visita canónica para ver em que situação se encontrava aquela Igreja».

«Esta resistência à novidade, isto é, pregar o Evangelho aos não-judeus, constata-se também no problema que Pedro enfrentou quando entrou na casa de Cornélio», prosseguiu o Pontífice, citando outro episódio narrado nos Atos dos Apóstolos e evocando «o escândalo que depois lhe causaram os habitantes de Jerusalém: teve que ir lá e explicar o que tinha acontecido». Mas «após o diálogo sentiu que nisto havia algo de Deus; que era precisamente o Espírito que os impelia a esta novidade: “Primeira regra, se eles quiserem ser um de nós que façam os ritos de iniciação judaicos e assim serão um de nós e, depois, o Evangelho”».

Assim «rezaram, procuraram a luz do Senhor, souberam discernir os sinais dos tempos» explicou Francisco. E talvez «recordassem as palavras de Jesus: “O Espírito Santo ensinar-vos-á tudo e recordar-vos-á”». Portanto, prosseguiu o Papa, «era o Espírito Santo que lhes inspirava esta sabedoria nova e assim se abriram ao Espírito Santo e a Igreja foi em frente e os pagãos foram admitidos na Igreja sem passar pelos ritos de iniciação judaicos». E «esta foi a primeira grande novidade da Igreja e conseguiram fazer a mudança». Com «uma primeira resistência, mas aberta: isto é normal, é normal segundo Deus».

Na realidade «eles – afirmou o Pontífice – permaneceram dóceis ao Espírito Santo para realizar algo que era mais que uma revolução, uma grande mudança: no centro estava o Espírito Santo, não eles; o Espírito Santo, não a lei». «Era uma Igreja em movimento, uma Igreja que ia além de si mesma». «Não era um grupo fechado de eleitos mas uma Igreja missionária, aliás, o equilíbrio da Igreja, por assim dizer, consiste precisamente na mobilidade, na fidelidade ao Espírito Santo».

«Alguém disse que o equilíbrio da Igreja se assemelha ao da bicicleta: está firme e vai bem quando está em movimento; se a deixares parada, cai» disse o Papa, frisando que é «um bom exemplo» porque nos recorda que devemos «mover-nos segundo o Espírito Santo». «O Espírito» que é «o centro», torna-nos «livres, com a liberdade dos filhos de Deus: se aquela primeira resistência, que é humana, não malvada, mas contém esta novidade, deve ser esclarecida no discernimento, na oração e depois assumida e levada em frente». «Este é o primeiro comportamento face às resistências».

«Outro exemplo é a resistência dos doutores da lei, que se vê no início do Evangelho», disse Francisco referindo-se ao trecho de João (10, 22-30) proposto pela liturgia. «Já no final da vida, era inverno, Jesus caminhava no templo, no pórtico de Salomão» explicou o Papa. Então «os judeus circundaram-no e disseram-lhe: “Até quando nos manterás na incerteza? Se és o Cristo, diz-nos abertamente”. E Jesus olhou para eles e respondeu: “Disse-vos, mas não me acreditais. As obras que realizo”».

Eles, prosseguiu o Papa «voltam a fazer a mesma pergunta, são incapazes de sair daquele mundo fechado, são prisioneiros das ideias. Receberam a lei que era vida mas “destilaram-na”, transformaram-na em ideologia e deste modo dão voltas, dão voltas e são incapazes de sair e qualquer novidade para eles é uma ameaça». E «por isso, acabaram por matar Jesus. São apegados à letra, àquele fechamento que causaram ideologizando a lei do Senhor».

«Desta resistência é tão difícil sarar, é necessário uma graça muito grande do Espírito Santo» afirmou o Pontífice. A ponto que «depois de três anos» passados a ouvir Jesus, a discutir com Jesus, a ver os milagres, perguntavam-lhe: «Mas então até quando nos manterás na incerteza?». Resumindo «não entenderam, não deixaram entrar Jesus: fechados». E «este fechamento torna-se rigidez e não colocam o Espírito Santo no centro. Não são filhos de Deus livres: no centro» põem-se «a si mesmos, fechados, rígidos», vivendo «com aquele modo de defender a revelação de Deus, que era ideológico, mas não aberto ao Espírito Santo que estava a fazer muitas mudanças». Eram «pessoas que sempre voltavam ao mesmo ponto e nada os fazia felizes».

A eles Jesus «com um pouco de ironia», disse: «Sois como aquelas crianças sentadas na praça que dizem aos outros: “tocamo-vos flauta, e não dançastes, cantamos lamentações e não pranteastes”. Nada vos agrada? Apenas a rigidez às ideias e o “sempre foi feito assim”».

«Esta é a ortodoxia destas pessoas que fecham o coração às novidades de Deus, ao Espírito Santo», insistiu o Papa. «Estas pessoas – acrescentou – não sabem discernir os sinais dos tempos. Querem uma Igreja, queriam isto, uma sinagoga, uma Igreja fechada e rígida, não aberta às novidades de Deus». Ao contrário, «outro comportamento, o dos discípulos, dos apóstolos, é uma atitude de liberdade, a liberdade dos filhos de Deus».

Portanto, reconheceu o Pontífice, «fizeram resistências desde o início». Mas «isto não só é humano, mas é uma garantia de que não se deixam enganar por qualquer coisa e, depois, com a oração e o discernimento encontram o caminho». Pois «sempre haverá resistência ao Espírito Santo, sempre, até ao fim do mundo».

Concluindo, Francisco convidou a pedir ao Senhor «que nos conceda a graça de saber resistir ao que devemos resistir, ao que provém do maligno, ao que nos impede a liberdade». E «o Senhor nos dê a graça» de nos sabermos abrir «às novidades, mas apenas àquelas que provêm de Deus, com a força do Espírito Santo», e «nos dê a graça de discernir os sinais dos tempos a fim de tomarmos as decisões certas naquele momento».

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17 de Novembro de 2019

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