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Ásia: a desigualdade origina violência

· ​Espiritualidade ·

A desigualdade ou o desequilíbrio entre mulheres e homens cria instabilidade e dá origem à violência. Em populações mais paritárias a violência é muito reduzida. A fonte de desigualdade é a alastradora convicção cultural, social e concetual segundo a qual as mulheres são criadas para os homens e os homens são superiores. Esta superioridade traduz-se na noção de «posse» do objeto. E isto é válido na sociedade mas infelizmente também na Igreja.

Venho de Singapura, onde se tende a pensar que bem-estar, desenvolvimento económico, ótimos cuidados médicos e educação signifiquem automaticamente que foi alcançada a igualdade de género. Muitos homens e mulheres pensam que não há necessidade de vigiar sobre a desigualdade de género no posto de trabalho ou em casa; isto é, sobre a violência doméstica, o abuso sexual, as moléstias sexuais e a comercialização do corpo feminino. Para desfazer este mito é suficiente visitar a Association for Women's Action and Research, que oferece assistência telefónica, refúgio e ajudas de emergência às mulheres vítimas de violência. Também o Singapore Council of Women's Organizations tem uma casa-refúgio para mulheres e crianças que necessitam de proteção. Um exemplo de desigualdade que cria violência é a presença em Singapura de «esposas estrangeiras». Aqui, os homens com escasso nível de instrução, incapazes de encontrar uma esposa, olham para o Vietname e para a China onde mulheres, levadas pela pobreza, aceitam as suas propostas de matrimónio para manter a própria família.

Segundo Chong Ning Qian, responsável pela pesquisa na Aware, «as mulheres estrangeiras provenientes de contextos socioeconómicos mais pobres em relação aos dos seus maridos de Singapura podem estar mais expostas a maus-tratos. O facto de depender do seu marido para a residência, a cidadania e o direito ao trabalho coloca estas mulheres numa posição de desigualdade e para aquelas que são vítimas de abusos é mais difícil procurar ajuda».

Mulheres e meninas são consideradas mercadoria ou um peso, em muitos países da Ásia, como demonstram os costumes e as leis relacionadas com o matrimónio e com a sexualidade. Um exemplo difundido desta desigualdade são as «meninas-esposas». A organização Girls Not Brides conta as histórias de muitas jovens obrigadas a casar-se e submetidas a ações de prepotência e violência doméstica. A violência provém da família do marido, que as trata como escravas e muitas vezes as vexam porque a família não conseguiu pagar o dote exigido. Normalmente o marido é muito mais velho e estupra a jovem. O facto de que muitas mocinhas sejam vítimas de graves violências e muitas morram, levou alguns países a promulgar leis para proibir os matrimónios com jovens com menos de dezoito anos.

Mas há também quem, como Amrita, no Nepal, conseguiu convencer os pais a não aceitar a proposta de matrimónio que lhe foi feita quando ela tinha apenas dezasseis anos e a esperar enquanto ela não tivesse completado pelo menos vinte anos, e entretanto terminou os estudos.

O United Nations Women's Committee de Singapura declarou: «O mais importante, é necessário convencer os membros da sociedade a rever e a mudar aquelas atitudes e comportamentos tradicionais que relegam as mulheres a um papel inferior na sociedade e encorajam a violência masculina. É indispensável educar os jovens e os homens a ver as mulheres como parceiras ao mesmo nível, a fim de construir uma sociedade orientada para a paz e o progresso».

Na sua mensagem para o Dia mundial de oração pela paz de 2017 o Papa Francisco fala da necessidade de direitos iguais e de respeito entre as nações, para evitar violências e conflitos. Aplicando o mesmo princípio, a desigualdade e a convicção de que os homens são de algum modo moral e fisicamente superiores, geram a atitude de prepotência e influenciam profundamente as nossas respostas. Na Evangelii gaudium, assim como na Amoris laetitia, o Papa Francisco define a violência doméstica como uma ameaça não somente ao bem-estar da mulher, mas também à família e à sociedade. Cita as estruturas patriarcais entre os responsáveis da violência contra as mulheres e na sociedade.

Deve-se notar a conexão constante entre desigualdade e violência. Por exemplo, no caso dos trabalhadores domésticos estrangeiros na Ásia e no Médio Oriente, as leis favorecem o empregador. Os trabalhadores domésticos estrangeiros não são considerados iguais aos outros cidadãos em termos de direitos legais e quando são vítimas de abusos sexuais ou verbais ou agredidos fisicamente sentem-se numa armadilha e impotentes. A desigualdade face à lei é outro aspeto da desigualdade que muitas vezes serve de pano de fundo para a violência e a injustiça.

A sensação de estar numa armadilha não diz respeito só aos trabalhadores imigrantes ligados a um particular empregador, que não têm direito de procurar outro emprego. Diz respeito também a milhões de mulheres aprisionadas em matrimónios aos quais os costumes e a cultura as destinaram a dias intermináveis de trabalho duro, além de serem subalimentadas, não instruídas e últimas na lista de espera para os cuidados médicos.

Aquilo que era bastante comum até à primeira metade do século XX ainda hoje persiste em muitas culturas asiáticas, até em famílias relativamente abastadas. Espera-se que as noras se ocupem de todos os afazeres domésticos e que atendam a todos os pedidos irracionais dos seus sogros sem se lamentarem. No seu livro From Fear to Freedom, a doutora Rilly Ray Rajkumar descreve a vida da sua mãe em Calcutá como dias intermináveis de afazeres domésticos extenuantes, sem ajuda alguma nem atenção por parte dos seus sogros. Para ter a certeza de que as suas filhas não tivessem o mesmo destino, convenceu o marido a ir para a Malásia, que naquele tempo estava sob o governo britânico. Transferiram-se pouco antes que rebentasse a guerra mundial, mas no final tudo correu bem e as filhas conseguiram chegar aos vértices na sua profissão.

Outro fator importante que cria o contexto para a violência contra as mulheres é a pobreza, que, juntamente com a desigualdade, torna a vida muito mais insustentável para as mulheres e as crianças do que para os homens. Quando o dinheiro é pouco ou inexistente, as últimas que comem são as mulheres, as últimas que recebem uma instrução são as filhas e só os meninos podem beneficiar da assistência médica. As jovens são vendidas a agentes que as revendem, destinando-as à prostituição e a um trabalho que é equivalente à verdadeira escravidão, com um salário mínimo ou nenhum e sem direitos. Em 2001 em Banguecoque, na Tailândia, conheci uma jovem proveniente do nordeste do país. Era ainda adolescente e mãe solteira. A fim de poder providenciar ao filho deixara-o com a sua família – camponeses muito pobres – para ir procurar trabalho na cidade. Em Banguecoque tinha acabado na rede da prostituição, até quando uma ong a salvou e lhe deu ajuda para abrir uma pequena atividade como vendedora ambulante de bolos. Quando a encontrei tinha amigos e sentia-se segura, depois de tantos meses de traumática violência sexual e física.

As mulheres estão profundamente desiludidas pelo facto de que a Igreja está muito atrasada em dar o testemunho necessário para mudar a perceção da igualdade e da complementaridade entre homem e mulher. Exemplos de comportamentos escandalosos de sacerdotes e religiosos em relação às mulheres e às crianças deriva de um sentido de impunidade que nasce da profunda e radicada convicção da superioridade masculina. Em vez de desafiar a sociedade com o Evangelho, muitas vezes a Igreja oferece um testemunho contrário. A diferença entre clero e laicado é enorme até para os homens leigos, e por conseguinte, é muito mais acentuada para as mulheres leigas. Eis um exemplo simples.

A realização de um mural para a sede do Singapure Council of Women's Organizations

Em Singapura os ministrantes são todos rapazes. A justificação para a exclusão das jovens é que servir durante a missa leva muitos rapazes a tomar em consideração o sacerdócio como vocação. As jovens constituiriam uma distração e poderiam levar a uma diminuição do número dos rapazes que servem durante a missa e que respondem à vocação. Mas poderia haver também implicações não confessadas. Em primeiro lugar, a perceção de que as moças não podem servir no altar porque são menos dignas e menos santas. A «vocação» das mulheres não é importante. A desigualdade é existencial. O livro do Génesis diz «à imagem de Deus o criou; varão e mulher os criou». Como pode a Igreja, na sociedade, desempenhar um papel-guia contra a violência infligida às mulheres se as causas fundamentais da violência não são reconhecidas ou enfrentadas?

Há uma longa lista de crimes contra as mulheres. Homicídios «de honra» de mulheres acusadas de «desonrar» a própria família com as suas relações, com o modo de vestir ou com a rebelião; os abortos seletivos, onde o feto feminino é abortado porque o casal quer unicamente um filho varão. Esta situação era muito difundida na China até ao recente abrandamento da política do filho único. Na Índia é ilegal, mas ainda é amplamente praticado. Um estudo indica que da população indiana faltam dez milhões de meninas. Além do aborto seletivo, ainda existe o infanticídio feminino.

Muitas mulheres, vítimas inocentes da guerra, suportaram estupros e torturas. São milhares as que vivem a vergonha do estupro, da viuvez e do abandono. Acontece no Sri Lanka e em muitas partes do sul e do sudeste asiático, onde grupos étnicos combatem contra os militares.

É necessária uma abordagem múltipla. Educação para todos, com uma ênfase particular à educação das mulheres e dos homens para a sua dignidade e direitos. Atenção preferencial à educação das moças e das mulheres. Ajudar os cristãos, onde quer que estejam presentes, convertendo as culturas com o Evangelho, quer na Igreja quer na sociedade, de maneira a poder contrastar as desigualdades com a nossa perspetiva de fé. Redução da pobreza, com uma particular atenção às mulheres e às crianças abandonadas pela família. Alojamentos adequados para apoiar a vida familiar. Educação para a vida familiar a homens e mulheres, com a finalidade de criar relações matrimoniais melhores. Por fim, uma reforma das estruturas eclesiais, para que deem testemunho de Jesus Cristo, que trouxe a todos nós um amor abrangente e igual. 

Wendy Louis

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19 de Agosto de 2019

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