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Aquele pó precioso aos olhos de Deus

· Na audiência geral de quarta-feira Bento XVI falou sobre o caminho de conversão quaresmal ·

Converter-se significa «ir contra a corrente», libertando-se do «estilo de vida superficial, incoerente e ilusório» que torna os homens «escravos do mal» ou «escravos da mediocridade moral», ressaltou o Papa na audiência geral de quarta-feira, 17 de Fevereiro, na Sala Paulo VI.



Amados irmãos e Irmãs!

Hoje, Quarta-Feira de Cinzas, damos início ao caminho quaresmal: um caminho que se desenvolve por quarenta dias e que nos conduz à alegria da Páscoa do Senhor. Neste itinerário espiritual não estamos sozinhos, porque a Igreja nos acompanha e nos ampara desde o início com a Palavra de Deus, que encerra um programa de vida espiritual e de compromisso penitencial, e com a graça dos Sacramentos.

São as palavras do apóstolo Paulo que nos oferecem uma preciosa recomendação: «exortamo-vos a que não recebais em vão a graça de Deus... Ouvi-te no tempo favorável e ajudei-te no dia da salvação» (2 Cor 6, 1-2). Na realidade, na visão cristã da vida todos os momentos devem ser considerados favoráveis e todos os dias devem ser dias de salvação, mas a liturgia da Igreja refere estas palavras de um modo totalmente particular no tempo da Quaresma. E podemos compreender que os quarenta dias em preparação para a Páscoa são tempo favorável e de graça do apelo que o austero rito da imposição das cinzas nos dirige e que se exprime, na liturgia, com duas fórmulas: «Convertei-vos e acreditai no Evangelho!», «Recorda-te que és pó e pó te hás-de tornar».

A primeira chamada é à conversão, palavra que se deve acolher na sua extraordinária seriedade, compreendendo a surpreendente novidade que ela irradia. O apelo à conversão, de facto, ressalta e denuncia a fácil superficialidade que caracteriza com muita frequência a nossa vida. Converter-se significa mudar de direcção no caminho da vida: não com um pequeno ajustamento, mas com uma verdadeira inversão de marcha. Conversão é ir contra a corrente, onde a «corrente» é o estilo de vida superficial, incoerente e ilusório, que muitas vezes nos arrasta, nos domina e nos torna escravos do mal ou prisioneiros da mediocridade moral. Com a conversão, ao contrário, tem-se como objectivo a medida alta da vida cristã, confiamo-nos no Evangelho vivente e pessoal, que é Cristo Jesus. A sua pessoa é a meta final e o sentido profundo da conversão, ele é o caminho pelo qual todos são chamados a caminhar na vida, deixando-se iluminar pela sua luz e amparar pela sua força que move os nossos passos. Deste modo a conversão manifesta o seu rosto mais maravilhoso e fascinante: não é uma simples decisão moral, que rectifica o nosso modo de vida, mas é uma escolha de fé, que nos envolve totalmente na comunhão íntima com a pessoa viva e concreta de Jesus. Converter-se e crer no Evangelho não são duas coisas diversas ou de qualquer modo apenas próximas entre si, mas expressam a mesma realidade. A conversão é o «sim» total de quem entrega a própria existência ao Evangelho, respondendo livremente a Cristo que foi o primeiro a oferecer-se ao homem como caminho, verdade e vida, como o único que liberta e salva. É precisamente este o sentido das primeiras palavras com as quais, segundo o evangelista Marcos, Jesus abre a pregação do «Evangelho de Deus»: «Completou-se o tempo e o reino de Deus está perto: Arrependei-vos e acreditai na Boa Nova» (Mc 1, 15).

O «arrependei-vos e acreditai na Boa Nova» não está só no início da vida cristã, mas acompanha todos os seus passos, permanece renovando-se e difunde-se ramificando-se em todas as suas expressões. Todos os dias é momento favorável e de graça, porque todos os dias nos solicita a entregar-nos a Jesus, a ter confiança n'Ele, a permanecer n'Ele, a partilhar o seu estilo de vida, a aprender d'Ele o amor verdadeiro, a segui-lo no cumprimento quotidiano da vontade do Pai, a única grande lei de vida. Todos os dias, também quando não faltam as dificuldades e as fadigas, as canseiras e as quedas, quando somos tentados a abandonar o caminho do seguimento de Cristo e a fechar-nos em nós mesmos, no nosso egoísmo, sem nos darmos conta da necessidade que temos de nos abrir ao amor de Deus em Cristo, para viver a mesma lógica de justiça e de amor. Na recente Mensagem para a Quaresma eu quis recordar que «é necessário humildade para aceitar que é preciso que um Outro me liberte do “meu”, para me dar gratuitamente o “seu”. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitência e da Eucaristia. Graças à acção de Cristo, nós podemos entrar na justiça “maior”, que é aquela do amor (cf. Rm 13, 8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar» (L'Oss. Rom. edição portuguesa de 6 de Fevereiro de 2010, p. 3).

O momento favorável e de graça da Quaresma mostra-nos o próprio significado espiritual também através da antiga fórmula: Recorda-te que és pó e pó te hás-de tornar, que o sacerdote pronuncia quando impõe sobre a nossa cabeça um pouco de cinza. Somos assim remetidos para o início da história humana, quando o Senhor disse a Adão depois do pecado original: «Com o suor do teu rosto comerás o pão, enquanto não voltares à terra, porque dela foste tirado: tu és pó e pó te hás-de tornar!» (Gn 3, 19). Aqui, a palavra de Deus recorda-nos a nossa fragilidade, aliás a nossa morte, que é a sua forma extrema. Perante o inato medo do fim, e ainda mais no contexto de uma cultura que de muitos modos tende a censurar a realidade e a experiência humana do morrer, a liturgia quaresmal, por um lado, recorda-nos a morte convidando-nos ao realismo e à sabedoria, mas, por outro, estimula-nos sobretudo a aceitar e a viver a novidade inesperada que a fé cristã desencadeia na realidade da própria morte.

O homem é pó e pó se há-de tornar, mas é pó precioso aos olhos de Deus, porque Deus criou o homem destinando-o à imortalidade. Assim a fórmula litúrgica «Recorda-te que és pó e pó te hás-de tornar» encontra a plenitude do seu significado em referência ao novo Adão, Cristo. Também o Senhor Jesus quis partilhar livremente com cada homem o destino da fragilidade, sobretudo através da sua morte na cruz; mas infelizmente esta morte, cheia do seu amor pelo Pai e pela humanidade, foi o caminho para a ressurreição gloriosa, através da qual Cristo se tornou fonte de uma graça doada a quantos crêem n'Ele e são tornados partícipes da própria vida divina. Esta vida que não terá fim já está a decorrer na fase terrena da nossa existência, mas será levada a cumprimento depois «da ressurreição da carne». O pequeno gesto da imposição das cinzas revela-nos a singular riqueza do seu significado: é um convite a percorrer o tempo quaresmal como uma imersão mais consciente e intensa no mistério pascal de Cristo, na sua morte e ressurreição, mediante a participação na Eucaristia e na vida de caridade, que da Eucaristia nasce e na qual encontra o seu cumprimento. Com a imposição das cinzas nós renovamos o nosso compromisso a seguir Jesus, a deixar-nos transformar pelo seu mistério pascal, para vencer o mal e praticar o bem, para fazer morrer o nosso «homem velho» ligado ao pecado e fazer nascer o «homem novo» transformado pela graça de Deus.

Queridos amigos! Enquanto nos preparamos para empreender o austero caminho quaresmal, desejamos invocar com particular confiança a protecção e a ajuda da Virgem Maria. Seja ela, a primeira crente em Cristo, quem nos acompanha nestes quarenta dias de intensa oração e sincera penitência, para chegar a celebrar, purificados e completamente renovados na mente e no espírito, o grande mistério da Páscoa do seu Filho.

Boa Quaresma a todos!




No final da audiência o Papa saudou os vários grupos presentes. Entre eles destacava-se um grupo de jovens portugueses que vieram depois de vinte e sete anos para encontrar o Papa, guiados pelo Cardeal José da Cruz Policarpo. Já em 1983 tinham estado em Roma acompanhados pelo então Patriarca António Ribeiro para agradecer a visita de João Paulo II ao país no ano precedente.

Saúdo com particular afecto o grupo de fiéis do Patriarcado de Lisboa, peregrinos com o seu bem-amado Pastor, Cardeal Dom José Policarpo, em romagem de fé e gratidão pelas sendas do Venerável Servo de Deus Papa João Paulo II, que vos conquistou para Cristo, no Parque Eduardo VII da vossa cidade, há vinte e oito anos. Ver-vos hoje aqui, traz à mente aquele seu último pensamento para os jovens: «Andei à vossa procura. Agora viestes ter comigo. Eu vos agradeço». Queria-vos a todos com Cristo. Que este nosso encontro suscite em vós e em todos os peregrinos presentes de língua portuguesa, com as suas famílias e comunidades cristãs, uma renovada vitalidade espiritual na fiel e generosa adesão a Cristo e à Igreja. Olhai o futuro com esperança e não vos canseis de trabalhar na vinha do Senhor. Uma santa Quaresma para todos!

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