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Ao redor da família

Na mesa redonda sobre a família, coordenada por Lucetta Scaraffia no dia 16 de Novembro na sede de «L’Osservatore Romano», participam o secretário-geral do Sínodo dos bispos, cardeal Lorenzo Baldisseri; o prior de Bose, Enzo Bianchi; e a professora de filosofia na universidade «La Sapienza», Claudia Mancina; estavam presentes a irmã Catherine Aubin, Giulia Galeotti, a irmã Rita Mboshu Kongo e Silvina Pérez, de «donne chiesa mondo»; o teólogo padre Maurizio Gronchi e, na primeira parte do encontro, o director de «L’Osservatore Romano».

Lucetta Scaraffia—O nosso debate sobre Igreja e família, na conclusão das onze páginas que, como «donne chiesa mondo», dedicamos a esta temática, certamente não pode prescindir do confronto que se aprofundou durante o Sínodo, encerrado há poucas semanas. Precisamente por isso, dirigimos a nossa primeira pergunta ao secretário-geral do Sínodo dos bispos. Se a família está em crise praticamente em toda a parte, são várias as razões às quais se deve imputar esta situação. Quais são as causas mais recorrentes, que explicam esta situação?

Lorenzo Baldisseri—O que impeliu o Papa a enfrentar o tema da família, comprometendo a Igreja inteira ao longo de dois anos, expressa-se bem com o termo «desafios», que se encontra no primeiro documento do percurso sinodal. As respostas ao questionário distribuído a todas as dioceses puseram em evidência os factores de crise e a necessidade de uma adequada pastoral familiar. Neste contexto o aspecto religioso, em diminuição constante em determinados países, acusa os efeitos de um individualismo exasperado que, entre outras coisas, debilita a família, enquanto noutras regiões a dimensão religiosa pode chegar a assumir contornos de extremismo e de fanatismo, igualmente ameaçadores em relação à família. A transformação antropológica, juntamente com alguns factores positivos, como por exemplo a renovada atenção à dignidade da pessoa em todos os seus componentes, comporta também riscos notáveis, como aquele de um subjectivismo agudo que alimenta dinâmicas conflituosas e violentas na família. Qual é a resposta da Igreja à crise da família contemporânea? A pastoral assume a responsabilidade pela formação dos jovens, acompanha-os rumo à resposta jubilosa e completa à vocação conjugal e familiar, sustém os casais jovens nos primeiros anos de casamento, cuida de maneira particular de quantos vivem a dolorosa experiência do fracasso, ajuda-nos a sentir a paróquia como seu lar e como lugar de missão. As instituições públicas deverão ocupar-se em maior medida da família, o que significa: desenvolver políticas de apoio e de superação da precariedade financeira de muitas delas, favorecer o seu acesso à educação, à vida cultural e a uma vida social activa. Num sistema de economia que tende a descartar, em vez de incluir, aqueles que mais sofrem as consequências são os jovens que não encontram trabalho e as crianças, vítimas inocentes, que se tornam verdadeiros órfãos sociais, marcados dolorosamente para a vida inteira.

Claudia Mancina—Não compartilho a ideia de que a família é moribunda, assediada por um mundo já desprovido de valores, por um egoísmo que nega todos os vínculos. Ou esmagada por políticas destinadas unicamente aos direitos individuais, pelo divórcio, pelo aborto e pela liberdade sexual. Quando olhamos à nossa volta, a paisagem social em que vivemos não parece confirmar estes diagnósticos catastróficos. Famílias formam-se, separam-se e voltam a formar-sede maneira incessante. Independentemente do que se diz, a grandíssima maioria das crianças cresce em família, em relação não apenas com um ou com ambos os pais, mas também com avós, tios e primos. Sem dúvida, a família contemporânea mudou muito em comparação com aquela de há umas duas gerações. Mais frequentemente do que antes, por causa da separação ou por opção de vida, a criança só vive com um dos pais (mas não devemos subestimar o efeito, no passado, de fenómenos como a morte durante a guerra e a emigração). Contudo, isto não é suficiente para declara o fim da família. Com efeito, se tivermos em consideração a longuíssima vicissitude da família, que constitui uma das instituições mais antigas e mais duradouras da história humana, salta aos nossos olhos a constatação de que esta história se caracteriza por profundas transformações, que comprometeram não apenas as suas funções e a sua estrutura, mas inclusive os relacionamentos pessoais entre os seus membros e, por conseguinte, também a imagem global da família que todos trazemos dentro de nós. Não há dúvida: a família tradicional é cada vez mais residual, porque padeceu o efeito de fenómenos sociais de grande relevância, como a emancipação das mulheres e o seu ingresso na vida pública e no mundo do trabalho; o nascimento de um mundo juvenil autónomo, com os seus códigos culturais e com os seus vínculos de grupo. E, mais recentemente, o desenvolvimento das novas tecnologias da comunicação, instrumento extremamente poderoso de relações horizontais entre os indivíduos. Portanto, nesta nossa reflexão devemos começar a partir da consciência de que a capacidade extraordinária de duração da família identifica-se totalmente com a sua capacidade de se transformar. Assim, a família de hoje é o resultado de uma evolução que está ligada de modo íntimo à evolução dos relacionamentos sociais e dos direitos individuais; por conseguinte, pode continuar a mudar, como deveras acontece; e, necessariamente, a lei intervém para regular esta mudança. Hoje realiza-se uma grande transformação ligada à mudança do papel da mulher, e esta mudança está em curso não apenas nos países ocidentais. Outra mudança relevante é o prolongamento da existência humana, pelo que a família não perdura mais a vida inteira. Além disso, sou contrária ao uso do conceito de individualismo segundo uma visão puramente negativa: o individualismo não se opõe à família, não relega a família a um segundo plano. O problema verdadeiramente grave é o narcisismo. O individualismo garante dignidade e direitos a cada pessoa, tendo feito da família uma rede de relacionamentos afectivos, e não de relações de poder. Parece-me que é possível falar de crise não somente do ponto de vista da economia, por falta de welfare, que obriga a família a mil dificuldades para compensar as deficiências da assistência pública.

Enzo Bianchi—Sou crítico em relação à ênfase com a qual o tema da família é muitas vezes considerado e interpretado no mundo católico, a começar pela terminologia que se usa. Existe um problema de ética na linguagem: Mancina apresentou-nos uma leitura convincente da transformação em curso na família; porém, eu não usaria o termo «individualismo», mas «subjectivismo», porque «individualismo» é um vocábulo pejorativo, que designa uma patologia do indivíduo isolado, que só se reconhece a si próprio. Da minha experiência, a qual se baseia na escuta de muitas pessoas que visitam Bose para nos pedir discernimento e consolação nos seus dramas familiares, a crise da família apresenta-se principalmente sob dois aspectos: o primeiro diz respeito à vida da família, na qual se verificam graves dificuldades de dar continuidade ao relacionamento na fidelidade e no amor recíproco; o segundo refere-se, ao contrário, àqueles que devem empreender uma história de amor. Neste caso, mas em parte também no primeiro, o que hoje se parece com um obstáculo é a crise de fé-confiança na possibilidade de uma relação sólida na fidelidade, na autenticidade dos sentimentos e da aliança nupcial. O casamento é uma «história» de amor que exige fé-confiança, e por isso os dois parceiros no início se chamam «noivos» (em italiano, «fidanzati»), ou seja, pessoais que têm fé-confiança um no outro em vista do vínculo, e o sinal do laço nupcial, o anel, chama-se «aliança» (em italiano, «fede»). Hoje, o caminho matrimonial está ameaçado pela falta desta fé-confiança no amor, na vida, no porvir. Não é por acaso que Julia Kristeva pede um compromisso comum a crentes e não-crentes, em nome da «incrível necessidade de acreditar», para poder viver uma autêntica humanização pessoal e social.

Scaraffia—O que pode a Igreja fazer diante destas crises?

Bianchi—À Igreja é pedido, hoje mais do que nunca, algo simples mas determinante: que ensine a vida cristã, que ensine a pensar, a questionar-se. Não são suficientes os cursos pré-matrimoniais, porque o problema é educacional: o que falta nas novas gerações é uma gramática humana. Por conseguinte, quem educa pode fazer muito, tem um vasto terreno onde trabalhar.

Mancina—Concordo sobre esta necessidade de uma vida interior, pois também a família deveria contribuir para a sua própria construção. Hoje falta atenção ao papel da educação, dado que muitas vezes se renuncia antes ainda de começar.

Baldisseri—Vivemos um momento de grande transformação, e é necessário que a consciência crítica não se desenvolva somente nos jovens. Nas fases da vida sucedem-se diferentes tipos de crise, que podemos definir também tentações, ou ocasiões de discernimento. Uma primeira crise verifica-se entre o homem e a mulher, à espera de um filho; depois, a crise do «sétimo ano», durante o qual sobressaem a rotina e a diminuição do interesse sexual; em seguida, a crise dos vinte ou vinte e cinco anos de matrimónio, quando os filhos saem de casa; sucessivamente, com quarenta anos a nova primavera da vida; com cinquenta anos, o cônjuge não tem mais nada para oferecer: novas experiências. Com sessenta anos, no momento da aposentadoria, os dois esposos são avós, mas ao mesmo tempo, quando a saúde lhes permite, começam a viajar, tornam-se grandes viajantes: os encontros multiplicam-se fora do âmbito familiar, nascem novos amores. Com setenta anos sentem-se cansados, muitas vezes não se aguentam um ao outro, não se suportam: a esposa ultraja o marido, o marido torna-se um adolescente nas mãos de uma mulher quese torna mãe, e não esposa. Obviamente este panorama, embora seja realista, não ofusca de modo algum a bonita experiência de numerosos esposos que realizam plenamente o seu casamento. O que fazer perante este movimento e estas alternâncias de crise e de perspectiva? Os homens e as mulheres de Igreja, que compartilham também estas experiências como protagonistas nas famílias, devem colocar-se no lugar destas pessoas, para lhes anunciar Jesus, Homem e Deus. Neste confronto, que acompanha as várias experiências, a Igreja encontra-se a si mesma, talvez até se suje—como afirma o Papa Francisco—mas insere-se na existência das pessoas, vive as suas esperanças e os seus sofrimentos, identificando-se com as suas existências concretas. Estas experiências amadurecem no seio da vida paroquial, inserem-se na paróquia, porque é ali que as pessoas se encontram e crescem.

Scaraffia—Que relação existe entre a chamada família natural e o matrimónio cristão?

Mancina—O conceito de família natural é muito difundido e desempenha uma importante função reguladora: tudo o que não se identifica com este modelo torna-se uma desordem. Esperamos da Igreja passos em frente neste rumo, superando aquilo que poderíamos definir um excesso de prudência. Como no passado, quando a Igreja soube captar o sinal dos tempos.

Bianchi—Volto ao tema da linguagem: é necessária muita cautela, antes de associar o termo «natureza» à realidade da família e do matrimónio, conotado como monogâmico e aberto à procriação. Com efeito, as pesquisas históricas e antropológicas mostram a existência de várias formas de família no caminho de humanização, nas diversas regiões culturais. Foi a revelação cristã que fez um anúncio do matrimónio como aliança monogâmica e indissolúvel. Não nos esqueçamos que no Antigo Testamento os próprios patriarcas viveram várias formas de núpcias e de famílias. Não devemos ter medo da singularidade da revelação cristã!

Scaraffia—Insiste-se muito sobre o surgimento de um modelo de indivíduo que contrapõe as suas exigências de liberdade às do bem comum da instituição familiar. No entanto, ignora-se que no âmbito deste modelo geral o verdadeiro problema consiste na emancipação da mulher: era a mulher que renunciava à própria vida pela família, e que hoje se recusa a fazê-lo. Sobre esta questão, a Igreja não se expressou; como em geral, os problemas das mulheres não têm interesse, nem sequer se notam. Porquê?

Mancina—Atribui-se um significado negativo à palavra individualismo, fazendo dele um objectivo polémico, para atingir a mulher que se tornou um protagonista autónomo, e por isso é suspeitada de antepor os seus interesses pessoais aos da família. Assim, esquece-se que a mulher não abandona a família, mas procura reconciliar as várias exigências, assumindo sobre si mesma o fardo desta labuta. E também que a mulher muitas vezes trabalha por necessidade, para manter a família.

Baldisseri—No mundo de hoje, a mulher vive particularmente comprometida na crise da família. Os seus talentos e as suas qualidades foram valorizados e postos em evidência pelas novas realidades que se constituíram no mundo contemporâneo: uma forma de revolução no âmbito pós-moderno, que não tem precedentes e que já produziu efeitos extremamente positivos. Ao mesmo tempo, depauperou-se de outros aspectos tradicionais, como aqueles do papel de mãe, núcleo e coração da família, porque naturalmente teve que reservar espaço à parte social, em determinados casos até com o risco de perder a sua identidade. E com a consequência de que o próprio homem, chamado a compartilhar o papel familiar, se descobriu como um parceiro, ora de ajuda, ora dependente. Naturalmente, este fenómeno é circunscrito e verifica-se de modo diversificado nas várias regiões do mundo, mas é progressivo e ocorre de forma exponencial, também graças aos meios de comunicação de hoje. Actualmente a mulher está exposta em maior medida, enquanto se exige dela muito mais do que no passado. Inclusive nas regiões em que a mulher ainda desempenha o seu papel tradicional, abrem-se horizontes onde ela constitui um elemento relevante na família e na sociedade. Ao mesmo tempo, a mulher continuar a ser sobrecarregada. A Igreja deve praticar uma pastoral adequada para ajudar a pessoa e contemporaneamente a família que, por tais motivos, experimenta de modo concreto a ausência e uma maior fragilidade. Além disso, há que recordar que hoje a mulher experimenta dificuldades que podem chegar a formas de discriminação. Em vez de ser um dom, às vezes a maternidade é considerada um obstáculo para a realização pessoal; sob outros pontos de vista, a esterilidade constitui um motivo de sofrimento e até uma condição social de marginalização. A violência contra as mulheres e a sua exploração constituem sintomas de uma sociedade doentia, que se empobrece e se desvaloriza, reduzindo a mulher a um simples objecto. A luta travada pelas mulheres em ordem a reivindicar os direitos que lhes são próprios nem sempre deu os frutos almejados: em certos contextos, ainda permanece à margem da sociedade e sofre discriminações injustas.

Bianchi—O tema das mulheres na família não foi considerado de maneira suficiente por parte da Igreja. Ainda subsiste uma grande incompreensão acerca da mulher, às vezes até um temor no que se lhe refere, ou então cultiva-se uma visão romântica sobre ela. Falta uma linguagem adequada para definir a mulher e para lhe conferir as mesmas dignidade e subjectividade que competem a cada ser humano. Confesso que não aguardo a curto prazo uma mudança significativa a tal propósito, mas somente uma repetição de bons votos abstractos e idealizados. Contudo, recordemos que as mulheres esperam com urgência respostas da Igreja inteira.

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22 de Agosto de 2019

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