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Antes de tudo o cuidado pela fé

· Há trinta e cinco anos, no dia 28 de Maio de 1977, Joseph Ratzinger foi ordenado bispo na catedral de München ·

Do livro da Congregação para os Bispos Duc in altum. Pellegrinaggio alla tomba de San Pietro e incontro di riflessione per i nuovi Vescovi nominati dal 1 gennaio 2000 al giugno 2001 (Cidade do Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, 2001) publicamos excertos do capítulo «Il Vescovo maestro e custode della fede», escrito pelo então cardeal Joseph Ratzinger. O texto integral encontra-se publicado no site do nosso jornal (www.osservatoreromano.va).

Avigilância do pastor, a sua atenção pelo rebanho, que o Novo Testamento inteiro evidencia, é (...) antes de tudo cura pela fé — positivamente, a fim de que ela se manifeste em toda a sua força luminosa, e negativamente, para que seja protegida contra as falsificações. E quem não vê que as falsificações ameaçam, não só no tempo apostólico, no tempo das cartas pastorais, mas também hoje?

Na teoria, todos estão de acordo sobre a missão da vigilância e do cuidado, no qual ultimamente coincidem o ministério do pastor e do mestre. Contudo, na prática existem muitos «mas». A uma iniciativa de correcção, antes de tudo, opõe-se uma objecção: não se deve porventura respeitar a liberdade de ensino e do professor? Por acaso, a história da inquisição não prejudicou a fama da Igreja? Não é a liberdade um bem preeminente?

Ora, exactamente a Escola de Frankfurt ensinou-nos que existe uma dialéctica do iluminismo, na qual uma instância de liberdade sempre mais forçada no final torna-se destruidora da liberdade. A história das ideologias do último século demonstram-no com evidência. A liberdade às vezes tem que ser defendida precisamente para desmascarar a falsa liberdade como tal e restabelecê-la nos seus confins. Crer significa acolher uma decisão conjunta, uma fé comum e que, por conseguinte, produz paz e unidade. Ninguém deve ser obrigado a crer; acreditar deve ser sempre uma decisão livre e neste sentido deve existir também a liberdade de se separar da fé; a responsabilidade diante de Deus não pode ser substituída por constrições externas. Contudo, quem se encontra na livre decisão da fé, acolheu também o vínculo da sua forma comum e não pode apresentar como pretexto a liberdade, para permanecer dentro e poder destruir a partir do interior.

Estou convicto de que precisamente hoje devemos opor-nos de modo bastante decidido ao abuso do conceito de liberdade. Naturalmente, há diversas formas de vínculo. Quem assumiu livremente o compromisso de ensinar em nome da Igreja, tem um vínculo diferente de um leigo cristão, que sob a sua única responsabilidade procura desenvolver ideias. Não se pode em nome da Igreja ensinar contra a Igreja; aqui trata-se inclusive de uma questão de honestidade.

A primeira objecção contra a vigilância e a cura vem hoje de um conceito unilateral de liberdade. Paralelamente, encontra-se uma segunda forte objecção: como pode um bispo interferir ainda nas sempre crescentes especialização e diferenciação da teologia? Diante da problemática cada vez mais minuciosa não é ele talvez praticamente um profano, que se deve abster de qualquer juízo? Não seria imediatamente acusado de incompetência e de fundamentalismo? A propósito disto, gostaria de propor três indicações.

Obviamente, não se proferirá com superficialidade o diagnóstico de heresia ou de ofuscamento da fé. A prudência é de rigor. Segundo as indicações de santo Inácio de Loyola pressupõe-se antes a boa vontade e procura-se interpretar a nova proposta em sentido positivo. Para um bispo é muito importante o contacto pessoal com os ensinamentos da teologia. Muitos aspectos podem ser esclarecidos na relação pessoal; a proximidade ao bispo ajuda a reforçar a sensibilidade pastoral e a co-responsabilidade pela comunhão da fé, e vice-versa, abre ao bispo o acesso aos problemas teológicos actuais.

A ajuda recíproca dos bispos entre si e do conselho de peritos confiáveis é importante. Portanto, as Conferências episcopais devem preocupar-se por constituir uma Comissão para os problemas da fé deveras competente, na qual colaborem bispos de competência comprovada com professores, que sigam os debates teológicos essenciais e apoiem cada bispo nas questões mais difíceis.

Ainda mais importante do que estes dois aspectos é o terceiro: hoje, com frequência, não recordamos a diferença entre teologia e fé. Na teologia não podemos ser todos peritos e também o teólogo por sua vez não é especialista em toda a construção muito articulada da teologia contemporânea. Mas os bispos nem sequer devem desejar exercer eles próprios o trabalho dos teólogos; a sua função é outra: eles são mestres da fé, sobre a qual se funda a teologia. Na teologia, relativamente só poucos podem ser especialistas. Nas questões da fé todos somos instruídos por Deus, como diz o Evangelho de João (6, 45). (...) cada cristão tem o direito e a capacidade de intervir contra a falsa doutrina e a favor da fé comum, de modo particular naturalmente o bispo, que representa o direito dos fiéis e a sua voz. Se é importante a defesa da liberdade do professor, deve-se sempre considerar contudo que o bem ainda mais preeminente é a defesa da fé dos fiéis, que têm direito à fé genuína da Igreja. A sua fé é o bem da Igreja que mais altamente merece ser defendido.

(...) A confissão de fé da Igreja é o terreno firme, sobre o qual se encontra a teologia. Se esta o abandona, dissolve-se como teologia e torna-se uma particular filosofia da religião. Para esta confissão deve ser orientada a teologia, e nela todos «temos a ciência». Esta simplicidade da confissão não pode perder-se, caso contrário o cristianismo torna-se gnose, matéria para eruditos, na qual em última análise só existem hipóteses, e já não um fundamento, sobre o qual podemos viver e morrer. Para os Padres era perfeitamente claro que a regula fidei é o último critério da exegese, dentro do qual um espaço muito vasto é reservado à busca e à descoberta do intérprete mas, ao mesmo tempo, a realidade a ser interpretada é salvaguardada e não se dissolve na interpretação.

De resto para os Padres, a Regula fidei não era algo escrito, mais amplo do que a profissão de fé, isto é, algo vivo: nela está incluída a voz viva da Igreja, ou seja o Magistério. Assim, o Magistério é a verdadeira ajuda na delimitação entre interpretação falsa e verdadeira. O próprio bispo, na sua Igreja local é a voz viva da fé, o seu mestre e guardião. Mas porque a Igreja é única, ele só ensina de modo recto se estiver sincrónica e diacronicamente em união com a Igreja inteira, se estiver em sintonia com a voz do sucessor de Pedro.

Chego agora a uma terceira objecção, que se opõe à missão da vigilância e da cura: se entrarmos em questões de fé, não perturbamos de modo perigoso a paz na Igreja? Os meios de comunicação de massa interferem na questão e confundem os fiéis; nascem polarizações — não é talvez maior o dano derivante da confusão pública e da contraposição que se origina, do que se deixássemos a questão de lado? Quando nós da Congregação para a Doutrina da Fé pedimos aos bispos que tomem posição contra uma obra abertamente enganadora, é-nos com frequência repetido: só poucas pessoas conhecem o livro, já está esgotado. Ninguém se importa por ele — por que deveríamos fazer publicidade e romper o silêncio até agora praticamente imperturbado?

Tais argumentos podem ser plenamente justificados. Santo Agostinho, na luta com os donatistas cunhou a expressão tolerare pro pace. A paz é um bem importante, e deve-se avaliar no caso se o texto em questão, o grupo em questão é tão importante, que se deve assumir a responsabilidade pela confusão que dele nascerá ou se é melhor, em tal caso, deixar que a questão acabe no silêncio. Por mais que isto seja verdadeiro, todavia não podemos tranquilizar-nos demasiado facilmente. A paz, a paz interior na comunidade eclesial é — como já foi dito — um bem importante, mas existem também pazes falsas.

Se deixarmos sempre passar as coisas, nasce o sentimento da arbitrariedade. Não queremos ter problemas; tudo deve permanecer tranquilo, mas esta calma já não tem conteúdo algum, e torna-se inconsistente e vazia. De cada falsificação da fé, que não for corrigida, permanece também um elemento de envenenamento interior no organismo da Igreja. Aparentemente, a princípio, ela não causa dano, enquanto não se tornar uma infecção geral. Continua a propagar-se silenciosamente, enquanto se perde a sensibilidade pela fé e a própria fé já não se manifesta como um bem comum, porque foi corroída lentamente a partir de dentro. Então certamente a estrutura externa continua ainda por algum tempo, mas no seu interior a Igreja está condenada ao esgotamento.

Admiramo-nos porque as Igrejas se esvaziam, há um êxodo silencioso, um simples apagar-se: pertencer à Igreja parece não ter qualquer importância, porque na realidade ela já não tem uma finalidade, parece que já não considera seriamente o seu fundamento mais profundo — a presença da revelação de Deus na fé. Na sua Regra pastoral Gregório Magno interpretou neste sentido uma expressão muito intensa do Senhor: «Tende sal em vós mesmos e vivei em paz uns com os outros» ( Mc 9, 50).

O sal prejudica a paz, queima e faz mal. Parece contrapor-se à paz. Ambos devem realizar-se juntos: a paz, que tolera o outro, mas também o sal, que evidencia e luta contra os elementos de decomposição. «Quem é demasiado preocupado pela paz puramente humana, já não se opõe ao malvado e assim dá razão aos perversos, separa-se da paz de Deus... É uma grande culpa fazer aliança com a corrupção», ele disse (11, 408).

O bispo deve ser um homem de paz, mas há-de ter também sal em si mesmo; deve estar pronto para o conflito, quando se trata do verdadeiro bem, para que o sal não se torne insípido e nós não sejamos justamente desprezados e espezinhados.

Concluindo, gostaria de mencionar ainda uma última objecção, que de modo geral nós mesmos escondemos, mas que devemos trazer à luz. No início já tinha citado tal objecção: não são poucos os que, embora plenamente ortodoxos e devotos, inclusive bispos, no íntimo perguntam-se — de modo mais ou menos confessado — se é deveras bom conhecer toda a vontade de Deus, ou se a fé é mais um peso do que uma graça. Não é porventura difícil viver a fé integralmente? Não é talvez a boa consciência de quem não a conhece ou a conhece só em parte uma via mais fácil para a salvação? No ínicio da época liberal, quando apesar da separação da fé as certezas cristãs essenciais ainda resistiam e como tais apresentavam-se à razão comum, podíamos ter verdadeiramente esta impressão. Os fiéis, por assim dizer, deviam apoiar os fundamentos para os outros e evitar o seu desmoronamento, porque a razão pura não existe: a sua eficácia depende sempre de mil contextos. Hoje, quando estas certezas de fundo sofrem uma grande queda, nós vemos a obscuridade, na qual precipita o homem, se não conhecer a sua origem e o seu destino. Nasce a não-cultura da morte. Um mundo sem sentido, e num mundo no qual não sabemos quem somos e o que devemos fazer, cria-se a necessidade de nos entorpecermos com a droga. O niilismo não é mais fácil, é simplesmente a obscuridade. A luz é a fé. E nós cristãos, hoje, deveríamos crer novamente de modo muito mais reconhecido, jubiloso e optimista: sim, é bom conhecer a vontade de Deus. É bom conhecer Deus e ser conhecido por Ele. É bom saber que aspecto tem Deus: no rosto de Cristo, que amou cada um de nós e por nós se entregou a si mesmo até à morte, nós vemos o rosto do próprio Deus. Só se voltarmos a sentir a partir de dentro a preciosidade da fé, a sua alegria de modo deveras autêntico, como acontecia na antiguidade pagã por parte dos primeiros cristãos, só se voltarmos a estar verdadeiramente contentes com a fé, veremos espontaneamente como o mais importante é defender esta pérola preciosa, preocupar-se com o seu esplendor e assim reconheceremos como a prioridade mais elevada da nossa missão é o compromisso por este tesouro.

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17 de Setembro de 2019

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