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Alma esfomeada

· Ludovica Albertoni apresentada por Franco Scaglia ·

«Cada um deveria caminhar na direcção marcada pelas batidas do próprio coração» dizia Paul Klee e creio que estas doces, profundas, significativas palavras sejam perfeitas para definir a existência de Ludovica Albertoni que viveu em Roma entre 1474 e 1533. Para entender profundamente o tema da sua santidade e dos numerosos testemunhos que nos são propostos sobre ela, podemos dizer que a sua vida terrena reflecte a verdade afirmada por São Paulo: «Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim».

Gian Lorenzo Bernini, «Êxtase da beata Ludovica Albertoni» (1671-1674)

Ludovica conquistou-se a capacidade de entrar em contacto directo com Jesus através de uma intensa experiência religiosa, até alcançar o êxtase: um estado no qual, interrompida a comunicação com o externo, é-se transportados para um “território” reservado e privilegiado. A vida de Ludovica está cheia de coragem e são muitos os resultados positivos que obteve através da obra de assistência a favor dos pobres, dos desamparados e dos doentes. Sobretudo durante o saque de Roma, em 1527 por parte dos lansquenetes.

Ludovica descendia de duas famílias nobres. O pai, Estêvão, patrício romano, morreu quando ela ainda era muito jovem. A mãe, Lucrécia Tebaldi, casou-se de novo e entregou a educação de Ludovica primeiro à avó e depois a duas tias. Ludovica sentia a necessidade de consagrar a sua vida ao Senhor. Mas a sua existência devia percorrer outras estradas, não escolhidas por ela e pelo seu coração.

A família, de facto, ao obedecer a regras e tradições consolidadas, tinha decidido dá-la como esposa ao nobre Tiago della Cetara. Não se pode dizer que Ludovica estivesse feliz com esta decisão, que não era sua. As suas núpcias representaram um obstáculo à intenção de consagrar a própria vida a Jesus, contudo respeitou a vontade da família.

O matrimónio revelou-se feliz. Tiago era uma óptima pessoa, de bom carácter, animado por um profundo respeito da mulher. Tiveram três filhos e Ludovica amou Tiago com devoção até à sua morte prematura, que ocorreu em 1506. Ludovica tinha trinta e dois anos e sem nenhuma intenção de voltar a casar-se.

A sua vocação, durante os últimos anos do matrimónio, em vez de diminuir, tinha-se como que reforçado. Cada vez estava mais convencida da necessidade de seguir a lei e a vontade do Senhor. Tinha entendido bem que o objectivo da vida era o desenvolvimento de nós mesmos. Tinha sido uma esposa feliz e uma boa mãe, agora podia ousar e fazer o que não lhe tinha sido permitido. A sua alma estava esfomeada. Ela sabia que se uma pessoa, homem ou mulher, pudesse viver plenamente a própria aventura terrena com abnegação, fé, espiritualidade, provocaria um tal impulso de alegria que suportaria qualquer aflição terrena.

Viúva, Ludovica vestiu o hábito das terciárias franciscanas e ofereceu o seu património a quem tinha necessidade. Ficou somente com a sua túnica e a família teve que prover, até com alguns lamentos, à sua sobrevivência. Ludovica dedicou-se à oração, à meditação e à penitência. Junto a este trabalho espiritual desempenhou outros, mostrando um grande sentido prático e intervindo a favor de quem tinha necessidade. Recolheu os dotes para as moças pobres que, senão, não se teriam podido casar e curou os doentes que ninguém queria tratar. Teve o dom do êxtase e atribuíram-se-lhe também episódios de levitação e visões. Diz-se que só o pensamento da Paixão de Jesus lhe provocasse longas crises de choro. Quando morreu, em 1533, já era um símbolo de santidade e estava rodeada por uma profunda e autêntica devoção. Em 28 de Janeiro de 1671 Clemente X tornou o seu culto oficial.

Bernini dedicou a Ludovica, três anos depois, um dos seus trabalhos mais intensos e de sua total atribuição. Esculpiu-a imaginando uma sua manifestação de êxtase. Bernini já tinha sessenta anos e este detalhe não deve ser esquecido na leitura da obra. Sente-se, em cada traço da escultura, o amor e o respeito do artista por aquela mulher tão doce e forte com uma vida plena, mulher, mãe, terciária franciscana, a qual – depois de ter transcorrido uma parte da sua vida no luxo e ter cumprido as suas obrigações mundanas – com a mesma naturalidade dedicou-se a quem tinha necessidade dela e da sua fé.

A vida, sabemos-lo, é curta. E por vezes difícil de suportar. Ludovica mostrou-nos um modo para a tornar mais comprida com o seu ensino do admirável equilíbrio entre fé e caridade. Com a certeza que a verdade caminha sempre com pés delicados e comovidos.

Franco Scaglia (Camogli, 1944) é escritor, jornalista e autor de numerosos romances e ensaios traduzidos em vários Países europeus. Entre outros recordamos L'erede del tempo (2014); Il giardino di Dio: Mediterraneo, storie di uomini e pesci (2013), Luce degli occhi miei (2010) e Il custode dell'acqua (2002). Director da Rai (Rádio televisão italiana) durante quarenta anos, venceu muitos prémios entre os quais o Prémio Flaiano para a televisão e o Prémio Campiello.

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18 de Agosto de 2019

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