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Acima da política

· Os católicos face aos temas cruciais do nosso tempo ·

A posição tomada pelo Papa Francisco, desde os primeiros meses do pontificado, em relação a temas principais como o aborto, o matrimónio homossexual e a eutanásia foi firme e coerente com a moral católica, mas atenta a não a ligar a escolhas de partido. Deste modo, procurou arrancar os católicos do abraço interesseiro das várias direitas. Com efeito, sem se desviar dos princípios da moral católica, quis evitar a politização que estas questões assumiram na vida de muitos países democráticos, para não se encontrar prisioneiro daquilo que se is transformando, para todos os efeitos, um nivelamento da Igreja sobre posições estritamente políticas. Foi uma tarefa nada fácil, que lhe custou muitas críticas, mas da qual agora se recolhem os frutos.

A posição da Igreja sobre os dois temas centrais do nosso tempo, os migrantes e a vida, é clara e autónoma da política, a ponto que pode mover-se livremente, sem medo de ser imediatamente esmagada pelo de uma aparente coincidência. Trata-se de um equilíbrio difícil, que deve ser reajustado de tempos em tempos: é mais fácil fechar-se em posições pré-constituídas e aparentemente claras. Uma atitude em parte nova, que não se pode confundir com o relativismo, porque se baseia na profunda consciência de que cada vez é preciso escolher de novo, e que para o fazer é fundamental mover-se num nível mais elevado que o da polémica política.

De resto, a Igreja sabe desde há tempos o que significa distanciar-se daqueles que só exteriormente são companheiros de batalha: Napoleão, que tinha tornado muito mais severa a legislação contra o aborto, certamente não o fizera porque impelido por motivos morais, mas para garantir soldados ao seu exército, fruto do recrutamento obrigatório. E do mesmo modo se tinham comportado os governos europeus depois da primeira guerra mundial, que determinara um massacre de rapazes. Em ambas as situações, a Igreja soube manter a distância das contingências políticas, exatamente graças à elevação moral com que enfrentava o problema.

Mas sobretudo graças ao facto de que a misericórdia e o perdão fazem parte da tradição católica, tanto quanto a condenação do pecado. Precisamente este particular ponto de vista permite à Igreja sair de equações esquemáticas, das quais às vezes se encontrou prisioneira.

Com efeito, quando foi esquecida esta condição específica, que é exatamente a que diferencia a posição católica de qualquer parte política, a Igreja ou grupos de católicos correram o risco de serem usados, manipulados, mal interpretados. Pagando caro a imersão no jogo político, do qual afinal nunca obtiveram nada a longo prazo. Mas há sempre quem procure, tanto de um lado como de outro, atrair a Igreja da sua parte. E é somente elevando o ponto de vista com o qual se interpreta o mundo que nos circunda, voltando ao espírito evangélico sem medo de parecer ingénuo, que se pode encontrar a posição certa e livre a partir da qual olhar para o presente.

Assim age o Papa Francisco, com a dificuldade que implica este livrar-se de mil ciladas e de mil condicionamentos, internos e externos. Os fiéis deveriam ajudá-lo, envidando mais um esforço para entender o que acontece, sem se deixar influenciar pelas vozes que parecem saber qual é o caminho certo, só porque parece o mais fácil.

Lucetta Scaraffia

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24 de Outubro de 2019

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