Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

A visita de Bento XVI fortaleceu a alma lusitana contra uma cultura secularizada

· Entrevista a D. Manuel Monteiro de Castro, secretário da Congregação para os Bispos ·

Poderia resumir em poucas palavras a sua experiência da viagem apostólica a Portugal?

Vi em toda a parte um aumento de participação, desde o início até ao fim. Impressionou-me muito o acolhimento reservado ao Papa pelas crianças no aeroporto de Lisboa. É algo que em geral não acontece nestas cerimónias oficiais. Foi uma agradável surpresa para todos. Como núncio apostólico, já tive a possibilidade de dar as boas-vindas a Bento XVI no aeroporto de Valência, durante a sua viagem à Espanha e fi-lo também com João Paulo II, em alguns países da América Latina, mas as crianças que os acolhiam à chegada, não as encontrei em qualquer outro lugar. Devo dizer que fiquei muito impressionado com a participação popular, ou seja, ver as pessoas em toda a parte, ao longo do itinerário percorrido pelo Sumo Pontífice.

Durante o encontro do Papa com os bispos e com o clero foram reiteradas algumas verdades fundamentais sobre a natureza do sacerdócio. Que impressões teve o senhor?

O Papa mostrou-nos a todos que é importante a vida de união com o Senhor. Relevou a importância de viver dando testemunho. O encontro foi muito rico pelo conteúdo teológico. Abordou a profunda natureza do sacerdócio e da sua essência. Depois, o Papa explicou-nos como, com o nosso ministério, continuamos o sacerdócio de Cristo e como o Senhor se serve das nossas mãos para levar a graça às pessoas. Nós somos instrumentos de Deus para levar aos homens o perdão dos pecados, e por isso temos que dar a prioridade absoluta à vida espiritual. Aquilo que ele disse a todos nós é importante quer para os bispos, quer para os sacerdotes. A mensagem que bento XVI nos transmitiu é esta: permanecer em comunhão com o Senhor e levar Deus às pessoas, à família e à sociedade. Para nós, portugueses, isto é mais importante do que nunca, porque nos recorda o nosso passado, o facto de termos levado o conhecimento de Deus aos cinco Continentes.

O que representa a mensagem de Fátima e quanto influenciou sobre a religiosidade  popular?

Muitas vezes as pessoas pensam que a religiosidade popular é superficial, mas não o é de modo algum. Foi ela que deu vida às nossas missões no mundo inteiro. Um país pequeno como Portugal enviou missionários a muitíssimos países da África, da América do Sul e da Ásia. E a semente lançada pelos missionários portugueses fez crescer várias Igrejas. É suficiente pensar no Brasil, que é o país com o maior número de católicos do mundo. Assim, outros territórios que viram nos séculos passados a presença dos navegadores portugueses permaneceram ligados a Portugual. É o caso de Timor Oriental, que escolheu o português como língua nacional.

E no que diz respeito à sociedade portuguesa?

As aparições de Fátima representam para Portugal uma mensagem de esperança e um convite para continuar a fazer aquilo que realizou no passado. É interessante observar o contexto histórico em que ocorreram as aparições, em 1917, aos três pastorinhos. A República, proclamada em 5 de Outubro de 1910, com ideais antimonárquicos e antirreligiosos, fomentou uma forte perseguição contra a Igreja. Foram confiscados os bens da Igreja. Obrigaram-se os bispos a abandonar as suas dioceses, e os párocos, as suas paróquias. Além disso, deviam viver numa província diversa daquela onde tinham desempenhado a sua missão. Foram suprimidos os dias santos. Os clérigos não podiam vestir o hábito talar. Dissolveram-se todas as congregações religiosas, confiscaram-se os seminários e foi fechada a famosa faculdade de teologia da Universidade de Coimbra. Decretou-se o divórcio. O presidente da República Afonso Costa, no discurso pronunciado na cidade de Braga, no mês de Novembro de 1911, disse que a religião teria terminado em Portugal no arco de duas gerações. Tratava-se da atitude do grupo que se tinha apropriado do poder, e não dos portugueses. Este é um dado histórico.

Outro dado histórico indubitável é que três crianças analfabetas, uma com dez, outra com nove e a terceira com sete anos de idade, afirmaram ter visto Nossa Senhora. E não queriam ouvir razões contrárias. A Virgem disse-lhes que Francisco e Jacinta partiriam depressa para o Céu e que Lúcia, ao contrário, viveria ainda por muito tempo; que Portugal não participaria em qualquer guerra mundial; e que a Rússia se converteria. Nossa Senhora anunciou também as dificuldades que a Igreja deveria enfrentar.

Tudo o que as três crianças narraram veio a realizar-se sucessivamente. Crianças analfabetas, de uma das regiões mais áridas de Portugal, que falavam da Rússia! E agora a Rússia proclama-se cristã ortodoxa. Não há dúvida que a Virgem Maria, com a sua intervenção, mudou o curso da vida delas, da vida dos seus pais, de muitas pessoas de Portugal e do mundo inteiro. Nossa Senhora interveio em Caná da Galileia e continua a intervir nos nossos dias e na nossa vida.

O que esperavam os portugueses da visita do Papa?

A visita apostólica foi providencial, porque neste momento existe um pouco de confusão. O Papa transmitiu uma mensagem aos católicos e a quantos não o são. Relevou a importância do testemunho para os fiéis. Para ser tal, o católico deve dar testemunho da sua fé. Em 1179, com a bula Manifesti probatum, o Papa Alexandre III reconheceu Dom Afonso Henriques rei de Portugal. A partir de então, é a Imaculada Conceição a padroeira do país. A nação nasceu à sombra da Igreja. Em Portugal falta esta presença cristã na vida intectual e política. Daquilo que ouvi, o mundo da cultura apreciou muito o discurso do Sumo Pontífice, quando falou sobre a absolutização do presente. A absolutização do presente leva ao relativismo. Temos necessidade de não esquecer o passado e de pensar no futuro. O Papa convidou a não nos fecharmos em nós mesmos, mas a fazermo-nos dom para a sociedade, a abrirmo-nos e a comunicarmos aos demais o que possuímos. Depois, o Papa falou da importância do diálogo com as outras religiões. A este propósito, frisou que do diálogo podemos aprender algo também de religiões diferentes, no sentido que a humanidade é sempre fonte de enriquecimento. E isto é muito bonito! Sem dúvida, o Sumo Pontífice salientou a nossa fé, os nossos valores, os nossos dons que temos de oferecer aos outros para melhorar o mundo, mas permaneçamos à escuta de todos, dos quais podemos também aprender.

As palavras de Bento XVI foram muito eficazes. Fizeram reviver e fortalecer a alma lusitana, contra uma cultura secularizada acerca do matrimónio, da família, da vida e da morte.

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

16 de Setembro de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS