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A semente da renovação

· Ao lado dos sacerdotes ·

O futuro da Igreja já é hoje, semeado com o Ano sacerdotal que acabou de terminar. Um ano oportuno e difícil para os católicos. As infidelidades até graves de alguns sacerdotes em diversas áreas do mundo de facto ofuscaram a credibilidade da Igreja aos olhos de muita gente. A ferida exigirá tempo para se curar e nada poderá ser como se nada tivesse acontecido.

Houve quem falou de annus horribilis, mas na realidade foi um ano de graça. A semente plantada da renovação interior dos sacerdotes e de um seu testemunho mais incisivo do Evangelho dará os seus frutos. O tempo da provação revelou-se ocasião para um crescimento de consciência sobre o ministério na Igreja. O sacerdócio ordenado é um bem indispensável para todo o povo de Deus, um bem comum que se pode perder se for vivido como privilégio de casta e não em espírito de serviço.

O espanto e a dor pelos abusos sexuais documentados foram quase insuportáveis devido à percepção da singularidade dos sacerdotes católicos difundida na opinião pública. Homens, mas especiais, chamados a uma tarefa que constrói uma ponte entre a experiência e o mistério, entre as coisas que são e as que serão. E por isso eles mesmos são tão fascinados pelo sagrado que não cedem a qualquer lisonja terrena. Tratava-se de uma visão na origem de expectativas impróprias, mas igualmente exageradas como o recente desencanto. O sacerdote católico na realidade só se compreende na sua profundidade relacionando-o com Jesus de Nazaré, Filho de Deus para os crentes, para todos um homem, para os outros como ninguém jamais foi. A leitura bíblica oferece-nos uma visão verdadeira do sacerdote, não como cada um o concebe, mas como Cristo pensou aqueles aos quais deixou o encargo de celebrar o memorial da sua paixão, morte e ressurreição. «Ícone de Cristo» – como lhes chama o cardeal secretário de Estado – os sacerdotes são imagem de Deus que é amor, da sua misericórdia, do amor crucificado. Irmãos de todas as pessoas humanas, dos homens e das mulheres que devem ser amados e servidos com total dedicação, nenhum apego nem busca do próprio interesse. Um sacerdote assim é garantia de humanidade que se abre a uma busca séria de Deus.

Os debates sobre os sacerdotes, a sua identidade nas mudanças históricas, a obrigação ou a oportunidade do seu celibato, a ligação misteriosa e profunda com a eucaristia – sinal de Deus connosco, penhor de vida futura – e com o confessionário onde em nome e com a autoridade de Cristo os pecados são perdoados, continuarão até ao fim dos tempos. Também sobre Jesus se há-de discutir até ao fim da história, mas não é tanto o debater sobre Cristo que muda a nossa vida, quanto a decisão de o seguir ou de o ignorar. Os sacerdotes, em geral, não têm destino melhor do que aquele que os escolheu. Precisam de uma força extraordinária para serem intermediários visíveis do invisível, daquele que permanece a única ponte entre Deus e o homem, Jesus filho de Maria.

Devido a esta sua proximidade à maravilhosa história da encarnação, morte e ressurreição de Jesus que nós compreendemos com intermitências na sua validade; pela proximidade capaz de ternura e fraternidade universal, opto por estar da parte dos sacerdotes. Opto por estar ao seu lado quando a sua humanidade não é reconhecida, quando a burocracia os usa como operários do espírito, quando são obrigados a uma espiritualidade desencarnada, quando a teologia bíblica do sacerdócio é despojada por teorias conservadoras ou por novismos sem raízes, quando são repreendidos porque partilham as angústias e o choro dos pobres e dos que sofrem, quando gritam contra qualquer injustiça pagando com a vida, quando levantam barreiras a qualquer poder prevaricador em defesa dos humildes e dos débeis. Então estou do lado deles, porque pagam um preço pelo seguimento do Senhor. Estou com os sacerdotes, mas não com quem pratica abusos. De facto em tal caso torna-se carnífice.

Nas mensagens conclusivas transmitidas pelo concílio à humanidade, desejadas por Paulo VI lê-se: «Parece que ouvimos levantar-se de todas as partes do mundo um barulho imenso e confuso: a interrogação de todos os que olham para o concílio e nos perguntam com ansiedade: não tendes uma palavra para nos dizer?». Pois bem, o nível da pergunta elevou-se e agora exige-se dos cristãos um testemunho credível de Jesus de Nazaré. Os sacerdotes são os animadores deste testemunho para conseguir esperar.

Bento XVI compreendeu-o e vai nesta direcção: levar a Igreja por uma linha consciente do testemunho cristão. Ele oferece o vinho novo do seu magistério. Compete a cada um superar a tentação de fechar este vinho novo em barris velhos.

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16 de Setembro de 2019

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