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A resposta de Fátima aos sofrimentos da Igreja

· Conferência de imprensa durante o voo para Portugal ·

Publicamos a transcrição integral da conferência de imprensa durante a viagem para Portugal, na manhã de terça-feira 11 de Maio. As perguntas foram feitas ao Papa, em nome dos jornalistas, pelo jesuíta Federico Lombardi, director da Sala de Imprensa da Santa Sé.

Santidade, quais preocupações e sentimentos leva consigo em relação à situação da Igreja em Portugal? O que se pode dizer a Portugal, profundamente católico no passado e que levou a fé pelo mundo, mas que hoje está em vias de uma profunda secularização, tanto na vida quotidiana, como no âmbito jurídico e cultural? Como anunciar a fé num contexto indiferente e hostil à Igreja?

Antes de tudo, bom dia a todos e esperemos uma boa viagem, apesar da famosa nuvem sob a qual estamos passando. Quanto a Portugal, experimento, sobretudo, sentimentos de alegria, de gratidão, por tudo quanto fez e faz este país no mundo e na história, e pela profunda humanidade deste povo, que pude conhecer numa visita e com tantos amigos portugueses. Diria que é verdade, muito verdadeiro, que Portugal foi uma grande força da fé católica; levou esta fé a todas as partes do mundo; uma fé corajosa, inteligente e criativa. Soube criar uma grande cultura, vemo-lo no Brasil, no próprio Portugal, assim como na presença do espírito português na África ou na Ásia. Por outro lado, a presença do secularismo não é uma coisa totalmente nova. A dialéctica entre secularismo e fé tem uma longa história em Portugal. Já no século XVI há uma forte presença do Iluminismo, basta pensar no nome Pombal. Assim, vemos que Portugal viveu sempre, nesses séculos, na dialéctica que, naturalmente hoje, se radicalizou e se mostra com todos os sinais do espírito europeu de hoje. E, este parece-me um desafio e uma grande possibilidade. Nesses séculos de dialéctica entre Iluminismo, secularismo e fé, nunca faltaram pessoas que quiseram estabelecer pontes e criar um diálogo, ainda que, infelizmente, a tendência dominante foi a da contraposição e da exclusão de um e de outro. Hoje vemos que justamente esta dialéctica é uma chance; que devemos encontrar uma síntese e um diálogo profundo e de vanguarda. Na situação multicultural na qual estamos todos, vê-se que uma cultura europeia que fosse unicamente racionalista não possuiria a dimensão religiosa transcendente; não seria capaz de entrar em diálogo com as grandes culturas da humanidade, que possuem, todas elas, esta dimensão religiosa transcendente, que é uma dimensão do ser humano. Portanto, pensar que existiria uma razão pura, anti-histórica, só existente em si mesma, e que esta seria «a» razão, é um erro; descobrimos cada vez mais que esta toca somente uma parte do homem, expressa uma certa situação histórica, mas não é a razão como tal. A razão, como tal, está aberta à transcendência e só no encontro entre a realidade transcendente, a fé e a razão que o homem se encontra a si mesmo. Assim, penso que a tarefa e a missão da Europa nesta situação é justamente encontrar este diálogo, integrar a fé e a racionalidade moderna numa única visão antropológica, que completa o ser humano e torna, desse modo, também comunicáveis as culturas humanas. Por isso, diria que a presença do secularismo é algo normal, mas a separação, a contraposição, entre secularismo e cultura da fé é anómala e deve ser superada. O grande desafio deste momento é que ambos se encontrem e, desse modo, achem a sua verdadeira identidade. Como eu disse, esta é uma missão da Europa e uma necessidade humana nesta nossa história.

Continuemos então no tema da Europa. A crise económica agravou-se recentemente na Europa e afecta particularmente também Portugal. Alguns líderes europeus pensam que o futuro da União Europeia esteja em risco. Quais as lições que se podem aprender desta crise, também no campo ético e moral? Quais são as chaves para consolidar a unidade e a cooperação dos países europeus no futuro?

Diria que justamente esta crise económica, com a sua componente moral, que ninguém pode deixar de ver, seja um caso de aplicação, de concretização, daquilo que tinha dito antes, ou seja, que duas correntes culturais separadas devem encontrar-se; caso contrário, não encontraremos a estrada para o futuro. Vemos aqui também um falso dualismo, ou seja, um positivismo económico que julga poder funcionar sem 0 componente ético; um mercado que seria regulado só por si mesmo, pelas meras forças económicas, pela racionalidade positivista e pragmatista da economia. A ética seria uma coisa diferente, estranha a tudo isto. Na realidade, agora vemos que o puro pragmatismo económico, que prescinde da realidade do homem – que é um ser ético – não termina positivamente, mas cria problemas insolúveis. Por isso, agora é o momento de ver que a ética não é uma coisa externa, mas interna à racionalidade e ao pragmatismo económico. Por outro lado, devemos também confessar que a fé católica, cristã, frequentemente era muito individualista; deixava as coisas concretas, económicas, ao mundo, e pensava apenas na salvação individual, aos actos religiosos, sem ver que estes implicam uma responsabilidade global, uma responsabilidade pelo mundo. Assim sendo, também aqui devemos entrar num diálogo concreto. Na minha encíclica Caritas in veritate – e toda a tradição da Doutrina social da Igreja vai por este lado – procurei ampliar o aspecto ético da fé para além do indivíduo, para a responsabilidade frente ao mundo, para uma racionalidade «performada» pela ética. Por outro lado, os últimos acontecimentos no mercado, nestes últimos dois ou três anos, mostraram que a dimensão ética é interna e deve entrar no interior do agir económico, porque o homem é uno; e trata-se do homem, de uma antropologia sã, que implica tudo e, só assim, se resolve o problema; só assim a Europa desenvolve e cumpre a sua missão.

Passemos agora a Fátima, onde será, em certo ponto, o ápice – também espiritual – desta viagem. Santidade, qual o significado que as aparições de Fátima têm para nós hoje? Quando Vossa Santidade apresentou o texto do terceiro segredo de Fátima na Sala de Imprensa do Vaticano, em Junho do ano 2000, estávamos muitos de nós e outros colegas de então, e foi-lhe perguntado se a mensagem podia estender-se, para além do atentado a João Paulo II, também para outros sofrimentos dos Papas. Segundo Vossa Santidade, é possível enquadrar igualmente naquela visão o sofrimento da Igreja de hoje, pelos pecados de abusos sexuais contra menores?

Antes de tudo, gostaria de expressar a minha alegria de ir a Fátima, de rezar diante de Nossa Senhora de Fátima, que para nós é um sinal da presença da fé; que justamente dos pequenos nasce uma nova força da fé, que não se reduz aos pequenos, mas que tem uma mensagem para todo o mundo e toca a história precisamente no seu presente e ilumina esta história. No ano 2000, na apresentação, disse que uma aparição, ou seja, um impulso sobrenatural, não vem somente da imaginação da pessoa, mas na realidade da Virgem Maria, do sobrenatural; que um impulso deste tipo entra num sujeito e se expressa segundo as possibilidades do sujeito. O sujeito é determinado pelas suas condições históricas, pessoais, temperamentais e, portanto, traduz o grande impulso sobrenatural segundo as suas possibilidades de ver, de imaginar, de expressar; mas nestas expressões, articuladas pelo sujeito, esconde-se um conteúdo que vai além, mais profundo, e apenas no curso da história podemos ver toda a sua profundidade, que estava – digamos – «vestida» nesta visão possível à pessoa concreta. Deste modo, diria também aqui que, além desta grande visão do sofrimento do Papa, que podemos referir ao Papa João Paulo II em primeira instância, indicam-se realidades do futuro da Igreja que se desenvolvem e se mostram paulatinamente. Por isso, é verdade que além do momento indicado na visão, fala-se, vê-se, a necessidade de uma paixão da Igreja, que naturalmente se reflecte na pessoa do Papa; mas o Papa está para a Igreja e, assim, são sofrimentos da Igreja que se anunciam. O Senhor nos disse que a Igreja seria sempre sofredora, de diversos modos, até o fim do mundo. O importante é que a mensagem, a resposta de Fátima, não vá substancialmente na direcção de devoções particulares, mas precisamente na resposta fundamental, ou seja, a conversão permanente, a penitencia, a oração, e as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Deste modo, vemos que a resposta verdadeira e fundamental que a Igreja deve dar, que nós, cada pessoa, devemos dar nesta situação. A novidade que podemos descobrir hoje, nesta mensagem, reside também no facto que os ataques ao Papa e à Igreja vêm não só de fora, mas que os sofrimentos da Igreja vêm justamente do interior da Igreja, do pecado que existe na Igreja. Também isso sempre foi sabido, mas hoje vemo-lo de um modo realmente terrificante: que a maior perseguição da Igreja não vem de inimigos externos, mas nasce do pecado na Igreja, e que a Igreja, portanto, tem uma profunda necessidade de reaprender a penitência, de aceitar a purificação, de aprender por um lado o perdão, mas também a necessidade de justiça. O perdão não substitui a justiça. Em uma palavra, devemos reaprender precisamente estas coisas essenciais: a conversão, a oração, a penitência e as virtudes teologais. Assim respondemos que somos realistas ao esperar que o mal ataque sempre; ataque do interior e do exterior, mas que também as forças do bem estão presentes e que, no final, o Senhor é mais forte do que o mal, e Nossa Senhora é para nós a garantia visível, materna, da bondade de Deus, que é sempre a última palavra na história.

Discursos do Santo Padre Bento XVI

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13 de Novembro de 2019

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