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A pergunta que gostaria de fazer aos magos

· A caminho com os três astrónomos sábios ·

Assinar significa tornar firme e estável um acto. A Epifania oferece-nos uma ocasião maravilhosa para reflectir sobre a «assinatura» que Deus gravou na criação, conforme a expressão usada por Bento XVI na homilia da solenidade de 6 de Janeiro de 2011. Deus torna firme, ampara o cosmos no seu ser. Mas assinar quer dizer também assumir uma obrigação. Deste modo Deus honra o seu compromisso até oferecer o seu Filho unigénito.

Habituados a perscrutar o céu – e por conseguinte a decifrar os traços daquela assinatura – os magos põem-se a caminho. Arriscam muito para descobrir o autor-menino da assinatura que eles vêem impressa não só no cometa mas também nos seus corações. Hoje indo à procura de autógrafos de celebridades ou pagando muito caro  roupas de «marca», esquecemo-nos que a marca mais preciosa está inscrita no céu estrelado e no profundo do nosso coração.

A Igreja continua ainda a caminhar com os magos do nosso tempo. Como astrónomos do Vaticano, a nossa missão consiste em caminhar com os sábios de todas as épocas. Com os nossos colegas astrónomos participamos no trabalho da investigação,  no entusiasmo e na alegria da descoberta científica.

Este modo rigoroso de proceder não exclui a possibilidade de ir além dos horizontes da ciência; aliás, incentiva-a. Portanto, o astrónomo que estuda as estrelas poderia legitimamente questionar-se sobre a razão da existência do universo, com os seus biliões de galáxias, e não do nada. É exactamente este tipo de interrogação que impele os magos a empreender o caminho certo.

O problema da origem última do cosmos e do homem é uma questão iniludível. Será que existe um sentido, uma finalidade no universo?  Será que vivemos num universo hostil ou friendly à vida e ao homem? A ciência enfrenta questões que não pode resolver sozinha, porque ultrapassam a sua capacidade interpretativa do mundo. Estas perguntas abertas constituem um óptimo ponto de partida para um anúncio de fé e uma catequese renovada da criação.

A experiência actual da precariedade e da fragilidade das jovens gerações – mas também das menos jovens  –   pode ser o ponto de partida para compreender e aprofundar a nossa criaturalidade. Face a um futuro incerto, à falta de motivações, à sensação de desorientação, Deus dá significado e esperança: o mundo, a história, a humanidade são fundamentalmente bons.  A criação é dom, é vida. E Deus é a fonte da vida enraizada nos nossos corações. Eis a «marca» do Criador.

No anúncio da fé existem duas dimensões que vale a pena realçar. Há um aspecto profético, querigmático, que conforta e encoraja nos momentos de crise e convida à conversão, quando se desvia do caminho certo.  E existe um aspecto sapiencial, que descobre o significado da realidade fazendo uma síntese entre fé e razão. A Igreja oferece a sua sabedoria plurissecular como «um pai de família que tira coisas novas e velhas do seu tesouro». Uma nova leitura dos livros sapienciais da Bíblia pode servir para dar  significado à insensatez de numerosos aspectos da cultura hodierna e elaborar uma síntese entre saber religioso e saber científico.

Num ambiente cultural no qual é difícil compreender o significado da própria existência e observar com um olhar crítico a realidade quotidiana, pedem-nos  que caminhemos com as pessoas do nosso tempo que se afastam de «Jerusalém» porque não entendem o significado da história e das suas histórias. Ao lado do Senhor, é necessário caminhar com paciência ouvindo as suas desilusões e frustrações. Porque só depois de as ter ouvido, é possível revelar o sentido das Escrituras.

Os magos deixaram as suas terras, as suas seguranças, para seguir a luz da estrela que brilhava no firmamento, mas sobretudo nos seus corações.  Se tivesse a possibilidade de dirigir uma pergunta a estes astrónomos sábios, perguntar-lhes-ia: «Que palavras são essas que trocais entre vós, enquanto andais?» ( Lc 24, 17).

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17 de Outubro de 2019

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