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A missão não é busca de novas técnicas mas serviço ao Evangelho de Cristo

· Discurso aos bispos dos regionais Norte 1 e Noroeste da cnbb em visita «ad limina» ·

A missão «não pode ser limitada a uma simples busca de novas técnicas e formas que tornem a Igreja mais atraente e capaz de vencer a concorrência com outros grupos religiosos», disse o Papa aos bispos dos regionais Norte 1 e Noroeste da cnbb, recebidos na manhã de segunda-feira, 4 de Outubro, por ocasião da visita ad limina Apostolorum.

Caros Irmãos no Episcopado!

É com muita satisfação que vos dou as boas-vindas, Pastores dos Regionais Norte 1 e Noroeste da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, por ocasião da vossa visita ad limina Apostolorum . Agradeço a Dom Moacyr Grechi as suas amáveis palavras e os sentimentos expressos em vosso nome, ao mesmo tempo que asseguro que vos tenho presentes diariamente nas minhas orações, pedindo ao Céu que sustente e torne fecundos os esforços que fazeis — muitas vezes carecendo de meios adequados — para levar a Boa Nova de Jesus a todos os cantos da floresta amazônica, conscientes de que «Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» ( 1 Tm 2, 4).

Deus pode realizar esta salvação por vias extraordinárias que somente Ele conhece. Entretanto, se o seu Filho veio, foi precisamente para nos revelar, pela sua palavra e pela sua vida, os caminhos ordinários da salvação; e Ele mandou-nos transmitir aos outros essa revelação, com a sua própria autoridade. Sendo assim, não podemos furtar-nos a este pensamento: os homens poderão salvar-se por outras vias, graças à misericórdia de Deus, se não lhes anunciar o Evangelho; mas poderei eu salvar-me se por negligência, medo, vergonha ou por seguir ideias falsas, deixar de o anunciar?

Por vezes deparamos com esta objeção: impor uma verdade, ainda que seja a verdade do Evangelho, impor uma via, ainda que seja a salvação, não pode ser senão uma violência à liberdade religiosa. Apraz-me transcrever a resposta pertinente e elucidativa que lhe deu o Papa Paulo VI: «É claro que seria certamente um erro impor qualquer coisa à consciência dos nossos irmãos. Mas propor a essa consciência a verdade evangélica e a salvação em Jesus Cristo, com absoluta clareza e com todo o respeito pelas opções livres que essa consciência fará — e isso, sem pressões coercitivas, sem persuasões desonestas e sem aliciá-la com estímulos menos retos — longe de ser um atentado à liberdade religiosa, é uma homenagem a essa liberdade, à qual é proporcionado o escolher uma via que mesmo os não-crentes reputam nobre e exaltante. (…) Esta maneira respeitosa de propor Cristo e o seu Reino, mais do que um direito, é um dever do evangelizador. E é também um direito dos homens seus irmãos receber dele o anúncio da Boa Nova da salvação» (Exort. ap. Evangelii nuntiandi , 80).

«Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!» ( 1 Cor 9, 16) exclamava o Apóstolo das gentes. O desejo de anunciar o Evangelho nasce de um coração enamorado por Jesus, que anela ardentemente que mais pessoas possam receber o convite e participar no banquete das Bodas do Filho de Deus (cf. Mt 22, 8-10). De fato, a missão é o desbordar da chama de amor que se inflama no coração do ser humano que, ao abrir-se à verdade do Evangelho e deixar-se transformar por ela, passa a viver a sua vida — como dizia São Paulo — «na fé do Filho de Deus que me amou e se entregou por mim» ( Gl 2, 20). Consequentemente, o chamado à missão não é algo destinado exclusivamente a um restrito grupo de membros da Igreja, mas um imperativo dirigido a cada batizado, um elemento essencial da sua vocação. Como afirmou o Concílio Vaticano II: a «vocação cristã é, por sua própria natureza, vocação ao apostolado» (Decr. Apostolicam actuositatem, 2). Neste sentido, um dos compromissos centrais da v Conferência do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, que tive a alegria de iniciar em Aparecida, em 2007, foi o de despertar nos cristãos a consciência de discípulos e missionários, resgatando a dimensão missionária da Igreja ao convocar uma «Missão continental».

Ao pensar nos desafios que esta proposta de renovação missionária supõe para vós, Prelados brasileiros, vem-me à mente a figura do Beato José de Anchieta. Com efeito, a sua incansável e generosíssima atividade apostólica, não isenta de graves perigos, que fez com que a Palavra de Deus se propagasse tanto entre os índios quanto entre os portugueses — razão pela qual desde o momento de sua morte recebeu o epíteto de Apóstolo do Brasil — pode servir de modelo para ajudar as vossas Igrejas particulares a encontrar os caminhos para empreender a formação dos discípulos missionários no espírito da Conferência de Aparecida (cf. Documento de Aparecida , n. 275).

Contudo, os desafios do contexto atual poderiam conduzir a uma visão reducionista do conceito de missão. Esta não pode ser limitada a uma simples busca de novas técnicas e formas que tornem a Igreja mais atrativa e capaz de vencer a concorrência com outros grupos religiosos ou com ideologias relativistas. A Igreja não trabalha para si: está ao serviço de Jesus Cristo; existe para fazer que a Boa Nova seja acessível para todas as pessoas. A Igreja é católica justamente porque convida todo o ser humano a experimentar a nova existência em Cristo. A missão, portanto, nada mais é que a consequência natural da própria essência da Igreja, um serviço do ministério da união que Cristo quis operar no seu corpo crucificado.

Isso deve levar a refletir que o esmorecimento do espírito missionário talvez não se deva tanto a limitações e carências nas formas externas da ação missionária tradicional, quanto ao esquecimento de que a missão deve alimentar-se de um núcleo mais profundo. Esse núcleo é a Eucaristia. Esta, como presença do amor humano-divino de Jesus Cristo, supõe continuamente o passo de Jesus aos homens que serão seus membros, que serão eles mesmos Eucaristia. Em suma, para que a Missão continental seja realmente eficaz, esta deve partir da Eucaristia e conduzir para a Eucaristia.

Amados irmãos, ao retornardes às vossas dioceses e prelazias, peço-vos que transmitais aos vossos sacerdotes, religiosos, religiosas, seminaristas, catequistas e fiéis, a saudação afetuosa do Papa, que em todos pensa e por todos ora com grande afeto e firme esperança. À intercessão do Beato José de Anchieta, que encontrava no Sacrário o segredo da sua eficácia apostólica, confio as vossas pessoas, as vossas intenções e propósitos pastorais, para que o nome de Cristo esteja sempre presente no coração e nos lábios de cada brasileiro. Com estes sentimentos vos acompanham a minha prece e a minha Bênção Apostólica.

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16 de Setembro de 2019

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