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A «Madonna di Foligno» encontrará a «Madonna Sistina»

· Por ocasião da visita do Papa à Alemanha estarão reunidas em Dresden duas obras de arte de Raffaello ·

Foi apresentada no dia 14 de Junho nos Museus do Vaticano a exposição «Splendore celeste. Raffaello, Dürer e Grünewald dipingono la Madonna», que estará na Staatliche Kunstsammlungen de Dresden de 6 de Setembro de 2011 a 8 de Janeiro de 2012, por ocasião da prevista visita apostólica à Alemanha do Papa Bento XVI . Pela primeira vez duas das mais célebres obras de Raffaello dedicadas a Nossa Senhora serão expostas juntas. Foram também apresentados os restauros já terminados da Sala de Heliodoro. Sobre o assunto publicamos quase inteiramente o artigo do delegado científico das repartições e laboratórios dos Museus vaticanos.

Aqueles dois anjinhos com um ar de malandros são talvez os anjos mais famosos no mundo. Raffaello, o grande artista de Júlio ii e Leão x, no início do século XVI fê-los graciosamente repousar aos pés da imponente visão de Nossa Senhora com o Papa Sisto ii e Santa Catarina. O nome do quadro, Madonna Sistina, e a presença dos mencionados anjinhos impressos em numerosos cartões, t-shirts e recordações, levaram tantíssimos turistas a procurar aquele quadro no Vaticano ou até na Capela Sistina.

Quando o Papa Bento XVI for no próximo mês de Setembro em visita oficial à sua pátria, não irá a Dresden, onde a Madonna Sistina estará exposta na Gemäldegalerie. Mas fará uma grande prenda a todos os seus concidadãos, aos interessados e peritos de arte de todo o mundo, e a todo o vasto público: levará consigo a Madonna di Foligno — normalmente exposta na Pinacoteca vaticana e considerada uma espécie de irmã vaticana da Madonna Sistina — e colocar-la-á pela primeira vez ao lado da sua homóloga de Dresden. As duas «irmãs» provavelmente viram-se pela última vez na oficina de Raffaello ao longo do breve momento da sua, mais ou menos simultânea, criação. Com este seu gesto o Papa torna-se de novo portador de um importante evento cultural de relevo internacional, como já aconteceu no ano passado quando, por ocasião da sua visita a Londres, tornou possível um confronto directo entre as tapeçarias de Raffaello e os respectivos cartões.

Estas duas maiores representações da Nossa Senhora de Raffaello terão ao seu lado e em seu redor em Dresden um coro de outras Nossas Senhoras alemãs da mesma época, concebidas na vigília da reforma luterana. Entre elas sobressaem as de Albrecht Dürer, Mathias Grünewald e Lukas Cranach o Velho; todas elas darão testemunho, na variedade dos seus diferentes estilos, de uma extraordinária unidade na fé.

A Madonna di Foligno resulta ser o mais antigo dos dois quadros. Sigismondo de' Conti, humanista e secretário pessoal do Papa, tinha-a encomendado antes de falecer a 23 de Fevereiro de 1512. Se Raffaello o tivesse iniciado já em 1511 ou se já o tivesse terminado antes da morte do doador, não o sabemos, mas isto não incide significativamente sobre a data da obra. A Maddonna di Foligno é o primeiro grande retábulo que Raffaello concebeu em Roma. Para o jovem pintor, com menos de trinta anos, isto significou obter a celebridade também fora da corte dos Papas, onde contudo já era estimado e admirado. Graças às reacções do povo comum e dos peregrinos que visitavam as igrejas de Roma naquela época, podemos ver que Raffaello e Michelangelo já se tinham tornado o metro com o qual qualquer artista tinha que medir as próprias capacidades. As suas obras já tinham passado os confins dos aposentos Papais e tinham invadido a consciência artística de toda a cidade.

A doação de Sigismondo de' Conti destinava-se ao altar-mor da igreja medieval de Santa Maria «in Aracoeli» no Capitólio. Na parte superior do quadro está Nossa Senhora diante de um grande sol circundada por um grande coro de anjos, precisamente como é descrita, na Legenda Aurea , a visão do imperador Augusto no dia do santo Natal do nascimento de Jesus. A Sibila Tiburtina tinha sugerido ao imperador que aquele menino nos braços de Nossa Senhora era mais importante do que ele e ele devia adorá-lo. Segundo a lenda, o imperador, ao tomar conhecimento desta notícia, mandou erigir «O Altar do Céu» ( Aracoeli ) no Capitólio e renunciou a ser considerado ele mesmo um deus. Nossa Senhora diante do sol e com o Menino no colo apresenta portanto o primeiro anúncio da chegada de Cristo à Roma pagã, ainda antes de qualquer notícia apostólica ou de qualquer missão. Na igreja de Santa Maria «in Aracoeli» este acontecimento ainda hoje é celebrado. As quatro pessoas aos pés de Nossa Senhora participam com o mesmo arrebatamento do imperador da visão de Augusto; são anunciadores directos do natal do Senhor: João Baptista é o precursor e igualmente o companheiro de viagem de Jesus na encarnação e, considerando o seu gesto, arrebata também o espectador na vicissitude representada. São Francisco, cuja ordem religiosa administrava a igreja de Santa Maria «in Aracoeli», foi o inventor do presépio e construiu o primeiro em Greccio. São Jerónimo, considerado o primeiro secretário do Papa, tinha vivido por muito tempo em Belém, onde também morreu. Na Idade Média os seus despojos foram transportados para Roma juntamente com as relíquias do berço de Jesus e colocados na basílica de Santa Maria Maior, onde ainda hoje ambas são objecto de adoração. Sigismondo de' Conti, desempenhando na época o mesmo cargo do santo, é por ele apresentado a Nossa Senhora e ao seu filho. O secretário de Júlio ii, na época com quase oitenta anos, tinha decidido que a igreja no Capitólio fosse a casa para os seus despojos. Se Raffaello pintou o retrato do doador quando ele ainda estava em vida ou se se inspirou numa máscara funerária não o sabemos; contudo isto não altera o significado do quadro porque o pintor provavelmente sempre tinha considerado representar o doador na mesma grandeza dos santos. Esta intenção do Urbinate reforçada pelo gesto de João Baptista que convida também o espectador a entrar no mesmo círculo como se fosse um deles.

O que acontece no fundo: a paisagem com casas — talvez se trate de uma pequena cidade, circundada por prados onde as ovelhas pastoream — suscitou sempre debates. Todavia não se captam indicações para uma identificação da localidade nem há fontes conhecidas que permitam estabelecer uma relação com o doador do quadro. Só à direita uma luz caudata cor-de-laranja desce sobre uma casa: várias vezes foi hipotizado que o artista aludisse a um cometa. Se isto for verdade, a pequena paisagem poderia indicar a cidade de Belém, onde se realizou o feliz acontecimento anunciado.

O cupido no centro, em primeiro plano, segura uma tábua arqueada sem inscrições, que já aparece na arte sepulcral nos sarcófagos paleocristãos e nos monumentos fúnebres do século XV, sobretudo no túmulo de Sisto iv. Como é frequente, neste caso, a tábua permanece completamente vazia porque faz alusão à alma e portanto à vida eterna.

Dado que o idoso Sigismondo tinha escolhido o seu derradeiro repouso na abside de Santa Maria «i n Aracoeli » o retábulo torna-se o seu epitáfio. Ao contrário, o jovem Raffaello aceita o desafio de pintar um grande quadro que será colocado sob o enorme afresco na bacia absidal, onde um dos mais importantes pintores da Roma medieval, Pietro Cavallini, tinha contado a história da visão do imperador Augusto seguindo um pouco mais literalmente a lenda. Infelizmente esta pintura foi completamente destruída em 1565 e não está documentada por nenhuma cópia. Deve-se imaginar provavelmente uma pintura intensa como a do Juízo Final de Cavallini na igreja de Santa Cecília em Trastevere. Com que antigo e influente mestre teria podido medir-se Raffaello a não ser com Cavallini, que foi aluno do grande Giotto mas também artista independente e fundador de uma escola romana? Poderia ter sido precisamente a vivacidade, mas ao mesmo tempo a grande compreensão que o Urbinate mostrava para com a decoração medieval da igreja radicada na tradição paleocristã, juntamente com a sua capacidade de transposição iconográfica da mensagem religiosa e à vivacidade do anjinho em primeiro plano, que fez de Raffaello um artista conhecido por todos, e por todos reconhecido com este quadro como uma medida de comparação para todo o mundo artístico da Roma de então.

O artista nem sequer tinha feito o quadro completamente sozinho. Dado o elevado número de encomendas, Raffaello tinha de facto organizado uma oficina na qual não formava só aprendizes, mas na qual empregava também mestres com uma experiência própria como por exemplo Lorenzo Lotto. Raffaello harmonizava habilmente as diversas qualidades e especialidades dos colaboradores com base nas diversas exigências dos quadros.

Também na Madonna di Foligno , a já mencionada paisagem inundada de luz com reflexos brilhantes que se vê no centro do quadro não foi pintado pela mão de Raffaello. O mestre tinha confiado isto a um colega e protagonista da escola de Ferrara, Dosso Dossi, o qual estava em Roma naquele momento.

Na exposição em Dresden as pinturas de Dosso Dossi e Benvenuto Garofalo evidenciarão esta escolha de Raffaello. No catálogo serão apresentadas também as averiguações técnicas feitas nos laboratórios dos Museus do Vaticano por Ulderico Santamaria e Fabio Morresi, juntamente com as observações relativas às novas pinturas e aos restauros históricos.

O British Museum emprestará à exposição de Dresden o único desenho preparatório existente para o retábulo.

Quando a igreja de Santa Maria «in Aracoeli» foi amplamente restruturada — sobretudo a ábside e o altar — a sobrinha do doador, a abadessa Anna, levou em 1565 o retábulo para Foligno para o convento dos Santos Anna e Francisco, de onde provém o nome de Madonna di Foligno . Dali, durante as requisições napoleónicas, a obra foi levada em 1797 para Paris, onde a película pictórica sofreu a transposição da madeira para a tela. O restauro espectacular foi executado entre 1800 e 1801 pelo restaurador francês François-Toussaint Hacquin e pelo alemão Mathias Roeser.

Na Madonna Sistina encontram-se algumas ideias da projectação da Madonna de Foligno . Foi encomendada pelo Papa Júlio ii para a igreja de São Sisto em Placência, provavelmente depois do regresso da cidade ao Estado da Igreja. Dado que tinha que ser transportada para tão longe de Roma, Raffaello pintou-a logo em tela. O quadro está estreitamente ligado ao retábulo romano, mas parece mais majestoso. Maria com o Menino sobressai aqui semelhante como visão, desta vez sem conotação local, acompanhada só pelos dois santos principais da Igreja placentina, o Papa Sisto ii e santa Bárbara. A cortina aberta, por detrás da qual estão só nuvens e anjinhos que circundam as pessoas, confere realismo ao momento narrado. Na balaustrada está em primeiro plano a tiara pontifícia; contudo a bolota no ápice remete para o empreendimento do Papa reinante e por conseguinte expressa e reforça a ideia de continuidade entre os Papas. A argúcia de Raffaello acrescentou depois no final os dois célebres anjinhos que convencem o visitador através da sua individualidade. O entusiasmo do Urbinate, constatado com frequência no estudo e na representação das crianças, guiou magistralmente o pincel do artista nestes dois anjinhos como também no anjinho vaticano.

Em 1754 o príncipe eleitor da Saxónia e rei da Polónia, Augusto III, teve a extraordinária possibilidade de comprar um quadro de Raffaello de tal importância e, com a chegada da obra de arte a Dresden, o soberano teria exclamado as legendárias palavras: «Dai lugar ao grande Raffaello», arranjando ele mesmo materialmente espaço para o quadro.

Considerando que os dois quadros estiveram expostos por mais de dois séculos em localidades pouco frequentadas, Foligno e Placência, foi só relativamente tarde que elas começaram a fazer falar de si. No quadro San Luca dipinge la Madonna do círculo dos Carracci, conservado na Academia de Luca em Roma, já se encontra um reflexo da Madonna Sistina ; e Guido Reni, em meados do século XVII, encontra motivos de inspiração na Madonna di Foligno para um retábulo em Pesaro. A grande influência dos dois quadros, e em particular do de Dresden, desenvolve-se apenas a partir do momento no qual as obras são inseridas num contexto de Museu. A Madonna di Foligno torna-se um dos eixos do Musée Napoléon e da nova Pinacoteca Pontifícia quando o Papa Pio VII o adquire para o Vaticano. A partir daquele momento torna-se uma daquelas obras que jamais serão emprestadas. Eis por que a exposição de Dresden, e a prenda do Papa, são únicas como os próprios quadros.

A influência e a fama da Madonna Sistina difundem-se desde o início do século XIX em todos os âmbitos. Foi ela que inspirou a ideia do clássico em Winckelmann, quando ele começou a interessar-se das estátuas antigas. Ela parece a perfeita realização da visão da salvação no final do Faust de Goethe. No século XIX tornou-se o ícone mais impressionante da Mãe de Deus na cultura ocidental. Durante a segunda guerra mundial foi saqueada e levada para a Rússia, mas na Moscovo estalinista foi exposta com uma sacralidade maior do que a que recebeu na Alemanha do Leste no momento da restituição em 1955.

Na próxima exposição «Splendore celeste» em Dresden os dois quadros estarão unidos ideal e materialmente, assim como o estiveram muito provavelmente no atelier de Raffaello em Roma. À maneira de uma ladainha lauretana, os dois quadros serão contrapostos aos que foram pintados sobre o mesmo tema pelos maiores pintores contemporâneos alemães da época de Raffaello: Dürer, com o qual Raffaello trocava obras e partilhava talvez uma ideia mais semelhante do clássico; Mathias Grünewald, o qual na sua Nossa Senhora de Stuppach criou uma contraparte quase expressionista e partilhava com Raffaello a pintura de luz (mesmo se os dois pintores não se conheciam um ao outro); e Lukas Cranach o Velho, que se estava a tornar naqueles anos o pintor de corte do príncipe eleitor da Saxónica, Federico o Sábio, e sucessivamente o harauto iconográfico da teologia e do retrato de Martin Lutero. Na mesma ocasião foi possível contemplar quer os afrescos quer as obras de cavalete de Raffaello. Foi apresentado também o restauro da Messa di Bolsena realizado pelos restauradores Paolo VIolini e Fabio Piacentini.

O assunto da obra é conhecido.

No ano de 1263, um sacerdote boemio que duvidava da transubstanciação ia em peregrinação a Roma. Enquanto celebrava missa em Bolsena o sangue caiu da hóstia sobre o corporal. O objecto foi portanto transferido como relíquia para Orvieto e a partir de então todos os anos é mostrado durante a festa do Corpus Domini. O afresco é iconograficamente o último do ciclo da Sala de Heliodoro que ilustra as intervenções de Deus que corre em ajuda do seu povo e que culmina no apoio ao seu Papa Júlio ii através do Corporal de Orvieto.

O afresco acabado de restaurar é o primeiro que Raffaello executou nesta Sala em 1511. Retratos psicológicos intensos do Papa Júlio ii, dos seus cardeais, prelados e até palafreneiros (no lado direito) são contrapostos às testemunhas do milagre (à esquerda) com o sacerdote e os retratos ideais de mulheres e homens juntamente com as encantadoras crianças. Mesmo se Raffaello já empregou a sua oficina nesta Sala em grande medida, do Mestre Lorenzo Lotto até ao jovem Giulio Romano, a Messa di Bolsena é totalmente autógrafa. As cores, antes de qualquer leveza e da alegria com a qual são realizados os diversos tecidos e os reflexos de luz, indicam o estudo intenso da pintura veneziana por parte de Raffaello. A espontaneidade com que é pintado o veludo dos palafreneiros produziu também o brocado do pluvial do Papa na Madonna Sistina . Cupidos, crianças e anjinhos não são os protagonistas destas pinturas murais ou de cavalete. Contudo, através delas Raffaello conquista o visitador sem que ele se aperceba. Também o Menino Jesus é fruto do mesmo pincel e, talvez, o próprio menino que serviu de modelo para os outros meninos e anjinhos também se possa reconhecer nele. O confronto entre as obras expostas no Vaticano e em Dresden deverá despertar a sensibilidade pelo universo do grande artista assim como a admiração por cada uma das pinceladas, do mais pequeno pormenor até à composição geral. Talvez nunca seja possível compreender até ao fundo o artista universal, mas poder-se-ão contemplar cada vez mais as suas criações com grande alegria e enriquecimento.

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19 de Setembro de 2019

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