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A janela da fé

· Num texto inédito de Joseph Ratzinger ·

Do Vaticano I ao Vaticano II

Foram escolhidas 164 palavras  para representar o pensamento teológico de Joseph Ratzinger, que na edição italiana vão de Abbá (Pai) até Vocação (L'abc de Joseph Ratzinger, Cidade do Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, 2013, 287 páginas, 15 euros). O pequeno livro, editado pela Herder em 2012, foi preparado pelo arcebispo de Freiburg, presidente da Conferência episcopal da Alemanha, Robert Zollitsch, em colaboração com o Institut Papst Benedikt XVI, de Regensburg. Com lemas insólitos e às vezes inesperados como: actualização, Antigo Testamento e cristianismo, Ateísmo: a sua função positiva, Igreja pecadora, Desmistificação da Bíblia, Domingo dia da esperança, Doutrina da reencarnação e vida eterna, Dúvida, Ser como as crianças, Evolução e continuidade na Igreja, Festa, Jogo, Infalibilidade da Igreja, Inri: a inscrição da cruz, Luto, Morrer e deixar-se morrer, Sábado santo: descido na mansão dos mortos, Sentido da vida, Teoria da evolução e fé na criação, Humildade, Unidade e integridade da Sagrada Escritura, Verdade e historicidade. Sobressai neste singular dicionário a escolha de ilustrar as 164 entradas com breves textos tirados das obras de Ratzinger e de Bento XVI. Enfim, o resultado é uma pequena e preciosa antologia que se funda também em textos menos conhecidos, como alguns do jovem Ratzinger, e também num texto até agora inédito. Trata-se de uma homilia sobre a passagem do Vaticano I ao Vaticano II pronunciada pelo cardeal a 13 de Julho de 1997 em Marktl am Inn, seu país natal, que antecipamos nesta página.

O concílio Vaticano I teve lugar precisamente no momento em que, no final da guerra franco-alemã, surgiram dois novos grandes Estados nacionais: a Alemanha e a Itália. Contemporaneamente o Estado da Igreja, o poder temporal do papado, desapareceu de modo definitivo da carta geográfica e da nossa história. Naquele instante o Vaticano I evidenciou o aspecto puramente espiritual, , do papado livre de qualquer impedimento temporal, descrevendo-o novamente  a partir do seguimento de Cristo  sem poder terreno inclusive na sucessão, assim como também Pedro, o pescador, o tinha seguido, sem qualquer poder, até à crucificação em Roma.

Portanto, de tudo isto podemos sentir um pouco de alívio e de pesar em relação ao passado: alívio pelo facto de que faltou muito do que nos  agradava; mas também sofrimento pelo que teríamos desejado conservar. Contudo, é importante que no momento em que o princípio da nação celebrou o próprio triunfo, quando a nação era até venerada, o Concílio contrapôs-lhe o princípio da unidade. A nação é um valor, não o queremos contestar. Mas se for absolutizada, torna-se perigosa.

Na história dos últimos cento e quarenta anos vimos quanto sangue e quantas lágrimas foram derramados por causa da embriaguez do nacionalismo, não só na Europa, mas no mundo inteiro. E isto porque todos (inclusive nós cristãos, nós católicos) éramos antes de tudo alemães, franceses, italianos, ingleses, e só num segundo momento cristãos e católicos. Esquecemos demasiado o que aprendemos das Escrituras, isto é, que todos nós na nossa diversidade, que deveria ser riqueza do convívio, somos destinados a ser juntos filhos de Deus, irmãos de Jesus Cristo, uma grande família, e que o mundo – como diz a Escritura – não se une com a força de uma nação particularmente significativa que se considera  dominante ou predestinada, mas unifica-se através d'Aquele que pode ligar céu e terra – Jesus Cristo. Assim, inserir o princípio da unidade acima dos confins nacionais, embora infelizmente haja veleidades na nossa  história, é  de grande actualidade e não só de outrora.

Este princípio de unidade é urgente também hoje, porque nos encontramos tão envolvidos por entrelaçamentos e dependências políticas e económicas das quais ninguém se pode libertar. Até porque desejamos retirar-nos na dimensão espiritual, religiosa, no nosso mundo, no nosso envólucro. Então, não é o grupo pelo qual simpatizamos, que com frequência é só um nome de cobertura para os nossos desejos pessoais e para as nossas opiniões,  mas  a consciência que é entendida como última instância. Tudo isso possui um valor próprio, mas que só se colhe  e é verdadeiro e justo,   na medida em que se  enquadra na grande verdade do nosso ser um só a partir de Deus Pai e de Jesus Cristo. Por este motivo, devemos  ainda hoje dar graças pelo facto de que existe o Papa como ponto de referência da unidade, como força visível da unidade; deveríamos reconhecer que a unidade não é só um dom mas apresenta-nos  algumas exigências, e só depois pode enriquecer-nos; deveríamos esforçar-nos por partilhar na grande unidade o que é nosso, de forma que também sejamos capazes de receber dos outros.

Qual é hoje a mensagem do Concílio Vaticano II? Devido à multiplicidade dos seus textos não é fácil extrapolar a mensagem central. Deveríamos recordar que o Concílio Vaticano I foi interrompido por causa da guerra entre os povos, não pôde chegar a uma mensagem conclusiva. Assim o Vaticano II continuou o que então tinha sido interrompido e deu forma à palavra definitiva sobre a Igreja e aquela palavra pronunciada de novo  sobre a Igreja,  é Cristo. A primeira frase do texto sobre a Igreja diz: «A luz dos povos é Cristo» ( Lumen gentium , 1). Portanto, a Igreja existe para transmitir esta luz. Ela não existe por si mesma, mas como uma janela que deixa que a luz de Cristo penetre neste nosso mundo.

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10 de Dezembro de 2019

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