Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

A irmã de Giacomo

· História desconhecida de Paolina Leopardi ·

A história da irmã de Shakespeare – genial e tão talentosa como o irmão mas sem instrução porque era mulher – foi inventada por Virgínia Woolf para narrar a secular exclusão, do universo feminino, da escritura e da criatividade ( Um teto todo seu , 1929). Esta história retorna à mente todas as vezes que se pensa numa irmã (ou filha, mulher, companheira) de um grande escritor.

A vicissitude de Paolina (1800-1869), terceira filha de Monaldo Leopardi e Adelaide Antici, ainda que diferente nas premissas da feliz invenção de Virgínia Woolf, é contudo semelhante na substância. À Paolina, apaixonada pelo estudo e incansável leitora, coube um pai que, por um singular e talvez único impulso de modernidade, quis para a sua única filha a mesma educação dos filhos. A jovem teve «um teto todo seu» e, de facto, teve as muitas salas da biblioteca paterna onde gostava de decorrer grande parte das suas jornadas.

Traduziu do francês, colaborou com diversas revistas, escreveu uma Vida de Mozart , cultivou a escritura epistolar, tudo com um estilo viçoso, desenvolto e de cativante literariedade. Apesar de tudo, Paolina é recordada somente como a irmã de Giacomo.

Admiração recíproca e «um gostar infinito» foram os pressupostos da intensa ligação entre os dois irmãos que partilharam tudo, a partir da infelicidade de viver em Recanati, sonolenta periferia do Estado da Igreja e um prédio que uma mãe autoritária e austera tinha tornado semelhante a uma prisão. Uma mãe que substituiu as carícias com olhares perscrutadores, como escreveu Carlo, um dos seus cinco filhos. Quando Giacomo em 1822 deixou a «nativa aldeia selvagem», para ir para Pilla, assim a chamava ele, escancarou-se o deserto. Sonhava liberdade e independência, ainda que o irmão para a confortar lhe escrevesse «que o mundo não é bonito, senão visto como tu o vês, ou seja de longe».

Giacomo tinha conseguido ir-se embora, Paolina tentou em vão fazer-se levar embora. Dela se conhece um único amor, embora tenham havido diversas tentativas de acordo para as núpcias, todas destinadas a falir. Com o tempo, mais que um marido, resignou-se a procurar um matrimónio, mas o dote escasso, as pretensões dos pais e a pouca beleza foram razões mais fortes que a sua inteligência, a sua refinada cultura e a graça do seu coração. Para alcançar aquele além que lhe era negado, restavam-lhe somente as cartas, amadas cartas mensageiras que não escaparam de um humilhante controle. Paolina foi até obrigada a defender a sua correspondência com duas amigas, não aceites pela mãe, recorrendo à ajuda de um padre, seu antigo preceptor, que se prestou para receber aquelas cartas anunciando a chegada com um vaso de flores à janela.

Só após a morte da mãe se abriram para ela muitos amanhãs. Já tinha cinquenta e sete anos e carregava um fardo muito pesado formado por demasiado passado e muitas dores, mas foi forte o suficiente para viver plenamente o tempo que ainda tinha diante. Embelezou o prédio, enriqueceu a biblioteca com os predilectos romances e as narrações de viagens, vestiu roupas de cores vivas abandonando para sempre o preto que a mãe lhe tinha imposto desde criança e sobretudo viajou, visitando muitos lugares onde tinha vivido o irmão.

Talvez não tenha sido por acaso que Paolina morreu em Pisa, a cidade que Giacomo tinha amado e onde tinha recomeçado a compor versos «com aquele meu coração de outrora». Paolina fechava os olhos depois de ter visto pelo menos um pouco de mundo, também com os olhos de Giacomo.

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

24 de Outubro de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS