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A fé dos demónios

· Entre auto-suficiência e utopia ·

«Marcos não deixa de insistir sobre a fé dos demónios e, paradoxalmente, opõe a ela a incredulidade dos discípulos», escreve Fabrice Hadjadj no seu La foi des  démons ou l'athéisme dépassée, ao qual este ano,  na França, foi conferido o prémio mais importante  para os ensaios católicos. De origem judaica e sobrenome árabe, o filósofo converteu-se ao catolicismo e segue a sua paixão pela fé cristã com uma grande capacidade de reflectir profundamente sobre temas complexos – como a tentação diabólica hoje – entrelaçando experiências pessoais com a exegese das Sagradas Escrituras, com as obras dos Padres da Igreja e,  às vezes, com midrashim e textos rabínicos.

Nalguns momentos narrativos nos Evangelhos, o bem e o mal parecem intercambiar os próprios papéis – escreve –  a ponto que a incredulidade dos discípulos,  por muito dura que seja,  vale mais do que a fé dos demónios, que  ao contrário sabem  reconhecer muito bem o Filho de Deus. Ele chega a dizer que um determinado ateísmo, no fundo, pode ser menos mau do que este tipo de conhecimento de Jesus semelhante à fé demoníaca:  uma espécie de certeza especulativa, um crer  que isto é verdade, mas sem  qualquer abandono à palavra do outro.  Uma fé, afinal,  sem confiança.

Deus pede que o procuremos, e nós não podemos ir até Ele  sem  antes ir em direcção aos outros, mesmo se deste modo  o ateísmo ou a heresia se tornam possíveis. Contudo, essa incredulidade dos seres humanos permanece menos grave do que a fé isenta de dúvidas dos demónios, porque tem a desculpa da ignorância, do peso da nossa razão  e da resistência do nosso coração. E, pelo menos, é um assunto de coração: a fé dos demónios, ao contrário,  vem da lucidez da sua inteligência; não tem   coração.

Como escreve Santo Agostinho,  o diabo é «infinitamente soberbo e invejoso». A inveja, o seu pecado mais grave, significa não respeitar o desígnio generoso de Deus nem confiar nele. Satanás não  afasta  da fé, mas sugere que cada um   se salve a si mesmo, encorajando-o a fabricar o seu pequeno céu particular, e a sua soberba torna-o «manager da auto-suficiência e pai da utopia», isto é, os males da modernidade. Com efeito, querer criar por si só a felicidade, a própria e a dos outros, significa «substituir  a providência pela planificação», ignorar o papel da graça, que recomenda não fazer, mas  deixar que Deus faça  em nós.

O demónio não se abandona, é um self-made man e considera este seu  prender-se ao pecado uma emancipação, enquanto a santidade lhe parece uma forma de orgulho. Se Deus é amor, também o diabo o é, mas  o seu é amor próprio. Portanto, quando se encontra o diabo, não se trata  de ver quem é mais forte, mas de se reconhecer  frágil; não se trata de entender quem é o mais perspicaz, mas de querer ser o mais capaz de amor.

Tornamo-nos  escravos do demónio quando nos consideramos os únicos senhores. Na tentação do Éden, de facto, a mulher não se limita a responder, mas quer retorquir a Satanás, pensa que é capaz de o fazer: quer ser mãe de si mesma, em vez de filha de Deus. Como mulher inteligente  quer defender-se  sozinha. O diabo habilmente orienta a atenção para o conhecimento e não para  a vida,  a proibição e  o dom: Eva deseja a bem-aventurança prometida por Deus, mas pensa que a pode alcançar com as próprias forças.

«A ambição de extirpar  sozinhos  todo o mal do mundo é maléfica.  Depois de ter esquecido o diabo (o melhor modo para o envolver) ela despreza tanto a liberdade humana como a divina, ignora a realidade da concupiscência e da graça, rejeita o trágico da nossa condição». Porque – continua Hadjadj – a essência do pecado demoníaco é «fazer o bem com as próprias forças, planear o bem-estar sem surpresas». Ser um mundo que se satisfaz a si mesmo: nenhuma expressão    revela a tentação, o fascínio do pecado, melhor do que esta. O filósofo cita o exemplo  de Malthus que,  embora sendo um ministro anglicano, tenta  explicar tudo,  possuir as leis da história, antecipando  Marx.

Nenhuma realidade por si só pertence  ao mal – o diabo pode apresentar-se como desumano e como humanista,  professor de  angelismo ou  mestre de estupidez – e cada uma das realidades que lhe são habitualmente atribuídas pode ser  reconduzida à ordem boa. Mas, ao contrário, todas as  coisas, excepto Deus e os santos, podem ser destinadas para o mal. O mal moral é um uso desordenado das coisas.

As virtudes  ainda estão presentes no mundo moderno, mas enlouquecidas – escreve Hadjadj –  por terem sido isoladas umas das outras. Um exemplo são os cristãos descristianizados que recuperam a compaixão para a dirigir contra Cristo: segundo o pensador, eles teriam feito com que Maria abortasse para proteger a sua reputação e a poupar  da dor pela morte do filho...

Como antídoto contra a fé dos demónios, Hadjadj propõe o cântico do Credo. Com efeito, não se trata de recitar uma série de afirmações doutrinais, mas de «pronunciar uma Revelação como uma declaração de amor que dilata o coração».

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20 de Outubro de 2019

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