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A crise pode abrir um tempo novo para reconsiderar a economia

· Discurso do Sumo Pontífice aos membros da União dos industriais de Roma ·

A sobrevivência de uma empresa à crise depende «da sua atenção a todos os sujeitos com os quais instaura relações, da eticidade ao seu projecto e da sua actividade», recordou o Papa no dia 18 de Março aos membros da União dos industriais e das empresas de Roma, recebidos em audiência na Sala Clementina. A seguir à homenagem inicial do Doutor Aurelio Regina, Presidente da União, o Santo Padre dirigiu a todos os este discurso.

Distinto Presidente

Ilustres Senhores e Senhoras

Estou feliz por transmitir as minhas cordiais boas-vindas a cada um de vós, nesta vigília da festa de São José, que é um exemplo para todos aqueles que estão empenhados no mundo do trabalho. Dirijo o meu pensamento deferente ao Doutor Aurelio Regina, Presidente da União dos industriais e das empresas de Roma, agradecendo-lhe as amáveis expressões que me dirigiu. Juntamente com ele, saúdo a Junta e o Conselho directivo da Associação.

A realidade empresarial romana, formada em grande parte por pequenas e médias empresas, é uma das mais importantes associações territoriais, pertencentes à «Confindustria», que hoje trabalha, também ela, num contexto caracterizado pela globalização, pelos efeitos negativos da recente crise financeira, pela chamada «financiarização» da economia e das próprias empresas. Trata-se de uma situação complexa, porque a crise actual submeteu a uma prova dura os sistemas económicos e produtivos dos vários países. Todavia, ela deve ser vivida com confiança, porque pode ser considerada uma oportunidade do ponto de vista da revisão dos modelos de desenvolvimento e de uma nova organização do mundo da finanças, um «tempo novo» – como se disse – de profunda reflexão.

Na Encíclica social Caritas in veritate, observei que procedemos de uma fase de desenvolvimento em que se privilegiou aquilo que é material e técnico, em relação àquilo que é ético e espiritual, e encorajei a pôr no centro da economia e das finanças a pessoa (cf. n. 25), que Cristo revela na sua dignidade mais profunda. Além disso, propondo que a política não seja subordinada aos mecanismos financeiros, solicitei a reforma e a criação de ordenamentos jurídicos e políticos internacionais (cf. n. 67), proporcionados às estruturas globais da economia e das finanças, para alcançar de modo mais eficaz o bem comum da família humana. Seguindo os passos dos meus predecessores, reiterei que o aumento do desemprego, especialmente juvenil, o empobrecimento económico de muitos trabalhadores e o aparecimento de novas formas de escravidão exigem como objectivo prioritário o acesso a um trabalho digno para todos (cf. nn. 32 e 63). Aquilo que orienta a Igreja no seu tornar-se promotora de uma meta semelhante é a convicção de que o trabalho é um bem para o homem, para a família e para a sociedade, além de ser fonte de liberdade e de responsabilidade. Obviamente, na consecução de tais finalidades estão envolvidos, juntamente com outros sujeitos sociais, os empresários que devem ser particularmente encorajados no seu compromisso ao serviço da sociedade e do bem comum.

Ninguém ignora quantos sacrifícios é necessário enfrentar para abrir ou manter no mercado a própria empresa, como «comunidade de pessoas» que produz bens e serviços e que, portanto, não tem como única finalidade o lucro, de resto necessário. Em particular, as pequenas e médias empresas resultam cada vez mais carentes de financiamento, enquanto o crédito parece menos acessível, e a concorrência nos mercados globalizados é muito forte, especialmente da parte daqueles países onde não existem – ou são mínimos – os sistemas de tutela social para os trabalhadores. Isto dá origem a que o elevado custo do trabalho torne os próprios produtos e serviços menos competitivos e sejam exigidos grandes sacrifícios, para não despedir os próprios trabalhadores dependentes e permitir-lhes a actualização profissional.

Em tal contexto, é importante saber superar esta mentalidade individualista e materialista, a qual sugere que se desviem os investimentos da economia real para privilegiar o emprego dos próprios capitais nos mercados financeiros, em vista de rendimentos mais fáceis e mais rápidos. Tomo a liberdade de recordar que, ao contrário, os caminhos mais seguros para contrastar o declínio do sistema empresarial do próprio território consistem em pôr-se em rede com outras realidades sociais, investir na investigação e na inovação, não praticar uma concorrência injusta entre as empresas, não esquecer os próprios deveres sociais e incentivar uma produtividade de qualidade para responder às necessidades reais das pessoas. Existem provas novas de que a vida de uma empresa depende da sua atenção a todos os sujeitos com os quais instaura relações, da eticidade do seu projecto e da sua actividade. A própria crise financeira demonstrou que, dentro de um mercado alterado por falências em cadeia, resistiram aquelas realidades económicas capazes de se adaptar a comportamentos morais e atentas às necessidades do próprio território. O bom êxito do empresariado italiano, especialmente em algumas regiões, foi sempre caracterizado pela importância atribuída à rede de relações que ela soube estabelecer com os trabalhadores e com as demais realidades empresariais, mediante relações de colaboração e de confiança recíproca. A empresa pode ser vital e produzir «riqueza social», se os empresários e os managers forem orientados por um olhar clarividente, que ao lucro especulativo prefere o investimento a longo prazo, e que promove a inovação em vez de pensar em acumular a riqueza somente para si.

O empresário atento ao bem comum é chamado a ver a própria actividade sempre no âmbito de um conjunto plural. Tal delineamento gera, mediante a dedicação pessoal e a fraternidade vivida concretamente nas escolhas económicas e financeiras, um mercado mais competitivo e ao mesmo tempo mais civil, animado pelo espírito de serviço. É claro que uma semelhante lógica empresarial pressupõe determinadas motivações, uma certa visão do homem e da vida; ou seja, um humanismo que nasça da consciência de ser chamado, como indivíduo e como comunidade, a fazer parte da única família de Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança, redimindo-nos em Cristo; um humanismo que reavive a caridade e se faça guiar pela verdade; um humanismo aberto a Deus e, precisamente por isso, aberto ao homem e a uma vida intensa, como tarefa solidária e jubilosa (cf. n. 78). Em qualquer sector da existência humana, o desenvolvimento implica inclusive a abertura ao trascendente, à dimensão espiritual da vida, à confiança em Deus, ao amor, à fraternidade, ao acolhimento, à justiça e à paz (cf. n. 79). Apraz-me ressaltar tudo isto, enquanto nos encontramos na Quaresma, tempo propício para a revisão das nossas profundas atitudes e para nos interrogarmos sobre a coerência entre os fins para os quais tendemos e os meios que utilizamos.

Ilustres Senhores e Senhoras, deixo-vos estas reflexões. E, enquanto vos agradeço a vossa visita, formulo-vos bons votos para a vossa actividade económica, assim como para a associativa, e é de bom grado que vos concedo a minha Bênção, a vós e aos vossos entes queridos.

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22 de Setembro de 2019

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