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A busca da verdade e do bem fundamental para os desafios do país

· Discurso de Bento XVI ao novo embaixador da Bélgica ·

Bento XVI recebeu em solene audiência, na manhã de sábado 24 de Abril, Sua Excelência o Senhor Charles Ghilain, novo embaixador da Bélgica junto da Santa Sé, o qual na ocasião apresentou as Cartas mediante as quais é acreditado no alto cargo. Depois da parte protocolar, o Prefeito da Casa Pontifícia, D. James Michael Harvey, introduziu o embaixador à presença do Santo Padre na Biblioteca particular, onde teve lugar a troca dos discursos. Publicamos a nossa tradução do discurso do Santo Padre.

Senhor Embaixador!

Sinto-me feliz por recebê-lo nesta circunstância da apresentação das Cartas que o acreditam como Embaixador extraordinário e plenipotenciário da Bélgica junto da Santa Sé. Agradeço-lhe as gentis palavras que me dirigiu. Retribuo, agradecendo-lhe a amabilidade de expressar a Sua Majestade Alberto ii, Rei dos Belgas, que tive a ocasião de saudar pessoalmente há pouco tempo, os meus votos cordiais pela sua pessoa assim como pelo bem-estar e prosperidade do povo belga. Através de Vossa Excelência, saúdo igualmente o Governo e todas as autoridades do Reino.

O seu país viveu no início deste ano duas tragédias dolorosas, a de Liège e a de Buizingen. Desejo renovar às famílias enlutadas e às vítimas a certeza da minha proximidade espiritual. Estas catástrofes fazem-nos medir a fragilidade da existência humana e a necessidade, para a proteger, de uma autêntica unidade social que não diminui minimamente a legítima diversidade das opiniões. Ela baseia-se na convicção de que a vida e a dignidade humanas constituem um bem precioso que é preciso defender e promover com resolução baseando-se no direito natural. Há muito tempo, a Igreja inscreve-se plenamente na história e no tecido social da sua Nação. Ela deseja continuar a ser um factor de convivência harmoniosa entre todos. Para esta finalidade, ela contribui muito activamente sobretudo mediante as instituições de educação, as obras de carácter social, e o compromisso benévolo de numerosos fiéis. A Igreja sente-se feliz por estar ao serviço de todos os componentes da sociedade belga.

Contudo, não é inútil ressaltar que ela possui, como instituição, o direito a expressar-se publicamente. Ela partilha-o com todos os indivíduos e instituições para dar o seu parecer sobre as questões de interesse comum. A Igreja respeita a liberdade que todos têm de pensar diversamente; ela também gostaria que fosse respeitado o seu direito de expressão. A Igreja é depositária de um ensinamento, de uma mensagem religiosa que recebeu de Jesus Cristo. Ela pode ser resumida com estas palavras da Sagrada Escritura: «Deus é amor» (1 Jo 4, 16) e projecta a sua luz sobre o sentido da vida pessoal, familiar e social do homem. A Igreja, tendo por objectivo o bem comum, nada pretende a não ser a liberdade de poder propor esta mensagem, sem a impôr a ninguém, no respeito da liberdade das consciências.

Foi alimentando-se deste ensinamento eclesial de modo radical que Joseph de Veuster  se tornou aquele que já chamamos «São Damião». O destino excepcional  deste homem mostra a que ponto o Evangelho suscita uma ética amiga da pessoa, sobretudo se ela se encontra em necessidade ou é rejeitada. A canonização deste sacerdote e a fama de que goza universalmente é um motivo de orgulho legítimo para o povo belga. Esta personalidade atraente não é o fruto de um itinerário solitário. Convém recordar as raízes religiosas que alimentaram a sua educação e formação, assim como os pedagogos que despertaram nele esta admirável generosidade. Ela fará com que ele partilhe a vida marginalizada dos leprosos, até se expor à doença da qual eles sofriam. À luz destes testemunhos, todos podem compreender que o Evangelho é uma força que não deixa lugar para o medo. Estou convicto de que, apesar das evoluções sociológicas, o húmus cristão ainda é rico na vossa terra. Pode alimentar generosamente o compromisso de um número crescente de voluntários que, inspirados pelos princípios evangélicos de fraternidade e solidariedade, acompanham as pessoas que estão em dificuldade e que, por este motivo, precisam de ajuda.

O seu país, que já hospeda a sede das Instituições comunitárias, viu a sua vocação europeia mais uma vez reafirmada através de escolhas de um dos seus compatriotas como primeiro Presidente do Conselho da Europa. À primeira vista, as suas opções sucessivas não estão vinculadas unicamente à posição geográfica do seu país e ao seu plurilinguísmo. Membro do núcleo primitivo dos países fundadores, a sua Nação teve que se comprometer e distinguir na busca de um consentimento em situações muito complexas. Esta qualidade deve ser encorajada no momento de enfrentar, para o bem de todos, os desafios internos do país. Desejo ressaltar hoje que para dar frutos a longo prazo, a arte do consentimento não se limita a uma habilidade meramente dialéctica, mas deve procurar a verdade e o bem. Porque «sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência nem responsabilidade social, e a actividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo numa sociedade em  vias  de globalização  que  atravessa  momentos difíceis como os actuais» (Caritas in veritate , 5).

Aproveitando do nosso encontro, desejo saudar os Bispos da Bélgica que terei o prazer de acolher muito proximamente por ocasião da visita ad limina Apostolorum . O meu pensamento dirige-se em particular a Sua Excelência D. Léonard que, com entusiasmo e generosidade, iniciou há pouco a sua nova missão de Arcebispo de Malinas-Bruxelas. Desejo saudar também os sacerdotes do seu país, os diáconos e todos os fiéis que formam a comunidade católica belga. Convido-os a testemunhar a sua fé com audácia. No seu compromisso na sociedade, que elas façam valer plenamente o seu direito de propor os valores que respeitam a natureza humana e que correspondem às aspirações espirituais mais profundas e  autênticas da pessoa.

No momento em que inicia oficialmente a sua função junto da Santa Sé, formulo os meus melhores votos pelo feliz cumprimento da sua missão. Tenha a certeza de que encontrará sempre junto dos meus colaboradores atenção  e compreensão cordiais. Ao invocar a intercessão da Virgem Maria e de São Damião, peço ao Senhor que derrame generosas bênçãos sobre Vossa Excelência, sobre a sua família e colaboradores, assim como sobre o povo belga e seus dirigentes.

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7 de Dezembro de 2019

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