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A África precisa de servidores da esperança

· Discurso aos membros do Governo, aos representantes das instituições da República, ao corpo diplomático e às autoridades religiosas no palácio presidencial de Cotonou ·

Uma pedagogia do diálogo para derrotar a injustiça, a pobreza e o ódio e promover a cooperação entre religiões e culturas

Um dos momentos centrais da viagem do Papa foi o encontro que teve lugar na manhã de sábado, 19 de Novembro, com os membros do Governo, os representantes das instituições da República, o corpo diplomático e as autoridades religiosas do Benim, realizado no palácio presidencial de Cotonou. No início do encontro tomaram a palavra primeiro o presidente da Nação Thomas Boni Yayi, que lançou um verdadeiro apelo em prol da justiça e contra a pobreza no país, recordando ainda que a visita do Papa «contribuirá para fortalecer o diálogo na África e no mundo» e, em seguida, a grã-chanceler do Benim Koubourath Osseni, que frisou «o papel das confissões religiosas nos momentos de dúvida ou de perigo que se apresentam no horizonte da Nação». Sucessivamente, o Sumo Pontífice dirigiu aos presentes o seguinte discurso.

Excelentíssimo Senhor Presidente da República

Ilustríssimos Representantes das Autoridades civis políticas e religiosas

Digníssimos Chefes de Missões Diplomáticas

Venerados Irmãos no Episcopado

Senhoras e Senhores

Queridos amigos!

DOO NUMI! ( solene saudação, em língua fon ).

O Senhor Presidente quis proporcionar-me a ocasião de o encontrar na presença de uma prestigiosa assembleia de personalidades. É um privilégio que sentidamente aprecio; e, de coração, agradeço-lhe as amáveis palavras que há pouco me dirigiu em nome de todo o povo do Benim. Agradeço também ao ilustre Representante dos Corpos Constituídos as suas palavras de boas-vindas. Formulo votos do maior bem para todas as personalidades presentes, que são protagonistas, a diversos níveis, da vida nacional do Benim.

Frequentemente, nas minhas intervenções anteriores, associei à palavra África o termo esperança. Fi-lo há dois anos, em Luanda, e já num contexto sinodal. Aliás a palavra esperança aparece várias vezes na Exortação apostólica pós-sinodal Africae munus , que em breve assinarei. Quando digo que a África é o continente da esperança, não estou a fazer retórica; exprimo simplesmente uma convicção pessoal, que é também a da Igreja. Com muita frequência, a nossa mente detém-se em preconceitos ou em imagens que dão uma visão negativa da realidade africana, fruto de uma análise pessimista. Há sempre a tentação de pôr em realce o que está mal; pior ainda, é fácil assumir o tom sentencioso do moralista ou do perito, que impõe as suas conclusões e, no fim de contas, poucas soluções adequadas propõe. Existe ainda a tentação de analisar as realidades africanas à maneira de um etnólogo curioso ou como quem vê nelas somente uma enorme reserva energética, mineral, agrícola e humana fácil de explorar para interesses muitas vezes pouco nobres. Trata-se de visões redutivas e irrespeitosas, que levam a uma coisificação pouco dignificadora da África e dos seus habitantes.

Estou ciente de que as palavras não têm o mesmo significado em toda a parte; mas o termo esperança varia pouco de cultura para cultura. Alguns anos atrás, dediquei à esperança cristã uma Carta Encíclica. Falar da esperança significa falar do futuro e, portanto, de Deus. O futuro enraíza-se no passado e no presente. O passado, conhecemo-lo bem, lamentando os seus fracassos e alegrando-nos com as suas realizações positivas. O presente, vivemo-lo como podemos: da melhor forma — espero — e com a ajuda de Deus! É neste terreno, composto por vários elementos ora contraditórios ora complementares, que temos de construir, com a ajuda de Deus.

Queridos amigos, à luz desta esperança que nos deve animar, quero repassar duas realidades africanas, de viva actualidade. A primeira refere-se mais à vida sociopolítica e económica em geral do continente; a segunda, ao diálogo inter-religioso. Estas realidades interessam-nos a todos, porque o nosso século parece nascer no sofrimento e sentir dificuldade em fazer crescer a esperança nestes dois campos particulares.

Nos últimos meses, numerosos povos expressaram o seu desejo de liberdade, a sua necessidade de segurança material e a sua vontade de viver harmoniosamente na diversidade das etnias e das religiões. E nasceu um novo Estado no vosso continente. Numerosos foram também os conflitos provocados pela cegueira do homem, pela sua ânsia de poder e por interesses político-económicos que excluem a dignidade das pessoas ou da natureza. A pessoa humana aspira à liberdade; quer viver dignamente; deseja boas escolas e alimentação para as crianças, hospitais dignos para curar os doentes; quer ser respeitada; reivindica uma governação transparente que não confunda o interesse privado com o interesse geral; e sobretudo quer a paz e a justiça. Neste momento, há demasiados escândalos e injustiças, demasiada corrupção e avidez, demasiado desprezo e demasiadas mentiras, demasiadas violências que levam à miséria e à morte. Se é certo que estes males afligem o vosso continente, sucede igual no resto do mundo. Cada povo quer compreender as decisões políticas e económicas que são tomadas em seu nome; dá-se conta de ser manipulado, e reage, por vezes, violentamente. Deseja participar no bom governo. Sabemos que nenhum regime político humano é o ideal, e que nenhuma decisão económica é neutra; mas sempre devem servir o bem comum. Encontramo-nos perante uma reivindicação legítima — que diz respeito a todos os países — de maior dignidade e sobretudo de maior humanidade. O homem quer que a sua humanidade seja respeitada e promovida. Os responsáveis políticos e económicos dos países encontram-se perante decisões imperativas e opções que já não podem evitar.

A partir desta tribuna, lanço um apelo a todos os responsáveis políticos e económicos dos países africanos e do resto do mundo: Não priveis os vossos povos da esperança! Não amputeis o seu futuro, mutilando o seu presente. Mantende uma perspectiva ética corajosa sobre as vossas responsabilidades e, se fordes pessoas de fé, rogai a Deus que vos conceda a sabedoria. Esta far-vos-á compreender que é necessário, enquanto promotores do futuro dos vossos povos, tornar-vos verdadeiros servidores da esperança. Não é fácil viver a condição de servidor, permanecer íntegro no meio de correntes de opinião e interesses poderosos. O poder, seja ele qual for, cega com facilidade, sobretudo quando estão em jogo interesses privados, familiares, étnicos ou religiosos. Só Deus purifica os corações e as intenções.

A Igreja não oferece qualquer solução técnica, nem impõe qualquer solução política. Mas vai repetindo: Não tenhais medo! A humanidade não está sozinha enfrentando os desafios do mundo; Deus está presente. Trata-se de uma mensagem de esperança, uma esperança geradora de energia, que estimula a inteligência e confere à vontade todo o seu dinamismo. Um Arcebispo de Toulouse, o Cardeal Saliège, dizia: «Esperar não é abandonar mas redobrar a actividade». A Igreja acompanha o Estado na sua missão; quer ser como que a alma deste corpo, apontando incansavelmente o essencial: Deus e o homem. Deseja cumprir, às claras e sem medo, esta imensa tarefa de quem educa e cuida, e sobretudo reza sem cessar (cf. Lc 18, 1), indica onde está Deus (cf. Mt 6, 21) e onde está o verdadeiro homem (cf. Mt 20, 26; Jo 19, 5). O desespero é individualista; a esperança é comunhão. Porventura não nos é proposto aqui um caminho esplêndido? Convido a segui-lo todos os responsáveis políticos, económicos, bem como o mundo universitário e o da cultura. Sede, vós também, semeadores de esperança!

Queria agora abordar o segundo ponto: o diálogo inter-religioso. Não me parece necessário lembrar os recentes conflitos gerados em nome de Deus, nem as mortes causadas em nome d’Aquele que é a Vida. Toda a pessoa de bom senso compreende que é preciso promover uma cooperação serena e respeitosa entre as diversidades culturais e religiosas. O verdadeiro diálogo inter-religioso rejeita a verdade humanamente egocêntrica, porque a única e exclusiva verdade está em Deus. Deus é a Verdade. Portanto, nenhuma religião, nenhuma cultura pode justificar o apelo ou o recurso à intolerância e à violência. A agressividade é uma forma relacional demasiado arcaica, que faz apelo a instintos banais e pouco nobres. Utilizar as palavras reveladas, as Sagradas Escrituras ou o nome de Deus para justificar os nossos interesses, as nossas políticas tão facilmente complacentes ou as nossas violências, é um erro gravíssimo.

Não posso conhecer o outro, se não me conheço a mim mesmo. Não o posso amar, senão me amo a mim mesmo (cf. Mt 22, 39). Por isso, o conhecimento, o aprofundamento e a prática da própria religião são essenciais para um verdadeiro diálogo inter-religioso. Este só pode começar com a oração pessoal e sincera daquele que deseja dialogar. Que ele se retire no segredo do seu quarto interior (cf. Mt 6, 6), pedindo a Deus a purificação do raciocínio e a bênção para o encontro desejado. Esta oração pede a Deus também o dom de ver, no outro, um irmão a amar e, na tradição que ele vive, um reflexo da verdade que ilumina todos os homens (cf. Conc. Ecum. Vat. ii, Decl. Nostra aetate , 2). Convém, portanto, que cada um se coloque, com toda a verdade, diante de Deus e do outro. Esta verdade não exclui, nem é confusão. O diálogo inter-religioso mal-entendido leva à confusão ou ao sincretismo. Este não é o diálogo que se pretende.

Apesar dos esforços realizados, sabemos também que às vezes o diálogo inter-religioso não é fácil, podendo mesmo ver-se impedido por diversas razões. Isto não significa de forma alguma uma derrota. As formas do diálogo inter-religioso são variadas. A cooperação no âmbito social ou cultural pode ajudar as pessoas a compreenderem-se melhor e a viverem juntas tranquilamente. Também é bom saber que não se dialoga por fraqueza, mas porque se acredita em Deus. Dialogar é uma forma suplementar de amar a Deus e ao próximo (cf. Mt 22, 37), sem abdicar daquilo que somos.

Ter esperança não significa ser ingénuo, mas realizar um acto de fé num futuro melhor. Deste modo, a Igreja Católica concretiza uma das intuições do Concílio Vaticano II: favorecer relações amistosas entre ela e os membros de religiões não cristãs. Há já várias décadas que o Conselho Pontifício competente tece laços, multiplica os encontros e publica regularmente documentos para favorecer tal diálogo. A Igreja tenta assim pôr remédio à confusão das línguas e à dispersão dos corações nascidas do pecado de Babel (cf. Gn 11). Saúdo todos os responsáveis religiosos que tivestes a amabilidade de vir encontrar-me. Quero assegurar-vos, tanto a vós como aos dos outros países africanos, que o diálogo oferecido pela Igreja Católica brota do coração. Encorajo-vos a promover, especialmente entre os jovens, uma pedagogia do diálogo, para descobrirem que a consciência de cada um é um santuário a respeitar e que a dimensão espiritual constrói a fraternidade. A verdadeira fé conduz, invariavelmente, ao amor. É neste espírito que a todos vos convido à esperança.

Estas considerações gerais aplicam-se de maneira particular à África. No vosso continente, são numerosas as famílias cujos membros professam crenças diversas, e todavia permanecem unidas. Esta unidade não se fica a dever só à cultura, mas está cimentada na estima fraterna. Naturalmente, às vezes verificam-se derrotas, mas também muitas vitórias. Neste campo particular, a África pode fornecer a todos matéria de reflexão e ser assim uma fonte de esperança.

Para concluir, queria propor-vos a imagem da mão: compõe-se de cinco dedos, diferentes entre si; mas cada um deles é essencial e a sua unidade forma a mão. O bom entendimento entre as culturas, a consideração sem transigência de uma pelas outras e o respeito pelos direitos de cada um são um dever vital; é preciso ensiná-lo a todos os fiéis das várias religiões. O ódio é uma derrota, a indiferença um beco sem saída, e o diálogo uma abertura. Não é este um bom terreno onde será possível lançar as sementes da esperança? Estender a mão significa esperar para se chegar, num segundo momento, a amar. Que há de mais belo que uma mão estendida? Esta foi querida por Deus para dar e receber. Deus não a quis para matar (cf. Gn 4, 1-16) ou fazer sofrer, mas para cuidar e ajudar a viver. Juntamente com o coração e a inteligência, pode, também a mão, tornar-se um instrumento de diálogo; pode fazer florir a esperança, sobretudo quando a inteligência titubeia e o coração tropeça.

Segundo a Sagrada Escritura, há três símbolos que descrevem a esperança para o cristão: o capacete, porque protege do desânimo (cf. 1 Ts 5, 8), a âncora segura e firme, que fixa em Deus (cf. Hb 6, 19) e a lâmpada, que permite esperar a aurora de um novo dia (cf. Lc 12, 35-36). Ter medo, duvidar e recear, acomodar-se no presente sem Deus, ou não ter nada a esperar, são atitudes alheias à fé cristã (cf. S. João Crisóstomo, Homilia XIV sobre a Carta aos Romanos, 6: pg 45, 941c) e — suponho — a qualquer outra crença em Deus. A fé vive o presente, mas espera os bens futuros. Deus está no nosso presente, mas também no futuro, «lugar» da esperança. A dilatação do coração não é só a esperança em Deus, mas também a abertura ao cuidado das realidades corporais e temporais para glorificar a Deus. Na linha de Pedro, de quem sou sucessor, desejo que a vossa fé e a vossa esperança estejam postas em Deus (cf. 1 Pd 1, 21). Estes são os votos que formulo para a África inteira, que me é tão querida! África, tem confiança e levanta-te. O Senhor chama-te! Que Deus vos abençoe. Obrigado.

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16 de Setembro de 2019

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